terça-feira, 27 de dezembro de 2016

Procuro uma alegria na mala vazia do final do ano, e eis que tenho na mão: flor do cotidiano, o vôo de um pássaro e uma canção!! ________________________________ C. Drummond

Arquivo Pessoal
Tem um Ano Novo ali em frente. Viu? Nós já podemos entrar. Mas vamos com calma. Todos nós cabemos lá. Tem espaço e tem tempo pra você e para mim e todo mundo. Os mesmos trezentos e sessenta e cinco dias que nos cabem estão lá, esperando. O Ano Novo ali em frente já deu as caras. Está no ponto, os motores ligados, os dias organizados em fila indiana, as estações aguardando sua vez de acontecer. Olha como é bonito em sua roupa nova, seu cheiro de tinta fresca, seu hálito doce de cachorro filhote lambendo o nariz da gente. Olha! Esse entusiasmo sincero de aluno novo, essa beleza de gente esforçada. Porque pouca coisa nesse mundo tem a graça honesta de quem se empenha no trabalho como quem dá jeito na vida! O Ano Novo ali em frente é uma delas. Está pronto, o coração aberto, as mãos operosas ansiando pelo que será. Fácil não há de ser. Nunca é. Vai doer. Sempre dói. E talvez a dor piore com o tempo e a idade. Mas tentar ainda é o único jeito de fazer. Tem um Ano Novo ali em frente e eu tenho uma porção de votos. Não repare no jeito, na pressa, mas daqui a pouco é meia-noite do dia 31 e se a gente não corre o prazo acaba e a mágica se perde. Primeiro, eu desejo um pouco mais de leveza. Aliás, “um pouco” não. Eu desejo que no Ano Novo ali em frente a vida seja muito mais leve para nós. Não estou pedindo menos trabalho, menos afazeres e compromissos e prazos mais brandos. Nada disso. Eu só quero que vá longe o peso morto e inútil das  de coisas que não valem a pena. Que nesse caminho sobrem trabalho e saúde, amor e amigos. Que o solzinho manso do sábado de manhã e o vento amoroso do domingo à tarde escorreguem gentis para o resto da semana. E que as noites sejam carinhosas conosco. Que cada dia do Ano Novo ali em frente seja bom de lembrar como o primeiro encontro perfeito entre duas almas gêmeas ou, pelo menos, muito parecidas. Você sabe esses encontros memoráveis em que a gente se pega, horas depois de se despedir, repassando mentalmente diálogos inteiros, um sorriso descarado na cara? É o que eu desejo para nós no Ano Novo ali em frente.

Que o Ano Novo ali em frente seja para nós uma sequência infinita de boas novas.



André J. Gomes

sábado, 24 de dezembro de 2016

Que eu comece diariamente a partir de onde estou e anuncie adiante a vitória da luz... (G.A.)

Um Belo Natal!!
Pai, permita-me ser o espelho dos meus escuros e o eco das minhas verdades. Ensina-me a aceitar-me no tempo entre as sementes e a colheita. Dá-me o próximo e os amanhãs para partilhar a compaixão que hoje me faltou. Coloca-me diante dos meus egoísmos para o necessário diálogo com a alma que reage às próprias feridas. Apresenta-me ao perdão que tanto busco, mas ainda não reconheci. Conceda-me a coragem para atravessar os medos. Revela-me os medos para descobrir a fé. Permita-me a gratidão que ontem não enxerguei, e os milagres que à porta não atendi. Abençoa-me através dos silêncios. Anuncia-Te através do poema. Ensina-me o amor como caminho de duas mãos. E permita que ofereça as minhas ao Teu trabalho.

Guilherme Antunes



Feliz Natal!

domingo, 18 de dezembro de 2016

Um menino nos nasceu, um filho nos foi concedido, e o governo está sobre os seus ombros. Ele será chamado Conselheiro-Maravilhoso, Deus Todo Poderoso, Pai-Eterno; Sar-Shalom, Príncipe-da-paz (...) ________________________________ Isaías 9:06

Desde a ascensão de Herodes, o Grande, que se fizera rei com o apoio dos romanos, não se falava na Palestina senão no Salvador que viria, enfim...Mais forte que Moisés, mais sábio que Salomão, mais suave que David, chegaria em suntuoso carro de triunfo para estender sobre a Terra as leis do Povo Escolhido. Por isso, judeus prestigiosos, descendentes das doze tribos, preparavam-lhe oferendas em várias nações do mundo. Velhas profecias eram lidas e comentadas, na Fenícia e na Síria, na Etiópia e no Egito. Dos Confins do Mar Morto às terras de Abilena, tumultuavam notícias da suspirada reforma... E mãos hábeis preparavam com devotamento e carinho o advento do Redentor.  Castiçais de ouro e prata eram burilados em Cesaréia, tapetes primorosos eram tecidos em Damasco, vasos finos eram importados de Roma, perfumes raros eram trazidos de remotos rincões da Pérsia... Negociantes habituados à cobiça cediam verdadeiras fortunas ao Templo de Jerusalém, após ouvirem as predições dos sacerdotes, e filhos tostados do deserto vinham de longe trazer ao santuário da raça a contribuição espontânea com que desejavam formar nas homenagens ao Celeste Renovador. Tudo era febre de expectação e ansiedade. Palácios eram reconstruídos, pomares e vinhas surgiam cuidadosamente podados, touros e carneiros, cabras e pombos eram tratados com esmero para o regozijo esperado.  Entretanto, o Emissário Divino desce ao mundo na sombra espessa da noite. Das torres e dos montes, hebreus inteligentes recolhem a grata notícia... Uma estrela rutila no firmamento. O enviado, porém, elege pequena manjedoura para seu berço de luz.  porque as vozes do Céu se fazem ouvir, cristalinas e jubilosas, cantam eles também...- "Glória a Deus nas alturas, paz na Terra, boa vontade para com os homens!..." Ali, na estrebaria singela, estão Ele e o povo... E o povo com Ele inicia uma nova era...É por isso que o Natal é a festa da bondade vitoriosa. Lembrando o rei Divino que desceu da Glória à Manjedoura, reparte com teu irmão tua alegria e tua esperança, teu pão e tua veste. Recorda que Ele, em sua divina magnificência, elegeu por primeiros amigos e benfeitores aqueles que do mundo nada possuíam para dar, além da pobreza ignorada e singela. Não importa sejas, por enquanto, terno e generoso para com o próximo somente um dia. Pouco a pouco, aprenderás que o espírito do Natal deve reinar conosco em todas as horas de nossa vida. Então, serás o irmão abnegado e fiel de todos, porque, em cada manhã, ouvirás uma voz do Céu a sussurrar-te, sutil: - Jesus nasceu! Jesus nasceu!... E o Mestre do Amor terá realmente nascido em teu coração para viver contigo eternamente.

D.A.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“Falo do amor de forma mística, sei o preço. (…) *


Quando se percebeu amando - verbo este deliciosamente posto no gerúndio - havia ela já cruzado passos da sutil linha entre qualquer coisa e o amar. Pudesse esta qualquer coisa antes ser paixão, entusiasmo, desejo, afeto, dedicação ou estes todos e outros mais catalogados. O que agora era, era a soma e a exata descontinuidade disto. E não seria o tempo a legitimar o amor. E não seria palavra vinda da boca a iniciar o tempo em que se ama. Quando se percebeu amando, havia já colhido em silêncio o fruto da árvore sem se dar conta. Quando se percebeu amando, percebeu apenas porque já se era outro. Caia o homem no abismo para elevar-se, dando por si nos seguintes dias do seu próprio renascer.


