quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

"(...) E o verso, amanhecido, descreveu mais um novo amanhã. (Conheço versos a quem o presente nunca é bastante e cujo horizonte é sempre uma ponte a conduzir-lhes ao horizonte do além)....." ___________________________________ Nara Rúbia Ribeiro

"...devemos desistir da vida que planejamos
e aceitar aquela que está esperando por nós".

__ Joseph Campbell
Buscadora de si, pisou na areia com pés firmes abrindo mão dos falsos atalhos que escolhera. Navegou por toda sua vida de antes com velas içadas a ser levada pelo sopro de outras vozes, ideias tantas e conselhos muitos. E assim, chegando onde não queria, alcançou lugar nenhum. Hoje era o primeiro dia de um ano inteiro a lhe revelar o novo e, entre todos os que lá estavam a contemplar céu colorido e beber champanhe, esperava ela sua primeira promessa do porvir vinda de dentro. Queria traduzir-se amanhã e depois em muitas versões de si mesma, a desmentir o velho triste e a colher próspero interior a florescer madurez. Cansada de levantar muralhas a cobrir o infinito das bênçãos procuradas ou, de querer saber qual lado da moeda se irá mostrar, abandonou seus pedaços, seus cacos e suas crenças: pular sete ondas, acender sete velas, colher sete rosas, dar três pulinhos, notas no sapato, lençóis limpos, comer lentilhas, romã, uvas, folhas de louro; não mais entregaria ao destino a boa sorte. Agora, era ela a boa sorte a não mais esperar o mar lhe trazer conchas bonitas ou pedras opacas; resolveu decorar ela mesma de formas novas e cores outras a sua vida.


Remaria contra a maré, mas com o vento a seu favor.

Guilherme Antunes

Bem- vindo 2016

domingo, 27 de dezembro de 2015

"E, porque tudo pode conspirar a nosso favor, bem-aventurado seja o próximo ano." _________________________ Carlos Eduardo Leal

Um ano novo abençoado a todos!
Passou a entender o que falam as janelas quando se fecham com o vento e as esquinas quando se dobram. Passou a entender o tom grave dos trovões e a eternidade daquele senhor a vender pipocas frente ao parque. Passou a entender sinais fechados e aquele livro aberto justamente na página vinte e seis. Passou a entender repetições de filmes, carências, tédios e rinite alérgica. Passou a entender a demora do garçom e a prontidão do entregador. Passou a entender a linguagem das flores, das coincidências e dos erros de sua mãe. Passou a entender o que dizia o velho quadro no consultório, o cacoete do farmacêutico, a lágrima que hoje se convidou. Passou a entender a escuridão em torno da vela e a solidão do seu pai. Passou a entender o troco esquecido no balcão, o trocado pedido no farol, a conversa no banco de trás. Passou a entender a farpa no pé, no peito, memórias e pães embolorados e as simpatias de sua avó. Passou a entender as casas cor de ocre no centro, as igrejas sempre vazias, o comércio sempre cheio, o congestionamento sempre às sextas-feiras e as tristezas sempre aos domingos. Passou a entender desculpas e as urgências de um beija-flor, um cigarro aceso no ponto de ônibus, o cisco no olho e as entregas do carteiro ao seu vizinho. Passou a entender atrasos, acasos, desvantagens. Perdas, ganhos e fragilidades. Passou a entender o que diz o grilo, a cigarra e os medos. Passou a entender o que faz o sol na fresta da sua porta, o que acontece ao chamar o nome do seu cachorro e o café que esfriou entre as discussões. Passou a entender de estômago e de estresse. Passou a entender o olhar atento dos bebês e dos seguranças de loja. Passou a entender o que não entendem os seus amigos. Passou a entender as nuvens só para amar com a imaginação. Passou a entender a rapidez de uma chuva de verão e a inundação no corpo de quem perdeu alguém. Passou a entender o que nos causam as distâncias, as saudades, as verdades, o perdão e o amor. Passou a entender o som alto na madrugada e o que acontece quando a gente não diz o que deve dizer. Passou a entender o que é dormir, o que é sonhar e quais os dias de feira na sua rua. A vida entre seus silêncios e barulhos começou a conversar com ela e explicar-lhe tudo. E tudo que havia era uma coisa só. E como poderia ela explicar essa coisa só, caso lhe perguntassem? 

"Poesia", responderia.  

G. Antunes- Adaptado

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

Oxalá pudéssemos meter o espírito de natal em jarros e abrir um jarro em cada mês do ano. ____________________________ Harlan Miller

Feliz Natal!
"Eu estou pensando em você hoje porque é Natal, e eu lhe desejo felicidade. E amanhã, porque será o dia seguinte ao Natal, eu ainda lhe desejarei felicidade. Eu posso não ser capaz de lhe falar sobre isto diariamente, porque eu posso estar ausente, ou nós podemos estar muito ocupados. Mas isso não faz diferença... Meus pensamentos e meus desejos estarão com você da mesma forma. Qualquer alegria ou sucesso que você tenha, me fará feliz, iluminará por todo ano. Eu desejo à você o Espírito do Natal."





Van Dike

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

''Sua prece era um misto de medo e expectativa. Um emaranhado de palavras mal colocadas e desconexas. Aquela era a oração mais confusa de sua vida e, mesmo assim, Deus compreendeu.'' ________________________ Luciana Leitão

"Abençoadas sejam as dádivas
 que vêm nos lembrar, com alívio,
 que há lugares de descanso
 para os nossos cansaços."

Ana Jacomo
Frágil e forte. Dependente ou não. A cada situação renasço um pouco.O tempo lapida a alma... As perdas nos moldam os valores... Sou uma flor, um gigante.Às vezes, uma menina ...E muitas vezes sou bem mulher. Desafio a indiferença do mundo e choro diante de um gesto de amor. Vivo meu dia-a-dia tentando fazer tudo ser mais doce, mais leve, carrego sempre no rosto um sorriso... Das pequenas coisas ás grandes todas me chamam a atenção, e agradeço por cada uma. Vejo e sinto ternura no amor, magia na intimidade, serenidade na rotina, Deus em cada amanhecer... Meu coração pulsa amor.... Meu corpo pulsa desejos... desejo de ser amada... querida... desejos de amar, e querer... de viver fantasias... e misturar com a realidade... De alcançar a minha estrela mais alta, e me identificar plena em mim...

