sexta-feira, 29 de abril de 2016

"Meu pensamento é poético. Recusa-se a andar em linha reta. Dança. Deleita-se em analogias.” _________________________ (Rubem Alves, Por uma educação romântica, p. 47).

Consta nos astros, nos signos, nos búzios. Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz. Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas. Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais. Serás o meu amor, serás a minha paz. Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar. Mas se o destino insistir em nos separar. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas. Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos. Profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz. Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela. Está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz. Serás o meu amor, serás a minha paz...

[Chico Buarque]

quinta-feira, 28 de abril de 2016

"Eu só quero uma vida normal. Nem leve, nem pesada demais, apenas do tamanho da força de meus ombros." ___________________________ Ita Portugal

Sensibilidade sempre foi o seu forte.
Por isso, ela sofre.

Noemi Prates
Viver demora. Apenas o restante passa rápido. A tristeza, o trajeto do rio, a transgressão da mágoa e o furor do desafeto. Viver é devagar e enquanto isso deposita a tua alma no silêncio. Colhe e acolhe a dor do teu dia. Ajeita o fértil terreno e desobstrui as intenções fadadas a morte. Dá tempo. A vida passa devagar, portanto não morra de véspera sem ter dito tudo o que for possível. Escuta teu silêncio e fale, mesmo sem fluidez.  A vida, que tantos cantam, interpretam e dançam, caminha a passos largos e vai fertilizando o terreno tanto para as descomposturas afetivas, quanto para as dores repentinas e sem explicação. Qual a razão de tanta pressa? Serão necessários os atropelos? A vida segue seu ritmo sem nenhuma engenhosidade. Demore-se também para que possa encontrar uma vaga disponível e aproveitar a viagem ao lado da janela. Viver demora, então não resuma seus desejos. Honre o seu tempo e o tempo que a vida lhe dá. Poupe-se do desespero e console os seus dias. Viver demora um pouco mais que sua ansiedade. Traduza-se. Repita-se. Se não der certo, liberte-se dos melindres e contrarie a lógica.


Ita Portugal

terça-feira, 26 de abril de 2016

Resisti ao tempo, às duvidas. Depois vieram as certezas que não pedi. Eu só queria acreditar no amor. E, graças, eu acredito. O amor é motivo. _________________________ Dan Cezar

"Não há dias, 
sem perdas,
 danos e ganhos"

Caminhamos em círculos, pegamos atalhos, pulamos degraus, corremos contra o tempo, ficamos em cima do muro. Preparamos resposta, ensaiamos sorrisos, combinamos roupas e intenções, encaixamos nossos sonhos em planos e os planos na nossa falta de tempo, ou de dinheiro. Vendemos as horas do dia para comprar as horas da noite. Envenenamos o corpo e queremos libertar a alma. Por hábito, cultivamos medos e mornos tons de cinza. Nos apegamos aos detalhes e perdemos o principal. De inúmeros jeitos nos poupamos e nos desperdiçamos, conforme doces ilusões ou as cruas verdades que carregamos.

Até o amor em nós chegar...


Guilherme Antunes

sábado, 23 de abril de 2016

Quem ama não espera o amanhã, pois sabe que há uma eternidade que o separa do agora...