Guilherme Antunes-Adaptado


Simone de Beauvoir

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

"Quem vive num labirinto tem fome de caminhos." _______________________ Mia Couto

se fizeres teu caminho inverso, qualquer hora dessas a gente se esbarra.
e, com sorte, reescreve todo o passo que desviou.
mas por agora, deixa! que eu não sei inventar um jeito de não partir e tenho chão demais pra riscar com carvão e giz. 
.do outro lado.
dentro.
que, embora a gente ainda prefira acreditar que amor da vida não existe, eu quero construir morada num coração aberto, que tire meu silêncio pra dançar sempre que os dias pensarem em se resumir em solidão.
não pense que não me dói qualquer partida.
mas é que fiz desse sorriso meu escudo. 
e aprendi desde menina que o mundo é grande demais pra gente fincar estaca em qualquer 
chão.
por isso falo baixo.
ouço mais do que digo.
pareço às vezes não me importar.
desconfio da esmola.
desconfio do santo.
tenho medo do mar.
há de chegar o dia em que nosso silêncio vai dizer tanto! 
e a gente não vai mais precisar partir.
ou insistir.
até lá, tem café fresco e forte no bule na cozinha,
pra que seu dia passe e você sequer sinta que faltou alguma coisa.
porque vai ver, nunca faltou nada.
vai ver, o vazio foi sempre veio do meu peito.
e das minhas vontades de voar...


Debora Gomes

domingo, 11 de dezembro de 2016

Ela faz charme, pois espera que alguém desarme as suas defesas. _______________________ Noemi Prates


"Vontade de me apaixonar, de ser vencida por um olhar, de ser roubada por uma mão que me pega na cintura, de ver alguém me descobrindo com ar de surpresa, de perder o raciocínio para o pensamento em alguém, de não enxergar distância entre os dois lados da cidade, de me arrumar por algum motivo a mais que o trabalho, de ter disposição para encontrar músicas novas, de ler uma poesia e saber que seria possível vivê-la, de encontrar alguma graça em passar pelo domingo, vontade de ser encontrada em uma multidão de vazios, vontade de que fosse agora e para sempre. Preciso te achar desesperadamente e é tão pouco e quase próximo...o que nos separa são os encontros."

Cáh Morandi

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Outro dia me falaram do amor que nunca vem. Esperas, distrações, descrenças. Uma janela aberta caso o vento fosse portador de tal evento. Pra quem sabe o amor, ele está na próxima esquina. Isso me encanta. Sou das esquinas. E das janelas perfumadas do teu cheiro. _______________________ Dan Cezar

Amamos como nos amaram. Amamos como permitimos que nos amem. Amamos como permitimos nos amarmos. Amamos como gostaríamos de ser amados. Amamos como gostaríamos de ter sido amados. Amamos como já nos faltou amor. Amamos como faltou amarmos. Amamos de posse de todas as certezas. Amamos carregados de todas as dúvidas. Amamos como se fosse simples. Amamos como se difícil fosse. Amamos como se fosse apenas desejo, e desejamos como se pudesse ser amor. Amamos como faltou termos acertado mais. Amamos como faltou termos errado mais. Amamos como se fosse o primeiro. Amamos como se fosse o último. Amamos como se no amor tudo esperássemos. Amamos como se não quiséssemos nada mais. Amamos como se nos sobrasse. Amamos como se nos faltasse. Amamos melhorados. Amamos piorados. Amamos armados e armamos jeitos vários de não amarmos mais, para depois desamarmos ainda amando. Amamos como quem busca. Amamos como quem se encontrou. Amamos. Amemos. Ao menos, que possamos dizer que ao final tentamos.

Guilherme Antunes

terça-feira, 6 de dezembro de 2016

Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, para que voasse com a urgência grande de esquecer assuntos. _______________________ Guilherme Antunes

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos.Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.




Guilherme Antunes

domingo, 4 de dezembro de 2016

Tens a medida do imenso? Contas o infinito? _____________________ Hilda Hilst

Há quem diga que o pássaro sabe de liberdades, que a primavera sabe das flores, que a prosa fala de amores. Há quem pense que Deus esta no rito, que a voz esta no grito, que os sorrisos são feito de cores. Há quem acredite que o sol se deita mais cedo quando a tristeza dança com as estrelas e que as madrugadas visitam mais as noites acordadas somente quando um sonho não dorme. Há gosto pra tudo, há adeus nos olhos e um diálogo mudo. Há despedida apressada, há página do último capítulo molhada pela lágrima do destino. Há quem pense que é homem, mas no fundo é menino. Há tanta chance descartada, há quem faça a escolha errada e há também quem tem alma alargada pela esperança de um talvez. Há quem conte a história sem legenda, e, mesmo que ninguém entenda, o final começa com: era uma vez......(reticências)

Lilian Vereza

sábado, 3 de dezembro de 2016

"Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar." ________________________ (Fabrício Carpinejar)

"Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine."




(Fabrício Carpinejar)

terça-feira, 29 de novembro de 2016

Quem me dera pudesse compreender. Os segredos e mistérios dessa vida. Esse arranjo de chegadas e partidas. Essa trama de pessoas que se encontram. Se entrelaçam. E misturadas ganham outra direção… | Pe. Fábio de Melo |

O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

| Clarice Lispector |

sábado, 26 de novembro de 2016

“Não faltou amor, não da minha parte.” _______________________ — Querido John.

Sei disso. Minha liberdade nunca coube no teu abraço. Meu riso solto, minhas fotos confessionais, minhas músicas escolhidas a dedo. Não foi fácil te manter segredo, quando o que eu sentia queria sair pela boca, pelos olhares, pelo corpo, pelos corredores, pelas persianas do meu andar. Minha arte sempre foi sofrer sorrindo, entende? Você jamais saberá dos presentes que eu comprei e não entreguei, das mensagens que rascunhei e apaguei. No meio do furação eu te descobri. E eu já sentia tanto, eu já sentia tudo. Eu já fazia planos pra nós. (...) Quem tem alma que cabe jamais me interessou. Sou mandala de imprevistos, improváveis. Sou de possíveis. Não sei pisar em ovos. Minha melodia é livre e não cabe num único estilo musical. Moço, eu tenho asas por dentro, sabe? Já percebeu que vira e mexe, estou voando, na tua frente? Sou profunda e abrigo armários de mar, prontos para acalmar minha euforia dominical, se preciso. Troco esse carnaval tradicional por livros e dois dedos de vinho quase todo ano. Minha pele tem pó de estrela e meu cabelo, estações. Sou fotográfica. Não troco sono tranquilo por amores desarrumados. Meu vigor anda de havaianas, senta no chão, medita em campo aberto, procura vinis no sábado a noite, acontece na contramão das ondas fortes, avassaladoras. Sou desassossegada dentro de um vestido preto. Não gosto de brincos maiores do que minhas orelhas e sim, não sei varrer ansiedade para baixo do tapete. Vez por outra permito que a tristeza leve meu sorriso, pra variar a cara lavada de sempre. Uma casa chamada intuição. É meu coração. Alarga, absorve, expulsa, canta, contém e compõe, me põe em cima e embaixo, que é para relembrar a existência. Sobre doer nobremente, quem nunca? Sou carne e espírito, fique sabendo.


Erica de Paula

sábado, 19 de novembro de 2016

Sempre sofri. Sempre tive febre. Sempre estive inteira em todos os infernos. Nunca quis ser abandonada. Mas aprendi a perder. O Naufrágio me ensinou a ternura dos afogados. _____________________________________ Marize Castro