D.A.

terça-feira, 15 de dezembro de 2015

"Amanhã fico triste, Amanhã. Hoje não. Hoje fico alegre. E todos os dias, por mais amargos que sejam, Eu digo: Amanhã fico triste, Hoje não. Para Hoje e todos os outros dias!!" _______________________________________ Encontrado na parede do dormitório de crianças do campo de extermínio nazista de Auschwitz.


Silencie seu coração e 
ouça o que ele tem a lhe dizer.

"Quando chove – entre nós – é sinal de um milagre que se avizinha, diz-se; e hoje choveu bastante. Cá dentro reverbera o murmúrio da chuva; seus traços oblíquos e líquidos, o seu falar intermitente. É pois o fio da sua húmida caligrafia, o redesenhar do destino a cada badalada do seu sino. A metamorfose, o renovar, o vivificar; é tudo quanto se espera depois da chuva preencher o chão com a sua escrita. A chuva representa em muito a esperança, seja de uma boa colheita ou de uma sementeira promissora. As pessoas campestres – como eu – gostam da chuva, para além de atenuar o calor que por aqui se faz e humedecer a relva para os pastos, a chuva é por si só um sinal, um símbolo de fertilidade e de fartura. Um sentimento de alívio ressoa sempre que chove: haverá, de certeza, água para um, dois ou três dias, e os banhos não mais serão austeros, e as flores envoltas ao quintal libertar-se-ão da esquálida magreza imposta pelos fulminantes raios do sol. Um sentimento de alívio ressoa sempre que chove. A chuva só deixa de ser boa quando inunda tudo em volta, quando chove torrencialmente ou quando faz transbordar os rios, deslizando a terra ou quando arrasa os vales, derruba as pontes e viadutos. Aí sim, causa tristeza e torna-se um bem desnecessário! Aliás, diz o ditado que tudo em excesso faz mal. Há vezes que ocorre cruzarmo-nos com um parente ou um amigo que o tempo há tanto nos separara e dizemos convictos “hoje vai chover”, porém não é a chuva – fenómeno físico ou natural – que esperamos mas queremos apenas enfatizar o encontro, o seu lado “miraculoso”. Conota-se com isso a falta da chuva, a saudade, a secura que é isso, e traduzimos, portanto, na falta que esse parente ou amigo nos faz. Hoje choveu muito, eu dizia, e um cinzento esbateu-se por dentro, tão baço quanto era o próprio dia. Quanto era, digo, porque, súbito, o telefone tocou: – Alô, quem fala? E uma lâmpada acendeu a vela memorial de tempos idos, tempo antigo, em que o amor tinha outro sabor. Fosforesceu o dia em mim, e de repente uma vontade de me molhar, de dançar à chuva. A chuva fez tanto sentido e, enquanto pingava, era como se o fizesse no tecto do meu coração. Uma pessoa que eu tanto quero bem sem saber que a mim ela quisesse também, ligou-me e isso era tudo o que faltava para o meu dia explodir de beleza, nesses dias que só a nostalgia e velhas lembranças dão sentido ao meu viver.


Álvaro Taruma, escritor moçambicano

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Eu não sei se tem alguma coisa que alivia a gente mais do que quando chega alguém perto de nós naqueles momentos difíceis. Pega nossa mão e diz: “Eu estou aqui!” _______________________ Padre Fábio de Melo



“Solidários, seremos união.
Separados uns dos outros seremos pontos de vista.
 Juntos, alcançaremos a realização de nossos propósitos.”

Bezerra de Menezes

“Estou vivendo a mística dos retornos. Adentrei os labirintos do tempo para reacender minhas saudades. O motivo é um só: ando mais necessitado de passado do que de futuro. Enquanto o futuro imagino, o passado sabe quem eu sou. Ele é o guardião de minhas memórias. Por isso eu retorno. Para recobrar as lembranças que me confessam, para reaprender as simetrias de minha alma, para reatar o cordão de minhas origens e voltar a pisar as areias brancas da cidade que me viu nascer. Volto para reencontrar a cultura do meu povo, reassumindo com ele o compromisso de nunca me esquecer os construtores deste mosaico que me tornei. Porque depois de muito andar, depois de vasculhar estradas e destinos tantos, eu descobri que o melhor lugar do mundo sou eu mesmo. Nada será novo, mas as regras da vida continuam as mesmas! Se quero um mundo melhor terei de cultivá-lo primeiramente em mim. Preciso me livrar das inocências que me semeiam ilusões. A solidariedade que reconheço ser necessária nos dias de hoje depende de mim. Se não estendo a mão na direção do que está ao meu lado, não faz sentido orar para que termine a fome no mundo. É no estreito dos meus caminhos que posso transformar o universo. Se considero a verdade como um valor irrenunciável, preciso quebrar o elo da mentira que sustento. É na mentalidade que a semente da liberdade interior encontra ventre, lugar para crescer. E nisto consiste a beleza desse instante: o tempo está passando, mas o encanto que você pode recolher será o suficiente para esperar até amanhã, quando o pássaro encantado, quando você menos imaginar, voltar a pousar na sua janela. Ando também pensando no poder das palavras. Há palavras que bendizem, outras que maldizem. Descubro cada vez mais que JESUS era especialista em palavras benditas. Quero ser também. Além de bendizer com a palavra, ELE também era capaz de fazer esquecer a palavra que amaldiçoou. Evangelizar consiste em fazer o outro esquecer o que nele não presta, e que a palavra maldita insiste em lembrar. Quero viver para fazer esquecer! Queira também! Nem sempre eu consigo, mas eu não desisto. Não desista também. Há mais beleza em construir do que em destruir! Fico pensando que evangelizar talvez seja isso: descobrir jardins em lugares que consideramos impróprios. Os jardineiros sabem disso. Amam as flores e por isso cuidam de cada detalhe, porque sabem que não há amor fora da experiência do cuidado. A cada dia, o jardineiro perdoa as suas roseiras. Sabe identificar que a ausência de flores não significa a morte absoluta, mas o repouso do preparo. Quem não souber viver o silêncio da preparação não terá o que florir depois... Precisamos aprender isso. Olhar para aquele que nos magoou e descobrir que as roseiras não dão flores fora do tempo nem tampouco fora do cultivo. Se não há flores, talvez seja porque ainda não tenha chegado a hora de florir. Cada roseira tem seu estatuto, suas regras... Se não há flores, talvez seja porque até então ninguém tenha dado a atenção necessária para o cultivo daquela roseira. A vida requer cuidado. Os amores também. Flores e espinhos são belezas que se dão juntas. Não queira uma só. Elas não sabem viver sozinhas... Quem quiser levar a rosa para sua vida, terá de saber que com ela vão inúmeros espinhos. Mas não se preocupe. A beleza da rosa vale o incómodo dos espinhos... ou não.