A intensidade é parte de cada passo nosso. 
A insensatez eventual nos é 
necessária e característica.
E se não lhe tivermos um pouco de loucura, 
certamente não lhe temos 
sequer um pouco de amor.
Assistindo, recentemente, (e pela milésima vez), ao filme Diário de uma Paixão, me pego comovida com a linda história de amor que ele conta, mas, principalmente, tomada por um friozinho gostoso na barriga ao testemunhar a química, a vontade incontrolável que um tem do outro. Me pego querendo tudo isso. Quero sentir a beleza do que é recíproco. Ser capaz de espreguiçar minha alma, de aguçar meus sentidos e descobrir novas sensações enquanto mãos me contornam, sem pressa, como quem decora minha pele. Quero barulho de motor ecoando na minha janela de madrugada, anunciando a chegada daquele que não pôde esperar até amanhã para saciar a sede da presença. Quem ama não espera o amanhã, pois sabe que há uma eternidade que o separa do agora. Quero a leveza e o cuidado com os detalhes que permitem que as palavras vazem, sem tanta ponderação; que os silêncios abriguem magia e conforto; que o abraço seja remédio. Quero querer tanto a ponto de perder o eixo, de ser hipnotizada pelo sorriso, viciada no beijo; e saber que o outro carrega a mesma loucura, fazendo-me sentir desejada até os ossos, para que eu seja capaz de derramar, da forma mais pura, todo o afeto que cabe em mim. Acredito que o que me cativa na história dos personagens Allie e Noah não é especificamente a dificuldade, a oposição dos pais e a doença na velhice, mas a pureza de um sentimento que, independentemente das situações enfrentadas, fica estampado no corpo deles, me lembrando que – ainda que se trate de uma ficção -, ele existe, ele é real, e que, grata que sou por poder senti-lo, não me demorarei onde ele não é pleno e jamais deixarei de fantasiá-lo e persegui-lo.


Patricia Pinheiro

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Posso escrever os versos mais tristes esta noite...

Mesmo que seja a última
 esta dor que me causa

E estes versos os últimos que
 eu lhe tenha escrito.

Neruda
A noite está fria e tiritam, azuis, os astros à distância. Gira o vento da noite pelo céu e canta. Posso escrever os versos mais tristes esta noite. Eu o quis e por vezes ele também me quis (...). Ele me quis e as vezes eu também o queria. Como não ter amado seus grandes olhos fixos? Posso escrever os versos mais lindos esta noite. Pensar que não o tenho. Sentir que já o perdi. Ouvir a noite imensa mais profunda sem ele E cai o verso na alma como orvalho no trigo. Que importa se não pode o meu amor guardá-lo.  A noite está estrelada e ele não está comigo. Isso é tudo. A distância alguém canta. A distância a minha alma se exaspera por havê-lo perdido. Para tê-lo mais perto meu olhar o procura. Meu coração procura-o, ele não está comigo...(...)


Pablo Neruda- Adptado

quarta-feira, 20 de abril de 2016

Marcela Temer deve ser o que ela quiser, desde que isso a faça feliz;da mesma forma que que sou feliz sendo dona de mim!


"As escolhas dos outros não nos pertencem.
 E viver as próprias escolhas é a genuína libertação.
Lutemos, pois, contra o que nos oprime,
não contra o que nos liberta."

(Flavia Brito)

domingo, 17 de abril de 2016

"Há uma santidade nas lágrimas. Não são marca de fraqueza, mas de força. São mensageiras da dor incontrolável e de amor indescritível." ____________________ Washington Irving

Daqui, ando com um choro pouco religioso. Meu choro é calado, mora apertado no peito. Tem momentos que eu o sinto revirando-se desajeitado, procurando um lugar mais confortável para ficar. Porém não escorre. É choro acrobata, conhece a complexidade da vida, contorce-se, mas não fica onde deveria estar e não encontra o caminho do rio onde as lágrimas vão de encontro ao sol. Somos amigos antigos e ele se lembra de cada dia em que a vida o fez pulsar e aumentar seu volume. Ele é sensível, é poeta que rima dentro de mim. Às vezes luto para que ele se vá, encontre as portas do olhar que lhe abrirão horizontes, mas meu choro é confuso, teme o abismo da liberdade que a expressão do sentimento proporciona. Ah, choro carente, não percebe que sua gota é semente, que seu sal é força e que sua queda pode ser voo? Mas hei de me programar e guia de um choro perdido serei. E chorarei. Por três dias e três noites em tempestade e calmaria. Até que a pressão termine, até que o coração se acalme, até que a vida se lembre que ser sensível para fora também é uma opção. Um dia desses, ainda viro mar.

Josie Conti

sexta-feira, 15 de abril de 2016

O mundo é salvo por um olhar. Que envolve e afaga. Abarca. Resgata. Reconhece. Salva. ________________________ (Eliane Brum)


A força dos meus sonhos é tão forte, 
que de tudo renasce a exaltação. 
E nunca as minhas mãos ficam vazias."