Dei um pulinho no céu, que é o que a gente faz cada vez que visita aquelas lembranças, azuis que são, de tanto céu, azuis que são de tanto mar, mergulhos de sonhar, não dormir pra acordar, lá dentro, no mais afetuoso lugar, aquele azul bonito que se intensifica, qualifica sempre mais e mais e mais, banho de sais, perfumes que pairam nas ondas de cada gota desse mar céu azul de lembrar. Nem um som. Nem um movimento. É tudo por dentro. Até respirar pede pausa. Como se entre uma puxada de ar e outra, algo raro, único, irretornável, fosse escapar. Não escapa. Pode respirar. Transbordam águas que sempre voltam ao mesmo lugar. A primeira intimidade. O suspiro. A reação. Outra ação. Tão delicada. Noite longa. Madrugada. Nem um toque poderia ter tanto poder quanto a palavra encantada. Despertada. Noites de lua. E estrelas. Ora chuvas. Ora poeira. E aquela zonzeira boa de tocar o irreal, o celestial momento de estar. No outro. E o outro. Te invadir. Sentir. Poderoso verbo. Sentir. Nada te rouba o sentido. São dos sentidos o território seguinte. Portal. Abram-se instantes. De novo. E de novo. Infinitamente dentro e além. Não é da mente. É mais. É céu azul. E mar. Quando nos pomos a imaginar...Dei um pulinho no mar. E ara tanto azul. Que parecia mais que mar. Já era céu quando fechei os olhos. E as estrelas se sumiram pra deixar o azul ser todo meu. Por uma meia hora. Ou um pouco mais. Estávamos juntos. Como o combinado. Lá no início. Pra Março. As estrelas tocavam pra nós, e a multidão sumia. Sorrir junto era a prova dos nove. Dos dez. Dos milhares de dias que negociamos ficar. Sua mão na minha. Minha mão na sua. Juntas, bocas sempre a procura, a sua à minha, como se a minha não estive a um palmo da sua. Dançamos como loucos. Alucinamos. E rimos. E rimos juntos como se só a gente soubesse o segredo dos sorrisos. O que te fato fazia sentido. Invadimos as portas do céu. Retomamos nosso estado de anjo. Eu, o seu. Você, o meu. E havia invasão. Angelicais eram nossos passos em direção aos nossos próprios passos, que se faziam prazer em compasso. Quando tudo é um prazer. Ou era. Acordar. Abrir os olhos. Despertar. Dentro. E ir e vir e nunca pensar em verbos finitos. Só os bonitos. Outra é a forma de ser dentro do amor. Ali não cabia nada mais, além do amor. Era céu. Azul do mar. Onde eu fui mergulhar. E você veio atrás. Dei um pulinho no azul, e era tudo azul demais, azul que é a cor da fantasia que só se confidencia à lua, à cama, às aguas do céu às estrelas do mar...Que lugar é este pra onde a gente vai sem ir, e quer lá ficar , pra sempre, sem nunca mais ter que voltar... Será que o céu é um pedaço de tudo que se perdeu e se amou e se quis, será que o céu é descobrir que a gente era capaz de ser feliz, e assim, como o azul é azul em tanta matriz, ganhar um cantinho lá dentro, anjo ser de um, para o outro, pra dentro, mar, além, é tanto céu, fechar os olhos, e de repente ver a lua, contemplar o tamanho da lua, e ali na janela, seminua, cantar baixinho qualquer canção que continua, nos ecos, dos suspiros, dos corações vadios, que antes de dormir, acordam pra bulir com sonhos, lembranças, pulos de prazer, azul do céu, bem fundo, no mar, dentro, fora, acima, embaixo, vontade de ir, e lá ficar!

Be Lins

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo. ........................................................ Érico Veríssimo

"O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia suportar a ideia de nunca mais escutar esse riso. Ele era, para mim, como uma flor no deserto. Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Corremos o risco de chorar um pouco, quando nos deixamos cativar."


Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"Pode partir quantas vezes quiser, sentimento não é bagagem de mão, é de alma." _________________________ Danilo M.M.

O que nos sangra, num momento como esse, é a obrigação de desamar. Mas será que isso existe? Os poetas, há muito, já apregoaram que o amor é sempre “para sempre”. Questionaremos as verdades poéticas? Banalizaremos o amor? Faremos dele um bibelô barato e quebrável destinado a adornar, por breves dias, as estantes da nossa alma?


Nara Rúbia Ribeiro

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Eu gostaria de falar que dentro de tantas coisas que eu já disse, há mais centenas para te contar e que todas as vezes que eu noto a sua ausência, eu me pergunto quanto mais para esperar. “Eu gostaria muito que você soubesse de todas essas coisas, mas o que eu gostaria mesmo é que você viesse, quisesse apostar. Que os seus braços fossem de vez um refúgio, o lar perfeito para morar. _______________________ Yamí Couto


Eu vou te ser sincera. O que sinto por você me deixa sequelas. Mas é você que eu quero. É uma promessa. Nós sabemos o que queremos, o que nós dois podemos e eu não vou te cobrar mais do que aquilo que pode me dar. Mas se puder me atender, me toca. Encosta. Eu não quero mais do que eu mereço. Por um lado você é sossego. É apego. Mas se puder me atender, me toca. Encosta. Eu sei. Sou tão nova para competir contigo quando contarmos anedotas, mas respeite o feminino. Sou mulher desde cedo, capaz de apagar as tuas derrotas. Mas se puder me atender, me toca. Encosta. Me olha com desejo quando eu estiver com o teu cheiro, como se fosse a primeira vez e a última que eu te tiver por dentro, como se eu fosse a única capaz de suprir suas carências, a falta de cartas de amor na correspondência e de tudo que te causar certa dependência. Se puder me atender, me toca. Não me troca: – Pelas suas sábias lições de vida que não te dão qualquer saída, – Pelas mulheres feridas que te servem de inspiração e falsa boemia, – Pelas suas escolhas em viver fantasias de que estar parado na monotonia é melhor que se surpreender com a vida. E pela última vez me encosta na porta, e não me deixa sair de nenhuma forma. “Me encoste, toque… sei que sou tua sorte.”



Yamí Cout

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Não me procure nas evidências. Nem nas coisas fáceis. Sou tão mais intensa. Me escondo na delicadeza. Na sutileza. Atrás de um coração. Eu só existo na alma sensível, de uma mulher que você ainda não viu. ____________________________ Patty Vicensotti

Senta ao meu lado e venha escutar o meu silêncio... E enquanto o meu coração bater eu não desisto da gente. Preciso de você aqui no meu presente. No seu abraço sinto a reciprocidade nos seus batimentos acelerados. Senta ao meu lado e vamos viver no agora os nossos momentos. As pupilas dilatam, conversa de quem se ama e se entrega. Depois vamos tomar um café que a nossa amiga insônia adora quem faz companhia para ela. Aqui dentro de nós a conversa é sempre intensa e sem hora para acabar.

Maria Emilia

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, Mas a poesia (inexplicável) da vida.” _________________________ Carlos Drummond de Andrade

Não tem graça falar sobre homens, todo mundo sabe o que eles pensam e desejam, basta uma boa televisão e sexo para se construir um casamento feliz com um macho humano. A mulher, sim, traz consigo a incompreensão, o seu amor é um mistério até pra elas mesmas. Na literatura e/ou filosofia, as mulheres sempre são exteriorizadas como detentoras do poder, todos querem satisfazê-las, e a missão é entender que se você não a ama, ela te esquece, contudo, se amar demais, ela terá tédio de você. Em um dos atos de Hamlet, livro escrito por Shakespeare, o seu protagonista revela a maior desilusão quanto ao amor feminino. No momento em que Hamlet e Ofélia assistiam à peça, esta, referindo-se ao prólogo, disse: foi curto; Hamlet respondeu de maneira ácida: “Tal como o amor das mulheres”. Em outros momentos Hamlet aconselhou que Ofélia fosse ao convento, talvez para prevenir a possível maldição do amor feminino (ou talvez porque ele estava se fazendo de doido mesmo). Friedrich Nietzsche dizia que no amor e na vingança, a mulher é mais bárbara do que o homem. Dizem que a única paixão do Filósofo Bigodudo fugiu com um de seus melhores amigos, talvez isso tenha motivado a barbaridade de suas palavras. O personagem Don Juan aconselhava-nos a dar a mulher o que ela não tem. Tratar como princesa a mulher prostituta e como prostituta a patricinha: “assim você será inesquecível para cada uma delas”. Freud, ao estudar sobre a questão da histeria nas mulheres, percebeu que tal coisa (histeria) advinha de uma castração do desejo sexual feminino, alimentado por uma sociedade conservadora. Voltando a Sigmund Freud, acho importante ressaltar que as suas biografias nos dizem que o nosso psicanalista favorito era um romântico, que trocava cartas gigantescas com o seu amor: Martha – ‘’ oh minha princesa’’. Reli o que escrevi no último parágrafo e me senti como colunista de uma revista de fofoca. Calma, leitor, eu tomarei mais cuidado, é o amor que deixa a gente assim. Luiz Felipe Pondé escreveu um livro chamado ‘’ Guia Politicamente incorreto do sexo’’, no qual aludiu que o feminismo não entende a mulher, pois não existem direitos iguais na cama. A mulher quer mesmo é ser submissa. Sade é conhecido por ser um Filosofo libertino, e como todo libertino acredita que não há limites quando o assunto é sexo, neste, inclusive, tampouco há razão, o sexo é irracional. A mulher quer o homem selvagem e foge do educado. Uma amiga minha, certo dia, revelou-me um segredo: “Eu gosto de homens corajosos”. Nesse momento você vê aquele seu amigo colecionador de notas baixas, feio e entroncado, com aquela gatinha da sala. Você olha para si e se percebe solteiro e solitário, apesar de sua beleza facial e suas boas notas. A imagem que se tem é que a mulher gosta de homem que não presta, porém talvez elas gostem de quem tem coragem, então, logo você entende que a sua covardia é que te coloca como um perdedor. O homem que diz que mulher gosta de homem que não presta é movido pelo ressentimento. O ressentido brada contra aquilo que aponta o seu fracasso, tenta culpar a mulher pela sua própria covardia. Leitor, apesar das leituras que fiz e do meu “conhecimento de causa”, confesso-lhe que não entendo a mulher, e, se você for mulher, provavelmente também não deve se entender. É algo complexo que demanda por anos e anos de estudos e “foras”. Um amigo meu, ao desabafar para mim, disse que enquanto houver Matemática e mulher, a sua vida será um fracasso, pois nunca irá compreendê-las. Eu não podia fazer nada, senão concordar.