Padre Fábio de Melo

terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Mas, ainda que os desencontros se sobressaíssem diante de toda aquela história, ainda que não tivéssemos estrutura física, psicológica e emocional para lidarmos com o turbilhão que foi o nosso durante, ainda assim, soubemos resgatar a boniteza do que ainda significávamos um para o outro. Da centelha, tomamos impulso. E ali encontramos uma nova possibilidade, sem resistências. Era um estar gratuito. Nos queríamos mais que todos os quereres de antes. E isso bastava. ___________________________ Bibiana Benites

Assim que deixei a vida tornar pequenos
acontecimentos  algo singularmente novo,
 passei a ter uma harmonia mais inteira comigo
.

B. Benites
Talvez porque ela seja independente, porque toma conta do recado sem ter que pedir a ajuda a ninguém. Talvez tenha grandes sonhos, suportados por um coração que por vezes é maior do que o corpo que o carrega. Talvez alguns a vejam como fria e distante, mas ela chama-lhe sanidade. Talvez a vejam sempre com a cabeça na lua e focada nos seus objetivos que, não se dá conta quando o amor bate à porta. Talvez ela esteja tão habituada a ter controle de tudo o que está ao seu redor, que a simples ideia de se entregar um bocado a quem quer seja lhe provoque tremores. Talvez debaixo de toda a confiança e sucesso que demonstra, ela seja bastante insegura. Não é perceptível à primeira vista, nem será para todos mas para os que conseguem chegar ao pé dela, entendem que precisa de uma quantidade significativa de tempo sozinha. Claro que tem família e amigos próximos com quem gosta de partilhar o seu tempo, não é uma pária ou anti-social, mas busca incessantemente o seu tempo de reflexão isolada, para se centrar e sentir inteira. Não é do tipo de “cair de amores” por qualquer um, mas isso não a impede de tentar de procurar esse momento único, que lhe pode elevar o corpo e a mente a um estado que ela não compreende, que só lhe tráz confusão e não sabe lidar quando lhe querem dar amor. De qualquer forma não é uma causa perdida, só necessita de uma abordagem mais sensitiva, para aquele coração enjaulado. Então como é que alguém se pode relacionar assim? Pode ser pelo lado Paciente, não é fácil para ela mergulhar de cabeça em algo que se possa sequer parecer com uma relação séria. Se ela passa tempo com ele, é porque já tirou bastante tempo para avaliar a situação e uma grande dose de coragem para aceitar os seus primeiros passos. Chegará o dia em que ela vai pedir para ir mais devagar, depois de ter passado uma noite sem pregar olho, a auto-criticar pela sua inabilidade de ter carregado nos travões mais cedo, avaliar o laços que já foram criados e incitar-se para saltar rapidamente da relação antes que seja tarde... Pode ser pela abertura à Conversa, porque como passa tanto tempo com as suas ideias, assume que ninguém a compreende e que as suas opiniões são muito intensas para os outros. Raramente partilha o que lhe vai na cabeça, para não ser considerada dramática, filosófica ou simplesmente esquisita. Mas no fundo valoriza conversas profundas, partilha de ideias e aprendizagem e não sabe o quanto isso a torna BONITA para quem a saiba ouvir balbuciar sem parar sobre um tema que a apaixonou. Pode ser pelo Apoio. Parte da luta interior desta mulher é entre o compromisso que tem com os seus sonhos e objectivos e deixar felizes aqueles por quem tem carinho. Não é algo que seja intencional, ela só é determinada no que procura e sentir-se culpada por não conseguir passar tempo com ele ou não conseguir realizar algum tipo de meta, só lhe prova a incapacidade de estabelecer laços como os comuns dos mortais. Assim sendo apoiem-na, encorajem-na a prosseguir os seus objectivos, que ela vai devolver na mesma medida a quem a apoia, com um coração tão apaixonado, quanto lutador! Não sejam 2 metades de um todo, mas dois todos ainda maiores. Ela pode ser independente e ter dificuldade em depender de outros embora confie neles, mas não esperem depender da presença dela, tanto quanto ela espera depender de alguém para viver. Só funcionará se se relacionar com alguém completo, que demonstre amor, aceite e respeite a sua independência como uma característica e não defeito. Passar tempo sozinhos e afastados, é tão importante nesta relação, como a fazer sentir única e amada quando estão juntos e quanto estão juntos, é estar JUNTOS mesmo! Se ela tiver amor para dar (e tem mesmo muito), pode ser um bocado estranha a demonstra-lo ao inicio, mas só precisará de tempo, tempo para perceber as coisas por ela mesmo, para entender como funcionam com outro e acima de tudo, entender bem lá no fundo que ela só quer ser amada como o resto das pessoas, à sua maneira talvez…

©Ricardo M.

sábado, 5 de dezembro de 2015

Ela chove quando a saudade se move. Lembra das sombras dele. Mas, o amor não quebra galho. Um dia é temporal. No outro, orvalho. _______________________________ Noemi Prates.