Sophia de Mello Breyner Andresen
Nós dois nos entendemos dentro das nossas complexidades. Do lado de fora, ficaram só algumas verdades que teimamos em disfarçar pro peito. Nós dois, não nos deixamos pra depois, tudo nosso é agora, não tem idade. Mas irônico foi o que nos tocou tão forte sem permanecer.E fico aqui a contar os juros do tempo que caem em nossas costas, em nossos sonhos, nossas memórias,no nosso encontro. Essa dívida que se acumula e guarda suspiros longos que esvaziam o peito de saudade vencida, de uma quase mordida que o por acaso nos deu para marcar sua ida. E fico aqui, a escutar o não dito, a calar estrelas, a esperar noites inteiras vazias, a escrever frases frias e abertas, sem ponto, sem argumento, desbotadas e amontoadas de sentimento.


Lilian Vereza

quarta-feira, 13 de abril de 2016

"Talvez a felicidade seja isto: sentir sono e, simplesmente, dormir." ______________________________ Marla de Queiroz

Boa noite!
Como é bonito poder dizer a alguém “preciso de você”. Pensamos que para sermos adultos temos que ser independentes e não precisar de ninguém. E é por isso que estamos todos morrendo de solidão. 

- Leo Busbecaglia

terça-feira, 12 de abril de 2016

"Fica: é a mais bonita das palavras desesperadas." ______________________________ [Pedro Jordão ]

"O tempo tem uma forma maravilhosa de nos
 mostrar o que realmente importa."

— Caio Fernando Abreu
De confusão tenho o coração inteiro. Beiro a loucura nos diálogos que faço comigo antes de dormir. São tantos. Brinco de ser tudo o que eu quiser, mesmo que, na realidade, eu não seja lá muita coisa. São tantas esquinas. Tantas placas de “Pare, aqui não é o seu lugar”, que somente assim percebo como estou há anos dando voltas na mesma quadra. Meu mundo interno está interditado; confusões inundaram os melhores brinquedos do parque. Paz interior? Já ouvi falar. Muito bem por sinal. Meus dobrados são pedaços de coração, medo e saudade. Do que eu fui, do que eu nunca vou ser, do que todos queriam que eu fosse e não fui. Dividir o que eu sinto? Loucura. Ninguém entenderia. Sou página em branco ou todas páginas do mundo, de meio termo não fiz aula. Alguém com as confusões em harmonia com as minhas? Eu não iria acreditar em tamanha perfeição! Alguém que tenha paciência para ouvir as histórias que só eu sei inventar? Que saiba viver o amor que só eu sei viver? Que saiba lidar com as mais intimas das minhas confusões? Que nade com alegria nas minhas águas? Impossível! Seria luxo demais um dia alguém entender as ondas noturnas e tempestuosas que fazem barulho neste mar. É ensurdecedor. É repetitivo. É revolto até o sol nascer. Durante o dia sou maré baixa; sorriso paisagem; também estou bem; aceito um café; vou ficar em casa hoje; nos vemos amanhã. Na noite cresço, viro alto-mar, repenso o que vivo, no que mereço, inverto as prioridades e os destinos, me transformo em euforia e, sendo todo valentia, viro coragem.Como se adiantasse ser corajoso na madrugada…Sempre com algumas certezas, mas cheio de dúvidas, nunca sei o que quero. Saber o que se quer é uma pergunta muito grande para respostas tão pequenas: amor, paz, carinho, o mundo, um beijo. Essas coisas. Nada demais. Assim, beirando a correnteza, vou indo, pois logo preciso acordar e, na maior intimidade do mundo, dar bom dia para todas as minhas confusões.