João Neto Pitta



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

"Naquela tarde quebrada, contra o meu ouvido atento, eu soube que a missão das folhas é definir o vento." _______________________________Ruy Belo

Relacionamos aquilo que entendemos como felicidade às exteriores conquistas que reincidimos. O tempo revela o que por conveniência insistimos não enxergar: esta felicidade se trata apenas de um alívio. Não à toa buscamos repetir a sensação que jamais em nós se instala. Seja através de um novo emprego, um relacionamento, o carro do ano, uma viagem ou um celular e teremos com eles momento de satisfação que logo se dissolverá, continuando nós a procurarmos a felicidade naquilo em que não pode ser encontrada, insistindo no alívio como seu pobre substituto: um elogio que nos façam, um outro relacionamento, uma demonstração de reconhecimento, uma nova compra. Adquirimos, mudamos e conquistamos para obter alívio para uma condição insuficiente. Não há nada ou ninguém que possa dissolver a ânsia e o incômodo que carregamos, senão as revelar como um espelho. Somente nós podemos reconhecer a própria incompletude e um algo ou alguém não poderá completá-la, embora com eles e por eles nos distraiamos, anestesiemos e nos esqueçamos. A felicidade é algo que carregamos mas que ainda não sabemos acessá-la permanentemente. É possível que quando a alcançarmos venhamos a compreender a futilidade das nossas repetições e insistências. A felicidade é o que buscamos, embora a confudamos facilmente com euforia, excitação, inclusive ansiedade. Ela é independente do outro ou de qualquer objeto - isto é, da realidade exterior - e sim relacionada a nós e às nossas interiores dimensões. Eis a sutil diferença que toda diferença faz.
 
Guilherme Antunes

domingo, 30 de outubro de 2016

O obvio é a verdade mais difícil de se enxergar. _______________________ Clarice Lispector

Por que é que a gente se abandona? O que fica quando viramos a página? O que acontece dos nossos pedaços deixados para trás? Mesmo quando a rotina não me toma, eu me ocupo. Assisto um filme, leio um livro. Fico pra depois. Eu saio de casa, eu compro algo que não preciso. Mais tarde eu penso, mais tarde eu me ouço. Por dentro algo ferve, cresce, borbulha. E eu devolvo pra dentro e guardo lá no fundo e aperto F5 nas redes sociais. Sempre esperando aquele sinal de que uma mudança grande está chegando. E o que eu fiz das mudanças que já vieram? Os hojes que eu atropelei em busca de um amanhã? Os futuros esquecidos no presente? Quando é que a gente para de correr e percebe que chegou lá?

Verônica Heiss

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Aí ele chega, provoca o caos nos seus sentidos, causa uma bagunça, você não sabe como se sentir, porque tudo é intenso, ele te faz sorrir da mesma forma que lhe faz chorar. E acha ruim quando você não consegue discernir se é bom ou ruim tudo o que ele desperta em você. ________________________ Ana Paula Leite


Escolha a menina que você sente falta depois que a festa acabar. A que você tem vontade de dormir de conchinha e sinta dó de tirar o braço dormente debaixo dela. Escolha a menina que você gosta de conversar até de madrugada, que faz você sorrir com uma simples mensagem e que se emociona com a sua declaração de amor. A que adora ficar te olhando dirigir e que sente orgulho de estar no banco do passageiro, independente do carro que você tenha. Escolha a menina que discorda de você, que tem manias e opiniões próprias, que admite preferir outro restaurante e que assume não gostar de Senhor dos Anéis mesmo sabendo que você é fã. Porém, respeita suas particularidades, apoia suas decisões e enxerga o mundo de um jeito que combina com a sua maneira de ver a vida. Escolha a menina que tem o olhar mais sexy do que a saia ou o decote que usa. A que toda vez que você olha está ainda mais linda do que antes e que torne difícil a despedida no fim da noite. Escolha a menina que você acha linda de pijama e que não precisa de lingeries caras pra ser a mais sexy do mundo pra você. A que rouba a sua coberta no meio da noite e que ao acordar com frio e descoberto, você olhe para egoísta ali toda aquecida e sinta vontade de cuidar para sempre. Escolha a menina que te surpreende nas pequenas coisas, que faz com que a união dos seus corpos aqueça a alma. A que consegue diferenciar os momentos de doçura dos de total entrega física, que te manda mensagens fofas e outras só para aquecê-lo até o encontro de mais tarde, mas gosta mesmo é de falar baixinho ao pé do ouvido. Escolha a menina com quem você tem músicas junto e, principalmente, te faz começar a entender o sentido de várias outras que tocam na rádio. A menina que se esforça pra te dar um presente criativo no Dia dos Namorados, não o presente mais caro, mas o mais significativo. Escolha a menina que te aceita do jeito que você é, com qualidades e defeitos, sem idealizações hollywoodianas. A que enxerga você além do que o resto do mundo pode ver e que você soma em vez de tentar te completar um cara que já nasceu inteiro. Escolha a menina que é a primeira que você pensa em falar quando tudo dá errado e quando tudo dá certo, a que você corre contar sobre a demissão e sobre o novo emprego. Aquela menina que é a melhor companhia e a melhor companheira, que te acompanha na festa chique do sábado e no programa de índio do domingo. Escolha a menina que tem um milhão de defeitos, que às vezes é chata, teimosa e difícil, entretanto, sabe pedir desculpas, reconhecer o erro e que tem incontáveis qualidades que a tornam extraordinária. Escolha a menina que te mostra que dividir a pipoca, a cama, o doce, o cobertor, o guarda chuva e todo resto só multiplica a felicidade. Escolha a menina que sabe que só amor não é suficiente, que te impulsione pra frente e te jogue ao mundo porque sabe que vocês conseguem dar um jeito depois. A que compreende que brigas em excesso é coisa de criança, desgastam qualquer relação e que diálogo e confiança são aquelas coisinhas que fazem o amor durar. Escolha a menina que te faz entender que todas essas afirmações clichês fazem o maior sentido e são poucas para descrevê-la. A menina que você, após ler esse texto, sentirá vontade e marcar o nome nos comentários… A menina foi escolhida, mas stambém escolheu estar ao seu lado.

● Jéssica Delalana

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Deve existir algo estranhamente sagrado no sal: está em nossas lágrimas e no mar... __________________________ Khalil Gibran

Arquivo Pessoal
'não vos esqueçais que a terra ama sentir os vossos pés descalços. Não vos esqueçais que ao vento agrada jogar com os vossos cabelos.'