Prenda-me em seu olhar.

Renda-se bem devagar. 

Guarde os meus detalhes nas retinas. 

Esconda-me em suas pupilas. 

Decifre os meus sinais. 

Siga as minhas pistas.

Descubra o mundo, mas, não me perca de vista.



Noemi Prates.
Hoje foi mais um dia daqueles. Silenciosos. Observei cada canto desta casa, sempre vazia. Fiz tudo o que podia, coisas que eu achava que nem sabia fazer. Li livros, assisti a vários filmes, brinquei com meu gato, pintei o cabelo e as unhas. Acho que estou de luto... pelo meu coração. Alguns filmes me lembraram você e por isso, chorei. Reli aquelas conversas; sabe aquelas que me enviou quando me dizia uma serie de poesias diretamente vindas do coração. Pois é, elas mesmas. Tempos bons foram aqueles, não é? Não me lembro quando foi a última vez que ri. Aliás, lembro sim. Foi no sábado... retrasado. O dia em que aquela maldita enxaqueca começou. Na quinta já não aguentava mais e resolvi procurar um médico. Sinceramente, acho que ele se assustou. Me diagnosticou como doente de amor crônico. E foi aí que eu percebi: não tem cura.

Kelly Gomes (flor)- Adaptada

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

"...devemos desistir da vida que planejamos e aceitar aquela que está esperando por nós". _______________________________ Joseph Campbell

Um herói é um indivíduo comum que
 encontra a força para perseverar e
 resistir apesar dos obstáculos devastadores.
” 
Christopher Reeve

O filme, em 1978, foi uma febre: álbuns de figurinhas, pôsteres, sequências, roupas (me lembro de ter um maiô que era a reprodução do uniforme do herói).Eu consumia todas as bugigangas que meus trocados permitiam enquanto sonhava em voar abraçada àquele invencível peito de aço. Então algo fundamental aconteceu: na minha gula de fã, comprei uma revista na qual havia uma foto do ator Christopher Reeve sorrindo gostosamente, ajoelhado nas areias cariocas, descabelado, vestindo roupas comuns e suando como um homem normal (a ponto de sua camisa ostentar rodas escuras em torno das axilas). O choque de realidade me causou uma estranha comoção: comecei a me interessar por outros filmes do ator e por outros homens descabelados. O suor de Reeve falou mais alto à minha libido pré-adolescente do que o visual impecável do Super-homem. O que detonou essa memória foi um presente que ganhei no domingo: o filme "Superman II Donner Cut". Nele, o herói decide se tornar Clark Kent em tempo integral para viver com Lois Lane. Mesmo indo contra as advertências do pai (Marlon Brando), ele abre mão de seus poderes e se torna humano. E o que faz Lois nessa barafunda? Nada! Ela sequer tenta impedir que seu amado desista de ser ele mesmo. Que burra! Permitir que alguém abdique da sua essência para ficar com você é o mesmo que ganhar um homem sem alma (é melhor ter um pedaço de um homem integral do que ter integralmente um homem aos pedaços). Ao se tornar humano, o ex-Super-homem não demora nada para se meter em encrencas que uma pessoa comum de carne e osso saberia evitar. O agora indefeso heroi não tem a mais remota ideia de que a grandiosidade da vida não está em voar, parar trens ou fazer o tempo retroceder: a verdadeira coragem é ser Clark. E nós, meninas que crescemos com herois e príncipes de toda sorte, às vezes perdemos uma vida inteira em busca de um Super-homem quando o interessante, o sexy, o desejável mesmo é Clark Kent, é a cálida e selvagem humanidade de Christopher Reeve ajoelhado na praia com manchas de suor molhando sua camisa. É aí que reside a felicidade possível: nesse prosaico e estupendo suor.


Stella Florence


quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Construir-se é um processo cheio de frustrações onde precisamos exercitar e separar o que conquistamos de tudo que precisamos deixar para trás. _______________________________ Poeta da Colina

Que venha o Natal
Sempre me guardo nas mãos de DEUS. Todos os anos nessa mesma época, penso no que poderia ter feito à mais. Penso naquilo que deu certo, naquilo que ainda está por vir, e o que não deu certo, não me lembro mais. Vai ver não era pra ser. Tem uma citação de Ana Jacomo que diz: "A mágica começa no mágico, não naquilo que ele toca." Verdade. Mágico é agradecer. Gratidão pra tudo. Deus é tão Generoso, isso não é segredo, e agradecer de coração faz diferença. Não faço mais lista de prioridades quando chega o final do ano. Já não tenho essa ilusão. Prioridade é continuar vivendo dia-a-dia. Prioridade é amar, cuidar. Prioridade é a fé. A vida é isso, o canto e o desencanto, é a coragem. E acima de tudo, amor, atenção, respeito e carinho, nos nossos projetos, nos nossos sonhos. Com nossa familia e nossos amigos. Conosco, com nosso amor, com quem fica. Agradece e não esquece que existe o longo prazo. E a curto prazo, nem tudo depende de nós. Vigia o teu lamento, observa os teus boicotes. Agradece e não esquece que falhas. Agradece e não esquece que somos humanos. Agradece das idas e vindas, das perdas e danos, e nunca esquece em refazer (sempre) teu ponto, tua caminhada, teus re-começos Pra quem acredita essa é a graça. A todos um encantador despertar. 


Rosa De Saron Morais

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

“Como ficou tarde tão cedo? Já é noite antes do entardecer. Dezembro já está aqui antes de Junho. Meu Deus, como o tempo voa. Como ficou tarde tão cedo?” ________________________ Dr. Seuss

Um dia vai, um outro vem...
 Boa noite e sonhem o bem!
Porque estava nublado, escuro, precisava chover. Precisava vir uma tempestade que levasse embora todo cheio que precisava ser vazio. Precisava um arco-íris após a chuva pro dia poder renascer! Eu realmente precisava chover.