Frederico Elboni

domingo, 10 de abril de 2016

“Porque sem cuidar, nada floresce.” ___________________________ Martha Medeiros

Alguém já deve ter assistido a um filme produzido em 1995 chamado “A Princesinha”, daqueles que pretendem ser infantis mas acabam sendo para todas as idades; é algo como um mito moderno, com um visual deslumbrante. Lá pelas tantas, no filme, a menina Sarah, a princesinha do título, dispara a seguinte frase para a Srta. Minchin, mulher amarga e fria que a acusara de não ser mais uma princesa, pois seu pai morrera na guerra e a deixara sem nada: “Todas as mulheres são princesas; ainda as que não são belas, ainda as que já não são jovens… todas as mulheres são princesas! É um direito nosso! Seu pai não lhe ensinou isso? Não lhe ensinou?” Quando busco na memória por belas imagens de filmes assistidos, esta cena é lembrada sempre com muito carinho, quase como se fosse uma “profissão de fé”: eu sou uma princesa, todas nós somos! Como pudemos duvidar disso? Neste momento, passa por mim uma elegante jovem com saltos altos e finos; acho curioso como é natural na mulher saber que o belo vale mais que o cômodo; como sabe que, quanto menos tocar no chão, quanto mais buscar o elevado, o celeste, mais bela e delicada ela fica; é quase que uma intuição (atributo que também é forte no feminino). E os sentimentos femininos? Todos tendem também para o céu; importa muito pouco a aparência física de alguém, se este alguém é honesto e gentil, ou se é frágil e desprotegido, e necessita de nossa atenção. Pode se tratar de uma plantinha ou de uma flor, um pequeno animal ou uma pessoa… Nossos sentimentos sempre usam “saltos altos”: admiram e cultivam a alma dos fortes, ou envolvem e acalentam os frágeis, motivadas por esta explosão de realização que traz, para qualquer mulher, a oportunidade que a vida nos dá de transbordar amor, o qual se realiza no próprio ato de “transbordar”, e se basta a si mesmo. Nossa energia não é de explosão, mas contínua e tenaz, capaz de velar pela vida por todas as noites que esta mesma vida nos oferecer, sabendo alimentar-se do bem estar e crescimento do outro como única e valorosa recompensa. Penso que até as plantas do jardim se sentem mais serenas quando uma mão feminina as cuida; sentem que esta mão não faltará, que sempre estará ali, ainda em dias de tempestade. Pois cuidar da vida no meio da tempestade tem algo de heroísmo e glória para o feminino, que nunca recusa esta oportunidade. Como sabemos mergulhar no mundo mental com objetividade e prática, buscando a solução para aquilo que necessitamos resolver! O ato de custodiar não permite protelações ou divagações, pois a vida tem seus ritmos a serem respeitados. Sempre voltamos deste plano com o alimento de que necessitamos: temos tantos filhos à nossa espera! Outra curiosidade é que talvez nosso principal adorno seja uma grande pedra de ímã: tudo e todos se agregam à nossa volta; somos ponto de encontro, de harmonia e de união. A matriarca, madura e ponderada, é sempre o coração de todo clã. E o nosso coração? Ah, se os cavalheiros soubessem como é ousado o sonho do nosso coração! Dizem os conhecedores que o arquétipo feminino em relação a todo cavalheiro se identifica muito bem com o personagem Lancelot, da saga do Rei Arthur: idealista, nobre, a serviço de uma causa humana, maior do que sua própria e simples existência material. Como nosso amor é, por definição, idealista, idealizador e celeste, sempre guardamos a propriedade de poder presentear asas a quem amamos; como é triste guardar estas asas eternamente, pois não encontramos ninguém que queira voar…Quando eu era pequena, acreditava firmemente que as libélulas eram fadinhas encantadas por uma bruxa malvada, tocando as águas em busca de encontrar seu antigo reflexo… Hoje, penso que as mulheres são libélulas encantadas pela maldição do esquecimento de sua própria identidade; esquecem que devem apenas roçar as águas do mundo material com “saltos altos”, delicadamente, formando círculos concêntricos infinitos, e que sempre devem ter um duplo par de asas, pois há que ter um de reserva… Sempre pode haver alguém, por aí, que entenda a caminhada de Lancelot, a necessidade das princesas e o sonho das libélulas. Neste sonho, reside a nossa única, real e legítima identidade; afinal, nossos sonhos também são nossos filhos, a serem cuidados e alimentados…

Lúcia Helena Galvão

sexta-feira, 8 de abril de 2016

" (...) Guardo toda a minha entrega para o recíproco."