Khalil Gibran – 
Sobre a simplicidade

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Olha bem para as flores, menina. Escuta: elas não deixam de ser flores quando vais embora. É da essência delas: Perfumar campos e encrespar os cabelos das amantes. Tal qual o teu cerne de fazer o bem e pintar mundos no mundo, a cor. A flor nasceu para ser flor. A síntese colossal da tua existência. _____________________________ Abraão Vitoriano

O tempo não volta, moço. Ainda que regresse por rotas que um dia passou, as pessoas não estarão paradas no mesmo lugar. As situações serão outras. Outros mistérios, novos anseios. Entreguei em tuas mãos a chave. Desafiei os espaços, a noção do certo e errado, ignorei conselhos amigos. Escolhestes o discurso, a cobrança, as homéricas cenas. Enquanto fixavas teu olhar no deserto, no vento cálido, nas ancestrais desculpas. Eu mirava onde o vento fazia a curva, onde nasceu a primeira gota. O tempo não volta, moço. Levantei da calçada, troquei as janelas, cortei o cabelo, aprendi a respirar fundo, preferi estar acordada. Outros mistérios, novos anseios. O vento, o tempo te levou para o lugar que tu escolhestes. Quanto a mim, optei por ser nuvem e pé no chão.


Abraão Vitoriano

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos actos, não pelas palavras. Ela me perfumava e me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar " _________________________________ Antoine de Saint-Exupéry Do livro "O Pequeno Príncipe"


Tudo passa? Talvez não. Talvez esta seja uma visão inflexível demais sobre a transitoriedade da vida. Um amor não se faz eterno pelas lembranças? As mais duras mágoas não se transformam em sabedorias? Quantas paixões não mudam e ainda assim permanecem inteiras, no mais perfeito companheirismo? Essa efemeridade total parece dura demais, até mesmo para o meu típico realismo. Desumana demais. Eu prefiro acreditar em alguns eternos. Alguns, somente. Porque ainda assim algo é certo. Nem tudo fica. Não importa o quanto nos fazemos presentes. Não importa o quanto nos apegamos até mesmo à dor. Algumas coisas simplesmente não permanecem. Mágoas ou alegrias. Os desejos de dividir uma vida ou as óbvias ausências disfarçadas de liberdade. Então, eu tenho me permitido ser mais flexível. Não apenas para a ideia de que certas coisas não passam. Mas também para enxergar tudo o que não fica. 

Matheus Jacob

domingo, 23 de outubro de 2016

"Vento, "Paris foi feita pra ti." ________________________ Mel

Eu vou. Com a minha caixa de histórias e meu rímel borrado. Já esfreguei meus olhos pra ver e intimei os ouvidos a ouvir. Escuta: é o vento que canta. Ando desacelerada e me convém. Preciso de mais tempo. De mais ar e de mais flores. Castelos em Paris? Quem sabe. Eu vou. Essa caixa de histórias pode se abrir, cair a qualquer momento não vão. E eu, então, precisarei iluminar o céu, para dizer do que vivi. [olhos estrelando. anote aí]

Érica de Paula

sábado, 22 de outubro de 2016

Eu amo ler pessoas. Mas, ultimamente, não tem sido interessante. Deixo-as na estante, pois cansei de chorar nos finais. ___________________________ Noemi Prates.

Nunca antes a indiferença, maquiada pela tecnologia, ‘destruiu’ tantas expectativas como atualmente. Não é o ‘ódio’ pelo outro que desmonta seu sorriso tão duramente costurado. Não é a ofensa que apaga do coração a centelha de uma afinidade qualquer. O que entristece a alma, aquilo que pode afogar os sentimentos mais básicos de um coração, chama-se indiferença. A indiferença é arte do desdém. Quem pratica a indiferença possui uma veia artística. Esse tipo de pessoa costuma pintar em matizes opacas no rosto do desdenhado a palavra ‘desumanidade’. Pois o que seria a indiferença senão a desconstrução da humanidade? Quem pratica a indiferença – ‘te respondo quando me der na telha e olhe lá’ – faz do outro qualquer coisa, menos ser humano. Ignorar aquele que nos escreveu uma mensagem, que deixou um recado na caixa postal do telefone ou que nos enviou um ‘olá’ pelas redes sociais é desrespeitoso. Quem já leu Franz Kafka sabe o que é ver a indiferença tomar ares épicos. Tomo como exemplo ‘O Processo’. Na obra, um homem é processado sem saber o porquê procura entender o crime que cometeu sem ter cometido crime algum. Ele recebe menosprezo de seus detratores, amigos, família… todos. É visível durante a obra uma desconstrução de sua personalidade até sobrar nada mais do que algo, não alguém. O mesmo aconteceu com ‘monstro’ erudito do doutor Frankenstein. Foi o desprezo, o preconceito, generalização e discriminação que o transformou numa criatura cruel. Não é preciso morrer de amores por alguém que lhe escreve um ‘oi’ e você por educação lhe retribui com outro singelo ‘oi‘. Nunca soube de alguém que morresse por ser gentil, educado. Sejamos gentis nem que seja para dizer “gostaria que você não me escrevesse mais, ok?”. Acredite, isso soa mais ‘delicado’ do que o silêncio da indiferença. A multiplicidade aplicativos que nos conectam, carregam em seu DNA, como se projetados de fábrica, o recurso do desdém. É óbvio que não é uma boa ideia dar corda para aquele chato que a todo custo quer sair com você (Desfazer amizade e/ou bloquear são cortesias dos aplicativos). Mas pior ainda é silenciar diante das conexões virtuais. Estar conectado com todos é, ao mesmo tempo, não estar com ninguém. Não são poucos os que abdicam da vida social para viver atrás de um avatar que lhes garanta o anonimato. Ledo engano. Estamos todos mergulhados, alguns mais, outros menos, no lago da decisão alheia. Ele vai me responder? Ela vai me ligar? Poxa, não custa nada. E assim dependentes de palavras vindas do outro lado da tela permanecemos ansiosos e reféns da indiferença. É com pequenos gestos de atenção e respeito pelo outro que a sociedade muda. Se o desdém, a indiferença, a insensibilidade podem matar almas; gestos de educação podem revigorá-las. E isso vale mais que mil beijos.




Texto de Israel de Sá (Adaptado)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Amava como vivia. Vivia com delicadeza a maior parte dos dias. Interrompidos de tempo em tempo por explosões intermitentes e súbitas de raiva, ciúmes e paixão. Suas emoções desdiziam seus atos e corrompiam sua lógica. Seu pensamento era claro e refinado, mas suas emoções eram densas, turbulentas e selvagens. Amava como vivia, na mais sagrada contradição. _______________________________ Andréa Beheregaray.

Quem tem alma que cabe jamais me interessou. Sou mandala de imprevistos, improváveis. Sou de possíveis. Não sei pisar em ovos. Minha melodia é livre e não cabe num único estilo musical. Moço, eu tenho asas por dentro, sabe? Já percebeu que vira e mexe, estou voando, na tua frente?Sou profunda e abrigo armários de mar, prontos para acalmar minha euforia dominical, se preciso. Troco esse carnaval tradicional por livros e dois dedos de vinho quase todo ano.  Minha pele tem pó de estrela e meu cabelo, estações. Não troco sono tranquilo por amores desarrumados. Mas confesso, que às vezes, eles são os mais bonitos. Meu vigor anda de havaianas, senta no chão, medita em campo aberto, procura vinis no sábado a noite, acontece na contramão das ondas fortes, avassaladoras. Sou desassossegada dentro de um vestido preto. Não gosto de brincos maiores do que minhas orelhas e sim, não sei varrer ansiedade para baixo do tapete. Vez por outra permito que a tristeza leve meu sorriso, pra variar a cara lavada de sempre. Uma casa chamada intuição. É meu coração. Alarga, absorve, expulsa, canta, contém e compõe, me põe em cima e embaixo, que é para relembrar a existência. Sobre doer nobremente, quem nunca? Sou carne e espírito, fiquem sabendo.
 
Andréa Beheregaray.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Não sei para que servem essas singulares aulas de filosofia, se tudo o que realmente me interessa na vida é um bom recado na secretária eletrônica, uma carta, uma possibilidade...(Bruna Lombardi, Filmes proibidos, de 1990)


Eu só queria um pouquinho de carinho, será que é muito difícil? Uma atenção, um telefonema, uma correpondência, dá pra ser? Um pouquinho de companhia bastava, qual o problema? Sentimentos nasceram para serem sentidos, não para serem escondidos debaixo da dor.