Damaris Ester Dalmas







segunda-feira, 30 de novembro de 2015

O amor é mais falado do que vivido. Vivemos um tempo de secreta angustia. Filosoficamente a angustia é o sentimento do nada. O corpo se inquieta e a alma sufoca. Há uma vertigem permeando as relações, tudo se torna vacilante, tudo pode ser deletado: o amor e os amigos. _____________________ Zygmunt Bauman - sociólogo polonês

Duas coisas fazem a tristeza
de um homem:
 tudo o que ele não tem e
 tudo o que ele não sabe amar.

Fernando Coelho
Respirar, viver não é apenas agarrar e libertar o ar, mecanicamente: é existir com, é viver em estado de amor. E, do mesmo modo, aderir ao mistério é entrar no singular, no afetivo. Deus é cúmplice da afetividade: omnipotente e frágil; impassível e passível; transcendente e amoroso; sobrenatural e sensível. A mais louca pretensão cristã não está do lado das afirmações metafísicas: ela é simplesmente a fé na ressurreição do corpo. O amor é o verdadeiro despertador dos sentidos. As diversas patologias dos sentidos que anteriormente revisitámos mostram como, quando o amor está ausente, a nossa vitalidade hiberna. Uma das crises mais graves da nossa época é a separação entre conhecimento e amor. A mística dos sentidos, porém, busca aquela ciência que só se obtém amando. Amar significa abrir-se, romper o círculo do isolamento, habitar esse milagre que é conseguirmos estar plenamente connosco e com o outro. O amor é o degelo. Constrói-se como forma de hospitalidade (o poeta brasileiro Mário Quintana escreve que «o amor é quando a gente mora um no outro»), mas pede aos que o seguem uma desarmada exposição. Os que amam são, de certa maneira, mais vulneráveis. Não podem fazer de conta. Se apetece cantar na rua, cantam. Se lhes der para correr e rir debaixo de uma chuvada, fazem-no. Se tiverem subitamente de dançar em plena rua, iniciam um lento rodopio, sem qualquer embaraço, escutando uma música aos outros inaudí vel. E o amor expõe-nos também com maior intensidade aos sofrimentos. Na renovação do interesse e da entrega à vida que o amor em nós gera tocamos mais frequentemente a sua enigmática dialética: a sua estupenda vitalidade e a sua letalidade terrível. Mas, como dizia o romancista António Lobo Antunes, «há só uma maneira de não sofrer: é não amar». Mas não é o sofrimento inevitável a todo o amor que impede a vida. O obstáculo é, antes, o seu contrário: a apatia, a distração, o egoísmo, o cinismo. 

José Tolentino Mendonça, in 'A Mística do Instante'

sábado, 28 de novembro de 2015

Amar para sempre é ter mil bichos papões para derrubar e uma só bala no revólver. Meu Deus! Eu nem sei atirar! ____________________________ Pretextosdiários

Janela aberta: entra sol, entra dia, entra poesia.
— acitnamor.
Pertenço às declarações rasgadas, às madrugadas insanas, à poesia piegas. Meu amor é esse fruto ácido das inconseqüências juvenis. Meu amor não se veste bem, ele sai desgrenhado na noite cheia de luzes. Não entra pela porta da frente, ele pula a janela. Meu amor não é mensurável. Ele é daqueles que não se ajustam. Não pertenço à irritante prudência dos amores modernos. Nunca me dei a esses sentimentos contidos. Na era dos corações mudos, meu bem, eu sou o grito. Meu amor é canção e já começa pelo refrão. Eu amo apesar das caras de espanto, dos burburinhos diante da loucura das paixões ébrias, amo apesar da sua cara de quem não entendeu nada. Tolice, meu bem, o amor não foi feito pra ser entendido. Eu amo a sua alma confusa, insana, errante – eu amo apesar do erro. Eu não amo no seu tom. Meu amor toma um porre e te faz uma serenata desafinada. Não acompanha tua bossa nova: meu amor é rock’n roll. Ele escreve versos tortos em guardanapos molhados numa mesa de bar. Meu amor não vai embora quando é preciso. Ele fica, bate, insiste. Meu amor não te procura as virtudes. Ele não pondera, não te espera no altar, não analisa teu boletim, não aceita o teu portfólio. Você me ganha nos detalhes. Meu amor renasce toda vez que você sorri bonito, meio de lado, como quem não espera muito do dia seguinte. Ele dança cada vez em que os nossos passos cambaleantes se encontram. Ele me anestesia os sentidos, me confunde as certezas, arrebata a minha consciência. Ele não aprende os passos, te tira pra dançar num supetão, num descompasso. Meu amor não se esconde em nenhuma máscara de pureza. Se mostra inteiro, altivo, vivo. Antes de se explicar, ele te confunde. Mostra a que veio, descalço, despido. Amor que se preze não pensa. Ele não se pergunta, ele vai. E te leva junto. O amor é o porta-voz da insanidade. E se for consumado, sem medo, sem vergonha e sem pudor: que me consuma.

Nathalí Macedo

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Amor: esta loucura que quer limitar o que é infinito... _________________________ Mel

Sou amor com medo, ou, solidão consciente? Pouco me arrisco, mas, ainda continuo riscando nomes. Lembro da saudade de amar, converso com meu coração e me pergunto, em silêncio, como será daqui pra frente. Digo a ele, com esperança, que espero um dia conseguir me abrir e tirar o fantasma vestido de orgulho que tanto me habita. Sei que a maturidade nos dá o caminho, mas, os receios e traumas nos deixam mudos perto do amor que está por vir. Espero um dia voltar a ser calmaria e amor. Espero também receber compressão de mundo quando meu sorriso for pequeno. Espero que a dor não seja mais consequência do ressacar das minhas emoções. Espero que meus ombros se tornem leves quando o deitar for necessidade. Espero até demais… Não queria esperar tanto. O amor se torna inconjugável com o esperar. Que o amor venha e deixe a dor virar vento de outono nesse coração que, mesmo não admitindo, tanto anseia pelo verão. Mas, que venha como surpresa. E, diferente de filmes de comédias românticas, nos surpreenda no final. Nos faça calar a boca, e por mais antagônico que seja, gritar quarteirões como o desamar é burrice. Então ame, enquanto o amor ainda conversa com você. Ame enquanto a saudade ainda brinca de aparecer. Ame enquanto a solidão não se tornou constante. Ame enquanto… Só ame, esqueça o enquanto. Por enquanto. 