"Ser sensível nesse mundo
 requer muita coragem"
Era para eu te conhecer em uma cafeteria. Naquela que fica perto da livraria. Lá seria o nosso primeiro encontro. Lá trocaríamos olhares. Lá descobriríamos que estávamos a ler o mesmo livro. Lá você se levantaria para vir junto de mim e nós nos amaríamos desde o primeiro oi. Descobriríamos que ambos tínhamos adoração pela história das pessoas e que um dia nos prometemos conhecer a bela cidade de Como na Itália. Nessa cafeteria, nos desvendaríamos, nos conquistaríamos e marcaríamos de nos ver todos os dias em uma mesa próxima da porta de entrada. Naquela cafeteria bucólica, repleta de almas solitárias, acolhidas pelo clima aconchegante do local, você me daria o livro “Os Catadores de Conchas” e eu te presentearia com um diário em branco para que escrevesse com carinho a nossa história. E você, amante das palavras, me leria do começo ao fim e me transcreveria com imenso carinho naquelas páginas em branco. Deitaria sobre mim versos, frases e arranjos e eu te daria o mundo pelos olhos meus e juntos, em abraços, beijos e anseios construiríamos uma vida. Soprando nossas xícaras de cappuccino fumegante conversaríamos sobre tudo que aprendemos, sobre tudo que gostávamos, sobre tudo que nos lembrasse o amor. Então colocaríamos a língua na bebida, deixando o calor do copo se mesclar com o êxtase do amor em nós. Naquela cafeteria, com luz difusa e quadros tortos, você alisaria meus cabelos rebeldes e eu passaria os dedos pelos seus lábios tomando deles o restinho de espuma que o guardanapo esqueceu de levar. Naquele lugar que a vida reservou para nós você descobriria que a solidão em “Automat” de Hopper não me apetecia tanto quanto “O Beijo” de Klimt. Sentados em cadeiras Béranger, sonharíamos as viagens que faríamos e os filhos que teríamos. Eu terminaria minha faculdade de design e abriria minha própria loja e você publicaria seus livros e juntos faríamos um mundo melhor.Naquela cafeteria você me encontraria, naquela cafeteria me encantaria, naquela cafeteria você leria minha admiração e meu largo amor por você. Naquela cafeteria, com um cappuccino nas mãos, nos daríamos a felicidade de conhecer um ao outro. Mas houve um dia que você decidiu parar com as pequenas felicidades cotidianas. Houve um dia no qual a razão lhe disse que se economizasse no cafezinho poderia no futuro, depois de décadas, comprar com o dinheiro desse pequeno deleite diário, um carro, uma casa ou fazer uma viagem memorável. Então quando eu pus os pés dentro daquele ambiente tão nostálgico pela primeira vez, você já não estava mais. Você tinha decidido justamente no dia anterior que mudaria seus hábitos. E foi assim que a razão se colocou à frente de um romance delicado e verdadeiro. Foi assim que um cálculo genérico, de algum economista pragmático, decretou que um montante minúsculo podia valer mais que o amor. E eu ao pensar nessa razão não pude deixar de lembrar dos “quase amores” que morrem por um mau conselho, por uma decisão precipitada ou por uma orientação insensata. Se eu pudesse te pedir algo, pediria para não cortar o cafezinho. Não cortar da vida as pequenas felicidades diárias. As alegrias inocentes que fazem nosso cotidiano funcionar. Se eu pudesse te dizer algo, te diria que a razão não é uma boa conselheira. Que ela vê em filhos, gastos. Vê em amigos, inimigos das finanças. Vê a caridade como algum tipo de profanação e enxerga a vida como uma imensa planilha na qual o trabalho e o dinheiro vêm em primeiro lugar. Existe tanto amor escondido no mundo, existem tantas boas possibilidades não planejadas em nossos caminhos. Existe tanto que um cafezinho pode nos propiciar indiretamente. A vida é feita de inúmeros acasos, nos mesmos somos um. Se nosso trisavô não tivesse conhecido nossa trisavó, em um dia único, não existiríamos. A vida é surpresa, expectativa e amor. E eu ainda estou aqui, perto da imensa janela frontal desse lugar tão acolhedor. Eu ainda estou aqui, nessa cafeteria, sonhando com o amor que não se deixe envergar pela razão das coisas. Eu ainda estou aqui, molhando a língua no cappuccino fumegante, esperando o dia em que a emoção lhe grite alto e você volte feliz para um cafezinho cheio de uma alegria merecida e para um novo e inesquecível amor.