— Verônica Heiss

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O rio faz seu próprio caminho...

Quando eu era pequena, vivia na ponta dos pés espiando e desejando habitar no mundo dos adultos. Na minha incorrigível ideia, adultos sabiam das coisas. Inventavam outras. Então, cresci. Aprendi tudo dos adultos. Aprendi o que desejava e o que nunca quis. E repeti as lições. Adultos franzem a testa. Criam rugas. Andam apressados. Demoram sorrir. Trabalham o tempo todo. Compram muitas coisas. Guardam em armários. Possuem desejos estranhos. Fazem coisas contraditórias. Engordam. Ficam zangados. Adultos possuem problemas reais e imaginários. Tomam remédios sem parar e nunca melhoram. Adultos fazem regras e desobedecem as leis. Guardam dinheiro. Guardam mágoas. Conservam coisas, descartam pessoas. Adultos são cheios de dúvidas. Complicam a vida. Fazem perguntas e não encontram respostas. Adultos brigam por seus dilemas. Aventuram-se pelo conforto. Adultos desamparam quem precisa. Desatam laços. Fazem nós nas situações. Querem ultrapassar limites. Cometem loucuras sem motivos. Falam duramente. Ferem sem necessidade. Adultos perdem o juízo, a calma, a alma. Adultos colecionam medos. Competem inutilmente. Estudam fórmulas, teorias, conceitos, regras e nunca usam. Adultos ficam tristes por qualquer coisa. Preocupam-se a toa. Choram sem razão. Entopem-se de felicidade provisória. Desiludem-se. Não se entendem. Amam por obrigação. Esquecem por suposições. Machucam por ilusões. Passam adiante as responsabilidades. Esquecem das flores. Afugentam os pássaros. Resumem os carinhos. Dispensam a alegria. Com os adultos a folia é silenciosa, os palhaços ficam sérios e o circo dorme. Adultos escolhem pelos olhos e condenam pelo coração. São coisas que aprendi e quero esquecer.


Ita Portugal e Reni Procopio Florentino.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Não quero mais saber do lirismo que não é libertação."

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

Não quero mais saber de lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira





domingo, 16 de outubro de 2016

Vocês não sabem o que têm nas mãos. Tocam os seios sem saber que no meio bate um coração. Beijam bocas sem ouvir o que elas têm a dizer. Fixam os olhos sem perceber que por trás há uma mente inquieta. São milhares de pensamentos e sentimentos que pulsam e se confundem, vocês deviam fazer mais que apenas assistir. ______________________________ Veronica Heiss

Vai me perdoando...Não sei lidar...
Estão todos olhando a moça passar. Falam de seu corpo, comentam seu mistério, disputam sua atenção. Mas se a moça olha, mudam de assunto, se a moça pede ajuda, ninguém escuta e se quiser companhia - coitada da moça! - vai continuar só. É assunto na academia, atrai olhares no trabalho e quando sai de noite também. Mas ela dorme sozinha e tem um vazio no peito que ninguém tem vontade de ocupar. A Menina tem um coração pesado que ninguém quer carregar. Quem olha de longe não percebe e quem não se aproximar nunca vai saber: a Menina gosta livros e Bossa Nova, queria saber dançar. Tem preguiça de filme cult e vê pequenos detalhes onde os outros enxergam cotidiano. E, acima de tudo, está cansada de tanto assustar e afastar as pessoas. Cansada de esperar vidas se resolverem por uma promessa de futuro e ficar pra trás mais uma vez. Quem vai cuidar da Menina triste? Quem vai levar de prêmio seu amor? Quem tem coragem de assumir o desafio e o coração pesado? Apostem suas moedas, esperem o próximo capítulo. Enquanto isso, a Menina também espera...

Verônica Heiss

sábado, 15 de outubro de 2016

As pessoas têm que se permitir. Aprender o atraso, o olhar em volta. Mudar o caminho de todos os dias e se perder no seu próprio bairro. É o que tenho feito, me perder. E devo dizer que estou muito feliz por não encontrar o caminho de volta. ______________________________ Verônica Heiss

Vamos nos atrasar. Por causa da chuva, por causa da preguiça. Sem culpa. Tem um mundo todo de gente lá fora que pouco importa. O carro bem poderia ter quebrado, ninguém vai saber se a gente não contar. Vamos nos atrasar por querer mais de nós dois. Fica mais um pouco e me deixa fazer parte da sua história. Quero o seu dia-a-dia na minha rotina e seu colo pra dormir. Quero nossos assuntos em pauta e nossa falta fazendo companhia. Eu quero mais que solidão a dois e inseguranças tristes para preencher cotidiano. Mais que sorrisos inconvicentes e quase amizades convenientes. Eu quero menos. Menos pensamento, menos dúvida. Um equilíbrio e você de brinde. Vamos nos atrasar, deixar o mundo acontecer do outro lado da porta enquanto a gente discute desenhos animados na cozinha e faz comida para o jantar. Esqueça a música alta, esqueça as pessoas e seus cumprimentos tediosos, é sábado, deixa pra lá. Tudo o que a gente precisa está aqui. Tem eu, tem você, tem uma madrugada inteira de nós dois. E isso é tudo.



Verônica Heiss

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Guardei umas palavrinhas secretas pra você, moço. São imensas de poesia são íntimas e delicadas (...) nuas intenções para que fiques e as minhas palavrinhas: despede-te das sombras. Tens agora um colo para sonhar." ___________________________ Dan Cezar

É uma característica tão feminina enxergar por trás das formas, que de vez em quando, perdidas nesse encantamento que independe completamente da aparência, somos colocadas mais longe do que gostaríamos dos homens que desejamos. Eles querem a 'pele'. Nós também. Mas para a mulher não há padrões, não há regras. O homem é desejado por um todo, e química pra nós tem outra dimensão. São as reações de um em relação às reações do outro, e essa “eletricidade” passa, inevitavelmente, pela ternura.Não é uma questão só de corpo, é também de cabeça. A pele é fugaz...o desejo é volátil...e mulher gosta mesmo é das eternidades.

(Solange Maia)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu sei de você. Sempre soube. Mesmo antes. Com todos os defeitos e efeitos. Com seu sorriso indecifrável e olhar que não revela seus segredos. Sua voz de sons graves e suaves, quase um murmúrio. Um toque direto, sabendo a direção, sem atalhos. Sabia de você antes que chegasse. _________________________ D .A.

Amar é magnífico quando flui dos dois lados, quando não se tem dúvidas e isso se torna um padrão. Quando não vivemos isso, evidencia-se então uma busca incessante, um desnortear de sentimentos em detrimento a essa música tão melódica e sublime. Entre parênteses: Como não sou muito fã da unanimidade, valorizo as dúvidas. Procurar e/ou ser achado, esperar e/ou perceber ao redor, aceitar e/ou vê no que dá… Afinal, quais conceitos devemos abraçar? Amar é uma arte, e devemos ser artistas e não somente atores. O encontro do solo com o dueto. Vivendo como solistas, saberemos viver o dueto? A definição vem sempre acompanhada de perdas, talvez por isso interrogamos tanto. Evidencia-se que capacidade de amar é uma coisa, e capacidade de ser amado é outra. Então como fugir do amor? Todos amam, todos são amados: Conclusão de sentimento do poema. Cada ser tem sua forma de revezar seus papéis. Olhar para trás e extrair o valor de cada carta não lida, de cada beijo não dado, de cada dor não consolada, de cada eu não encontrado, é alcançar o botão que liga o sorriso de “satisfação” do amor, sua estratégia funciona. Thomas Merton, a quem tenho profunda admiração por sua vida e obra, escreveu que: “O amor não é uma questão de se obter o que se deseja. Muito pelo contrário. A insistência em sempre ter o que se deseja, em sempre obter satisfação, em sempre ser saciado, torna o amor impossível. Para amar, você precisa sair do berço, onde tudo é ‘obter’, e crescer para a maturidade da doação, sem se preocupar em obter alguma coisa especial em troca. O amor não é uma transação, é um sacrifício. Não é marketing, é uma forma de culto. Na realidade, o amor é uma força positiva, um poder espiritual transcendente. É, de fato, o poder criativo mais profundo na natureza humana. Enraizado nas riquezas biológicas de nossa herança, o amor floresce espiritualmente como liberdade e como resposta da criatura à vida num encontro perfeito com uma outra pessoa. É uma apreciação viva da vida como valor e como dom. Responde à fecundidade, à variedade e à total riqueza da própria experiência viva; ele ‘conhece’ o mistério interior da vida. Deleita-se com a vida como uma fortuna inesgotável. O amor aprecia essa fortuna de uma maneira impossível ao conhecimento. O amor tem a sua própria sabedoria, sua própria ciência, sua própria maneira de explorar as profundezas interiores da vida no mistério da pessoa amada. O amor sabe, compreende e satisfaz as exigências da vida, na medida em que responde com calor, abandono e entrega.” O amor é o sentido e é tão amplo… Só podemos escrever e falar pouco até; já viu mistério ser revelado por completo? Deus é mistério, Deus é amor. E já concordo com Rubem Alves quando diz que: “A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo”.