Frederico Elboni

segunda-feira, 23 de novembro de 2015

E quanto a você meu amigo galvanizado, você quer um coração, não sabe como tem sorte por não ter um. Corações nunca serão práticos até que inventem um inquebrável. ________________________ O Mágico de Oz

Alinhavar pessoas, esse é um dos ofícios do tempo.
Mas não é facil domar o zig zag da linha tênue
que costura os sentimentos...

Panelovisk
“É preciso muita coragem para amar as mulheres marcadas pelo passado, aquelas de temperamento forte, mas de bom coração. Muito amor é necessário para curar as feridas e decepções. Mas acima de tudo, precisa ser inteligente, porque elas são tão maduras e tão experientes que já não acreditam no que você sente, mas no que está disposto a fazer por elas.” – Walter Riso. Não temos mais a aparência de 20 anos, pois as pedras do caminho moldaram nosso corpo. Nosso olhar é cúmplice, pois tem sido formado há anos. Acumulamos de maneira perfeita a experiência e juventude, o que nos faz dominar a arte e a gestão de nossa essência, acrescentando vida aos anos que desfrutamos e ainda temos para desfrutar. Porque uma mulher com mais de 40 anos deixa sua marca por onde passa, tornando-se senhora de seus passos. Sente que pisa firme, transmite segurança em si mesma e conseguiu uma estabilidade e equilíbrio emocional hipnotizantes. Mais de 40 respirações de ar fresco …“Muitas vezes me perguntam quantos anos eu tenho…Que importa isso? Tenho a idade em que olho as coisas com mais calma, mas com o interesse de um maior crescimento.Tenho anos quando os sonhos começam a acariciar os dedos, e se transformam em esperança. Tenho anos de amor, às vezes é um flash louco, ansioso para queimar no fogo da paixão desejada. E às vezes um refúgio de paz, como o pôr-do-sol na praia. Quantos anos têm? Não há necessidade de discar um número, que fez os meus desejos, meus triunfos, as lágrimas derramadas pelo caminho quebrado para ver meus sonhos… Vale mais do que isso. Que importa se tenho vinte, quarenta ou sessenta! O que importa é a idade que eu sinto. Tenho os anos que preciso para viver livremente e sem medo o caminho, carregando comigo a experiência e a força dos meus desejos. Quantos anos têm? Isso é que importa!? Tenho os anos necessários para perder o medo em fazer o que eu quero, desejo e sinto.” José Saramago 40 e 50 são um momento peculiar em que você se encontra entre duas gerações que revelam a natureza efêmera da vida, então percebemos que devemos aproveitar e reconciliar nossos mundos. Você deixa de se preocupar com o que passou e o que passará, e começa a desfrutar do que está acontecendo. A partir dos 40 finalmente entendemos que cada pessoa com quem você se depara tem uma função. Algumas pessoas te põe à prova, outras te usam, há aquelas que te amam e te ensinam, mas as pessoas realmente importantes são as que despertam o melhor em você. Elas são e serão as poucas pessoas extraordinárias que te lembram que tudo vale a pena. A magia do momento. “As mulheres da minha geração são as melhores. E ponto. Hoje elas têm quarenta anos, e são lindas, muito lindas, mas também calmas, compreensivas, sensatas e, acima de tudo, diabolicamente sedutoras, apesar dos pés de galinha ou das coxas com celulite, isso é o que as torna tão humanas, tão reais … Lindamente reais.” – Sharon Stone, 48 anos. Muitas mulheres com mais de 40 anos já estiveram em situações difíceis. Podem ter sido renegadas e rejeitadas pela sociedade.Viveram traições e decepções que as amadureceram. Sentiram sua pele se rasgando por separações desonrosas, rejeição e desprezo. Foram feridas pelas flechas ais inesperadas. Elas têm carregado em suas costas grande parte do fardo da vida e, portanto, as mulheres com mais de 40 desenvolveram um sétimo sentido que lhes permite ir mais longe, manter a calma e se conciliar com a vida. Como brincadeira, é dito que uma mulher de 20 anos pode ser atraente, a 30 pode ser sedutora, mas só as com mais de 40 podem ser irresistíveis. Este é o resultado de uma mistura perfeita de experiência e juventude. De alguma forma, a mulher com mais de 40 deu um passo importante na busca de amor. Ela agora se ama mais do que amava há uma década. Não se esqueça, mulher …Os anos têm permitido olhar a vida com mais calma, mas com interesse de maior crescimento. É agora que o amor pode ser impetuoso ou um refúgio de paz. É agora que pode gritar seus medos sem receio e fazer o que quiser, mesmo temendo falhar. Hoje você pode amar, aceitar e abraçar, pois os anos te tornaram uma pessoa muito mais completa, muito mais você mesma.


Fonte: La Mente es Maravillosa- A magia de ser mulher depois dos 40

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

"Tu sabes! Não importa o que me aconteça na vida, mesmo que os meus caminhos não sejam junto aos teus, minhas saudades -aquelas irremovíveis- serão sempre tuas." _____________________________________ (Rachel Carvalho)

A poesia está guardada nas palavras
 — é tudo que eu sei.