Vanelli Doratioto

quinta-feira, 7 de abril de 2016

[...] Ninguém entenderá bem o que digo e é bom que seja assim pra que os poemas não desapareçam e se façam necessários como o ar. ____________________________ Adélia Prado, in: Terra de Santa Cruz

Perdi-me na vida
achei-me nos sonhos

( Leminski) ♡

.
"Sei de você até quando não pergunto. O sol da tarde de domingo sempre confessa teus lugares. Você me convidou para amá-lo, mas não sabia que convites tinham respostas que valiam para sempre. Não dispenso a falta que você me faz, ela é também companhia. Abro o e-mail, penso e penso, chego a escolher as palavras, mas não irei avançar, não irei dizer o que sobrou de mim após a despedida. Quanto tempo demora a tua hora de voltar? A espera é sempre o tempo que um lírio tem ainda na sua semente. Me ensina a reflorescer fora de uma primavera."



(Cáh Morandi)....................

terça-feira, 5 de abril de 2016

Você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou... ______________________ Senhor dos Anéis

"A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas".




(By Alana Fonseca)


Bela Noite!

sábado, 2 de abril de 2016

"Ás vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda..." _________________________ Clarice Lispector

Filosofia de Vida

Quem nunca?
Basta que eu me permita. Que eu queira, e eu quero sim, Deus, tudo de novo, ainda correndo todos os riscos de não saber administrar as doses, nem compreender a posologia de forma, ignorar todas as contraindicações como hipersensibilidade a qualquer componente da fórmula, mesmo assim arriscar a se perder, outra e mais outra vez. Não quero criar expectativas quanto ao que me espera, cansei de ilusões. Quero a plenitude daquilo que ainda não sei. Quero o inesperado batendo à minha porta. Algo bom, na fé! Não importa o que, só que seja bom.

● Angella Reis

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Passarinho, eu já sabia, quem te prende é que está preso. No seu canto de agonia, suas asas viram peso. Ao abrir a gaiola, ao libertar o passarinho, o homem voou... ___________________ Andrade Moraes

Deus, me livre de lançar no mundo
um olhar acostumado!

Andradices

Olho ele caminhando sobre os trilhos... Ele sabe a direção, é só seguir... mas segue só. Será que ele escolheu caminhar lindamente satisfeito com a própria companhia, contemplando a natureza e fazendo o próprio ritmo... ou será que ele só perdeu o trem?




Andrade Moraes

Aquele raro instante em que os olhos se fecham pra sentir o perfume do CÉU .................................. Be Lins

Perdoem-me os insensíveis, eu sinto muito!

Josie Conti
Sou uma pessoa que precisa desesperadamente de um tempo diário só para si. É como se, após uma conversa com uma pessoa de fora, um atendimento de trabalho, passar muito tempo na rua resolvendo algo ou até mesmo passeando, toda a minha energia fosse exaurida. Aí, sinto a necessidade de um ajuste, uma dose homeopática de silêncio, uma leitura poética daquelas que são brisa dentro da gente, um filme para ver no aconchego do sofá ao lado do gato, alguma coisa dessas delícias que permitem que entremos em contato com aquela parte mais gostosa que mora dentro da gente e que sempre precisa ser resgatada.

__Josie Conti