Jhônatas Cabral

 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"É curioso como uma palavra, um texto, uma música, um erro, uma mentira, uma verdade, uma pessoa, podem mudar o teu estado de espírito em apenas um segundo... e às vezes toda uma vida também" __________________________ D.A.

Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. A moça...ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Ela espera por alguém que venha lhe curar. As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos golpes baixos que a vida lhe deu e lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para conseguir ter o melhor em seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda.


-- Caio Fernando de Abreu.

domingo, 9 de outubro de 2016

"Dizem que toda dor passa. Eu não sei se acredito, para mim ela se agarra na pessoa e se torna parte dela." ______________________ Daniel Bovolento

Paixão é não saber onde começa você e termina o outro. Em qual parte daquele aconchego se perdeu a angústia que dilacerava a sua solidão. É quando a gente finalmente entende os motivos de tudo ter dado tão errado no dia de ontem e de todas as dores que nos prepararam para a chegada do amor. Amar é um estado de permanência. É aprender a ceder. A esquecer que existe ego, orgulho, superioridade e que nos transforma em seres humanos mais humildes. Capazes de aceitar e reconhecer falhas, de compreender os momentos do outro, de entender que, de fato, não somos obrigados a nada, mas o querer ficar é mais forte que tudo. Estar ao lado de alguém é um infinito de desapegos. De certezas, vontades, expectativas, de sonhos. A gente abandona velhos desejos para construir novos ainda mais mirabolantes. Adiciona-se um prato na mesa de jantar, um travesseiro na cama e uma interrogação no futuro. Paixão é se perder. Na saudade, na ansiedade, na demora das horas e no tempo. Abandonamos o juízo, o bom senso e o discernimento em prol daquele calorzinho que esquenta o peito quando fechamos os olhos para sonhar. Desistimos e nos rendemos no breve espaço do mesmo segundo. Eis o maior descompasso da vida: se relacionar. Justamente porque para nos orientarmos na nossa própria travessia precisamos viver o caos de uma vida a dois. O relógio precisa caminhar no ritmo de duas pessoas para que um único sentimento possa fazer sentido. E cedo ou tarde faz. Quando o turbilhão de sentimentos dentro da gente entra em harmonia, enfim o carrossel da vida em conjunto equilibra seu passeio. Amamos. Conhecemos o amor. Se relacionar é um aprendizado diário. Sobre nós, sobre o mundo, sobre alguém. Vai muito além do beijo na boca, do abraço apertado e da gargalhada no rosto. Envolve um encontro de almas que precisam evoluir. Transcender aquilo que entendem como verdade absoluta para conhecerem a realidade do que significa parceria. É dar as mãos, os pés, o corpo inteiro e ainda assim querer se doar mais. Uma entrega que não tem início, fim ou meio termo, ela simplesmente é. Dia após dia, segundo após segundo. Amar é viver o outro em sua imensidão e só então compreender um pouco sobre si. Encontrar-se em olhares alheios. Descabelada, desnuda, descalça. Humana.

Danielle Dayan

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quem nos faz falta acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Não há escape. _________________________ (Caio Fernando Abreu)

Hoje choveu o dia inteiro. Fez um frio tão forte que foi de arrepiar os pelinhos do corpo. Não tive sequer coragem de tirar o pijama. Ainda estou jogado entre os cobertores quentinhos da cama, como se isso pudesse fazer o tempo fechado aqui do meu peito mudar. Como se o calor dos travesseiros pudessem simular o verão que se abre em meu sorriso sempre que você chega. A saudade tem revelado raios terríveis e trovões assustadores me despertam todas as noites, desde a última que te vi. E sim, eu sei, a distância, às vezes, é companheira dos apaixonados, mas não me peça para sentir pouco a sua falta. Não me pede para acostumar com as mensagens escassas por culpa da falta de sinal, de um tempo que oscila, que te tira de mim, que me rouba as tuas palavras que leio com o som da tua voz. Durante a rotina, os dias apertados, as horas que espremem a gente, sentimos a falta um do outro. E sempre que a vida para e os finais de semana e feriados chegam, que é quando eu tenho tempo para te ter só para mim, e você não está aqui, chove. E olha, não são todas as vezes que as gotas caem das nuvens. Muitas delas são de outras cacheiras. Duas que moram no topo de mim, ali, bem perto de onde fica o pensamento de você. Acho que deveriam votar um projeto de lei, sei lá, uma multa para todos os casais que se amam e precisam, por qualquer motivo que seja, conviver com a distância durante muito tempo. Mas não pense que esse tempo é tão grande assim. Vinte e quatro horas já seria o limite. Depois disso, amor, você teria a obrigação de aparecer de qualquer lugar, se materializar, só para a gente se amar. Até as horas voarem, até os minutos correrem, até os segundos me roubarem a respiração e você finalmente chegar, voltar e podermos outra vez nos encontrar, me sinto como um prisioneiro. Um encarcerado daqueles dos filmes, sabe? Fico marcando nas paredes do meu coração os quatro tracinhos de pé e um inclinado cortando os demais, numa contagem regressiva angustiante. A saudade de quem a gente ama sufoca. Sufoca tanto que a gente aperta desesperadamente os travesseiros, imaginando aquele alguém, aquele cheiro que transforma qualquer lugar em lar. Mas esse mesmo aroma é sempre o perfume que falta quando a saudade aperta… Por aqui, a chuva segue. Dentro e fora de mim. Mas por ora, só quero te dizer que li na previsão que o tempo está para abrir. Falta pouco para o sol do meu sorriso raiar e depois ser ofuscado pelo eclipse do nosso beijo. Não demora. O meu mundo te espera.


Matheus Rocha

terça-feira, 4 de outubro de 2016

...é sobre a tua ausência no lugar íngreme da minha pele... ________________________ Valter Hugo Mãe

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.


Guilherme Antunes

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Me encantei pelo vento, vivo de redemoinhos. Os meus segredos conto as aves na mudança das estações. Vivo sem testemunhas, como os cantos das paredes, como livros na estante, quadros de fotografia..." ________________________ Marcos Tavares.

Gasto minhas peraltices a fio. Um gosto de vida me saliva. Truques e traquinices me combinam da criança que um dia fui. Trago esse espírito de antes. Meu olho é vício de sorrir: toda querença é possível; toda possibilidade é significância de voo. Uma asa, uma boca de fazer silêncio e um par de sonhos e tenho um mundo. Estou com cacoete de amor.