Manel de Barros
Sou a saudade de um jardim que nunca existiu, de filhos que nem nome têm, de um amor que nunca vivi. Vivo o desafeto de sonhar, sozinha, um amor de cinema. Almejo o inexistente, me digo ser euforia, mas, quando me pergunto se um dia ele virá, transbordo na maldade do tempo. Estranho dizer, mas a minha melhor parte é aquilo que não sei. Então, antes de vir, não me pergunte quem sou, ou como amo. Sou um mistério para mim. Me desvende, me faça não ter onde me esconder, descubra o amor que há aqui dentro, só não me deixe saber disso. Minta para mim, não me deixe enxergar que estou amando, assim, amo como ninguém. Fingindo que não sei amar, te digo, não me faça prometer amores certos e responsáveis, me ganhe no silêncio do vivido, se disponha a ver a cidade acender ao meu lado, o vinho se pôr em bocas diferentes e, se possível, me deixar ser eterna por um instante. Não necessito de mais que um instante, pois, preciso te dizer, a eternidade me assusta. O amor me assusta. A assertividade do que sinto me assusta. Me entregar para um coração que não seja o meu, então, se faz apavorante. O amor, que aqui habita, se faz como um livro, onde poucos foram os que leram algum trecho, e inexistentes foram os que terminaram de ler. Quando sozinha, no silêncio da minha presença, deixo o amor em livro sair. O apanho da estante mais empoeirada da minha livraria e lhe dou a atenção merecida. Pelo menos nas noites em que estamos a sós. O leio em voz alta, para nunca esquecer do que quero sentir, rabisco suas páginas, divido todo o meu eu e, ciente de realmente estar sozinha, choro por somente eu tê-lo lido até ao fim. Depois, o coloco no seu lugar, pois, se eu permitir, ele se deixa ser lido por todos. E, infelizmente, eu ainda não sei dividi-lo…

Fred Elbone- Adaptado

quinta-feira, 19 de novembro de 2015

'Os apaixonados suspiram. E se apaixonam ainda mais. ' _______________________ Caio F.Abreu

E ela estava nos labirintos
dos 60 segundos ,
dos 60 minutos,
que a encaminhariam
à alguma hora...


(Clarice Lispector)
Você sabe que eu não sei o tom do seu azul. Mas parece que nele, sempre chove. Deve ser de propósito, haja vista, você conhecer minha predileção pelas águas, pelos líquidos sentimentos que são os mais frágeis e os mais fortes, os que vencem as pedras sem que elas sequer percebam. O que eu não sei é lidar com essa alternância. Pedra. Agua. Pedra. Agua. Pedra. Duais. Laterais. Tridimensionais. Excepcionais criaturas que na mistura são iguais. Falo das palavras que compõem até aos pés às minhas tantas mentes que se alternam entre realidades, paralelos, fantasias, caos, cais, porto sem mar, mar sem areia, areia sem sal, sal sem alimento, comida sem fome, fome sem você, você e minha fome, tua fome que me quer, silenciar turbilhões sentimentais é luxo que não nos cabe. Embora seja um luxo poder se dar ao luxo de divagar o inexistente como se a dor fosse real, poder fazer do pranto sua língua quando nada te molha, te falta, poder perambular madrugadas como se tudo fosse nada, e fazer verso, e reverso, e entregar-se à prosas sem nexo, tudo em nome de que...Em nome de que, quem sabe, Uma novidade avassaladora. Uma escapada no tempo. Paciência é advento do que há de vir, o que faz o verbo sorrir, acontecer, porque é disso que deveria se tratar toda palavra, toda rima, toda menção, todo refrão, tem que ser musica, e tem que tocar, e tem que abrir uma coisa alucinante no coração, algo que seja identificável, inegável, irrevogável, algo que supere, ou então sente e espere o próximo trem chegar á estação.

Be Lins

quarta-feira, 18 de novembro de 2015

“Respirar já é um risco... Imagina o amor"! _________________________ Jornalista e poeta Michelle Ferret.

Promover o acaso é a melhor forma
 de desacreditar no destino.
....


.......
Bibiana Benites
Veio um silêncio delicado de querer se ouvir. Apenas um vento e sua vontade. Assim te escuto na palavra não dita. E observo quieta o teu semblante. Parte de mim te ama. A outra é cúmplice amanhã e depois e feliz. Nunca foi senão um olho que cuida o outro. De amor deito, de outro jeito, amo. Sonho a palavra agora dita, e tatuado de intenções eu te repito: o meu amor é tua cria. A noite, esta senhora de alegrias, concede as luas. Gozemos com as estrelas!

Dan Cezar

terça-feira, 17 de novembro de 2015

“Sim, eu tenho milhares de defeitos, alguns medos, vários problemas. Mas e daí?” ____________________ — Clarice Lispector.

Moça faz da tua alma
teu próprio jardim.

— Floricitar
"Perguntais-me como me tornei louca. Aconteceu assim: Um dia, muito tempo antes de muitos deuses terem nascido, despertei de um sono profundo e notei que todas as minhas máscaras tinham sido roubadas – as sete máscaras que eu havia confeccionado e usado em sete vidas – e corri sem máscara pelas ruas cheias de gente gritando: “Ladrões, ladrões, malditos ladrões!” Homens e mulheres riram de mim e alguns correram para casa, com medo de mim. E quando cheguei à praça do mercado, um garoto trepado no telhado de uma casa gritou: “É uma louca!” Olhei para cima, para vê-lo. O sol beijou pela primeira vez minha face. Pela primeira vez, o sol beijava minha face nua, e minha alma inflamou-se de amor pelo sol, e não desejei mais minhas máscaras. E, como num transe, gritei: “Benditos, benditos os ladrões que roubaram minhas máscaras!”Assim me tornei louca. E encontrei tanto liberdade como segurança em minha loucura: a liberdade da solidão e a segurança de não ser compreendida, aquele que nos compreende esvaviza alguma coisa em nós."



(Khalil Gibran)

domingo, 15 de novembro de 2015

Ela é a inconstância. _____________________ Invernus, 1994.

Me usa, me deduza, me traduza, 
me confunda.
 Me conheça, me reconheça, 
não me dispensa. 
Vem, não vai, fica vai.
 Espera, ouve, te amo, pra sempre.