Dan Cezar

sábado, 1 de outubro de 2016

Ainda existe! Sim: a cura. O amor é a candura que reaviva as dores obscuras. Há mal que amar não reconstrua? ______________________ Patty Vicensotti

Eu já fui raiva tentando me defender da vida. Eu já fui ira achando que esse era o melhor jeito de seguir em frente. Eu já fui tão bruta que acabei me despedaçando no caminho. Quando doía por dentro eu era raiva por fora. Por muito tempo confundi dor com raiva e raiva com força, mas percebi que raiva não tem nada a ver com força. Força é consistência, solidez. Força é aprender no silêncio o tempo das coisas. É apreender o silêncio das coisas perdidas no tempo. Força é não deixar a dor virar desamor por si mesmo. Força é isso que nos faz seguir em frente e nos mantém inteiros quando todo resto insiste em desmoronar. E isso não tem nada a ver com oferecer a outra face. Oferecer a outra face, muitas vezes, nada mais é do que dirigir a raiva para si mesmo. Eu não quero sentir mais raiva para seguir em frente, eu quero sentir amor. Já gastei muitos anos da minha vida perdida em sentimentos devastadores. Não tenho mais medo de sentir dor, tenho medo de não sentir amor! Eu quero amar mesmo que doa e se doer eu quero ter a coragem de amar outra vez e outra vez e outra vez e mais outra. A raiva é o resultado da dor que não pode ser transformada. A dor pode se tornar o combustível das mais belas mudanças, mas é só o amor que pode nos fazer verdadeiramente seguir em frente e o hoje amor é o único combustível que me interessa.
 

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

... Tu falavas de sentimentos. E eu perguntei: - De que cor é a saudade? E tu respondeste: - A saudade tem a cor da pele de quem nos faz falta... (D.A.)

..Mas eu só queria que você soubesse que eu me importo, me importo mesmo. E que sinto falta, muita falta mesmo. Eu só queria que você soubesse que seu espaço no coração e na alma ainda está quente, que a sua imagem ainda está presente... E que você simplesmente não me deixa...

(Thais Mozer)

sábado, 24 de setembro de 2016

"Salve o que é permitido pelo infinito circular... " _____________________ Moraes Moreira

Fica aqui hoje, não precisa ir pra casa. Amanhã a gente acorda, faço torradas para você e saímos juntos para o trabalho, mas, dorme comigo? Dorme comigo pra eu ficar mais tempo com seu cheiro na minha roupa. Dorme comigo pra gente ficar mais perto enquanto a gente sonha. Dorme comigo só pra gente ficar mais tempo juntos. É só isso. Eu não vou me incomodar, você não vai me atrapalhar. Sua companhia me traz paz. Sou feliz em olhar para o lado e ver você irritado com o despertador. Eu coloco a função soneca para você. Dorme antes mesmo de eu sentir sono. Eu desligo a TV. Por mim poderia ser sempre assim. Você aqui antes de dormir e na hora de acordar. A gente poderia dividir o edredom ou eu poderia comprar outro para você parar de me roubar. A TV ia falar sozinha quando se a gente não conseguisse ficar acordados juntos. Dorme comigo? Encosta teus pés gelados aqui nos meus. Deixa que eu coloco o controle da TV ali. Se eu sentir cãibra eu te aviso, pode deitar bem perto de mim. Estique seu corpo, descanse sua alma. Respire sem pressa. Se não der torrada, pode ser pão com requeijão de manhã? Talvez eu acorde antes pra comprar pão de queijo quentinho. Sem açúcar ou com duas colheres? Dorme comigo? Acorda aqui comigo terça-feira, não só aos sábados ou domingos. E se a gente fizer de todos os dias um fim de semana que não termina? Vou pra sala ler enquanto assiste seu seriado preferido – é que eu não acho tanta graça. Mas eu volto se você pedir. Marco a página e te permito interromper. Não precisa levantar, eu te levo água. Dorme aqui comigo pra você ser a primeira  pessoa pra quem eu olhe quando acordar?


Marcio Rodrigues -Adaptado


sexta-feira, 23 de setembro de 2016

"Eu sei que isso pode parecer um tanto contraditório. Mas calma e senta que eu te explico." _________________________ Nat Medeiros

Bem vinda prima (vera)
E eu caminhava num tapete de folhas e flores. Os caminhos também se estreitaram e tive uma sucessão de perdas, ou melhor, tive uma sucessão de trocas. E assim, como toda pessoa que tem um coração pulsando, fiquei assustada demais com as mudanças. Mas agora já consigo perceber beleza na nudez de cada uma das minhas árvores prediletas. Elas apenas estão trocando de roupa enquanto eu troco de pele, tamanha cumplicidade. Então, quando bate a ansiedade e meu coração taquicardíaco começa a doer, ponho a mão nele e digo a mim mesma: “Obrigada por, pelo menos, poder sentir que não estou sozinha”. Porque eu não perdi uma estação, eu perdi a mim mesma e agora me sinto como um prédio que foi demolido e está sendo reconstruído, tijolo a tijolo novamente. E esse processo é muito difícil, mas acho também a experiência mais bonita que uma pessoa possa vivenciar. Toda reforma, é para fazer melhoras e, algumas coisas, por não poderem ser recuperadas, terão de ser substituídas. E a gente se apega demais a tudo. Pois estou tão disposta às reformas, mesmo que isso inclua marretadas no meu coração logo pela manhã, bem cedo. A gente, quando enjoa da dor, começa a ressignificar os acontecimentos, e percebe que se agarrar a um momento bom, acelera o processo de cura. Tenho tido bons momentos e todos os dias Deus me dá uma alegria que ameniza qualquer desespero. Paciência deve ser o meu aprendizado agora...Aceito e agradeço.

[Marla de Queiroz]

terça-feira, 20 de setembro de 2016

Se não tivéssemos nos esbarrado de jeito, será que teríamos sobrevivido às nossas desilusões e aos vales-desesperança que cada uma delas cravou em nós? Será que nossas almas raladas já teriam cicatrizado? E o nosso coração, como estaria neste momento? Batendo à toa, apenas apanhando ou totalmente anestesiado? ________________________ Ricardo Coiro


Arquivo Pessoal
Aproveitando a reflexão do trecho da escrita de Ricardo, gostaria de saber, o que teria sido de nós se não tivéssemos nos encontrado? Será que aquele dia, teria ficado aqui na memória comum, ou essa marca no lado esquerdo do peito seria mais uma de tantas e de muitas?!. Falo do dia, do ano, da hora do nosso encontro. Lembro-me bem, queria deletar  a conta de email, sumir do mapa, abandonar a casa, mas você já estava  a caminho. Bem na beira da estrada, enroscado em ventos favoráveis também aos desencontros. Veio com intensidade. Falaríamos de flores e reciprocidades? Ou da caixa de sentimentos que carregamos aqui no peito? E que de repente começamos a revirar, no afã desesperado de encontrarmos o que, na verdade, estava perdido dentro de nós.  E pra quem sabe entregarmos a quem merecedor. Com o encontro coloquei muitos sentimentos pra quarar; alguns afetos, como a ternura de ser olhada por um poeta/escritor/filósofo/cronista e apreciador das artes e do belo; Encontrei a fé contribuidora do inesperado diálogo do acaso. Se não tivéssemos nos encontrado é certo que a descrença teria ultrapassado limites; não saberia o exato conceito de distância e dor. Dor que é senti-la; olhos estariam ofuscados, sonhos camuflados e a chave da caixa estaria perdida, jogada em um canto qualquer. Após este encontro a leitura de seu coração se fez necessária.  Digo que "Elas" não são tantas assim. Talvez uma, sem nenhuma pretensão de que amasse a mim. Se não houvesse o encontro não sentiria a cobiça do jardineiro, mesmo sabendo que, faceiro que és enamora-te fácil, não só pelas flores, mas pelas estrelas e muitas marés. Não saberia de sua áurea, de sua calma; não saberia do paradoxo que és, e do paradoxo que me tornei. Não saberia amar o inexplicável ou rejeitar a possibilidade como ato de coragem. Não saberia da força que habita em ti,  tampouco das fragilidades que reinam em mim. Se não houvesse o encontro, não haveria o disco rodando em Elvis Costelo; não haveria a brisa do fim de tarde; o reflexo da camisa verde agua no olhar; nem filmes romanescos na alta madrugada. Como diz a canção:  Hoje sei " Eu estou maior do que era antes, estou melhor do que era ontem" (...) Filha do Mistério e do Silêncio." 

"O importante, de fato, é que nos achamos em meio a este monte de coisa nenhuma."... para nunca mais nos esquecermos de forma alguma.



Daniela Rodrigues Silva Gonçalves