— Caio Augusto Leite
Já abracei, com tamanha vontade, que mais parecia um beijo. Já tive beijos, onde lhes faltou o aperto, como de um abraço. Já soprei vidas inteiras, nesta vida, em verdades ditas de coração. Já caminhei sem saber por onde ia, e não me perdi. Já fiquei perdido, por saber para onde queria ir, e acabei deitada no chão. Já fui imensas vezes dormir, para poder sonhar. Já vivi os melhores sonhos acordada. Já chorei lágrimas que não saíram. Já soltei sorrisos, do meio do nada, apenas por me lembrar de alguém. Já tive tantas incertezas na vida, que na única certeza absoluta que me apareceu, quase nem acreditava nela.  Já tornei bastante infelizes, pessoas que me amaram. Já acreditei tanto no amor, que deixei de ouvir a razão, e não me arrependo do que fiz. Já magoei por seguir o coração, mas apenas me arrepende, o que não fiz. Já fiquei quando deveria ter ido. Já corri quando realmente deveria ter ficado. Já levitei de felicidade como se tivesse nascido. Já morri tantas vezes de tristeza, melancolia e solidão. Já virei páginas que nem sequer li. Já permaneci meses, num único parágrafo. Já me olhei orgulhosa num reflexo do que via. Já me detestei, ao ponto de ser a ultima pessoa do mundo, a quem queria ver à minha frente. Já disse o que queria, e com isso, ouvi o que não quis. Já quis tanto dizer algo, que o melhor que consegui foi um silêncio. Já tive muitos amigos, que depois me mostraram serem desconhecidos. Hoje sobram apenas dedos das mãos, que nada têm que me mostrar, - Conhecem.me! Já perdi sonhos por se diluírem nas duras realidades. Já ganhei realidades que ultrapassaram os melhores sonhos, e nem sequer tinham sido sonhadas. Se me conheces, - Julga.me!, se não me conheces, - Ajuíza.me!, de preferência à primeira, e não esperes outra impressão para o fazer. - É que eu sou assim todos os dias, um iniciado absoluto, a viver...


| Luís Santos |- Adaptado




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Eu não sou tão triste assim... é que hoje estou cansada. _________________________ (Clarice Lispector)

O tempo corre, apressando a noite
E eu fico aqui, silenciosa,
esperando um verso amanhe(ser) 
em mim
para que eu adormeça 
P O E S I A


(Wendel Valadares)
- Vem cá, menina, senta aqui que Eu sei que você está cansada. - ele me chamou apontando pra cadeira vazia. - Estou mesmo. - respondi sentada. - Que é isso, hein? Ando exausta esses dias. - Tenho percebido. Também pudera. Você não para! Ocupada, ocupada, ocupada. Sua boca é 'estou ocupada'. Não deixa nem eu te dar uns cheiros. - disse-me ele fazendo cócegas no meu pescoço.- Ah, eu tenho cócegas! - falei entre risos.- Eu sei! Por isso faço. Adoro ver você sorrindo, minha pedra preciosa."


(Rachel Carvalho)- Adaptado




terça-feira, 10 de novembro de 2015

"Ao rosto vulgar dos dias, a vida cada vez mais corrente, as imagens regressam já experimentadas, quotidianas, razoáveis, surpreendentes." ______________________ Alexandre O'Neill.

Fiquei mais quieta depois que sonhei com o silêncio. 
Eu ando acordando poemas e adormecendo a prosa.


Célia Musilli.
Quando perco o sono fico costurando flores por dentro dos sonhos , no viés do vestido da noite.Às vezes me dá uma vontade crua de ser triste só pra encharcar com lágrimas de sal a poesia e espantar as abelhas.Mas não aprendi amargura nem quando me amamentaram com fel.Eu só preciso pingar duas gotas de lua nos meus olhos pra dilatar a pupila e resgatar minha inocência e aceitar com ternura minha vida de insônias, ardências e alguns (des)encontros. Estou com sede de mudanças, mas não quero arrastar os móveis, nem desentortar os quadros.Quero desabitar meus hábitos; entrar na poeira estagnada das coisas e assoprá-la no vento como quando se liberta um passarinho depois de curar sua asa machucada. Pra estar feliz eu só preciso deixar que meus dedos dancem a coreografia do poema novo,vestir as palavras de cetim pra seduzir o moço e aumentar as exclamações do seu desejo. Amanhecer é da competência dos dias. O poeta tece a paisagem.
*
*
*
(Marla de Queiroz)

domingo, 8 de novembro de 2015

“Eu quero nós. Mais nós. Grudados. Enrolados. Amarrados. Jogados no tapete da sala. Nós que não atam nem desatam. Eu quero pouco e quero mais. Quero você. Quero eu. Quero domingos de manhã. Quero cama desarrumada, lençol, café e travesseiro. Quero seu beijo. Quero seu cheiro. Quero aquele olhar que não cansa.” ________________________________ Caio Fernando Abreu


Hoje apetece-me mesmo dizer-te que gosto de ti. 
E desejar-te bons sonhos. Calmos. Tranquilos.
Adormecidos.
 Abraçados. Descansados.
 Selados com um beijo. 


- Rita Leston -
Se estivesses aqui apetecia-me um beijo calado: um beijo onde se fecha os olhos e o fôlego se perde. Se estivesses aqui queria o abraço: aquele abraço em que o corpo do outro passa a fazer parte do nosso. Se estivesses aqui apetecia-me o ombro e o colo: aquele ombro que nos aquieta e o colo que nos sossega. Se estivesses aqui apeteciam-me as mãos: mãos dadas; mãos que não deixam cair; mãos que afagam. Se estivesses aqui queria as conversas de fim de dia. Queria o jantar de todos os dias. Queria o beijo de todas as noites. Queria adormecer com o teu respirar no meu pescoço. Com os teus braços como almofada. Queria a birra da manhã e o primeiro café do dia. Queria tudo isto. E mais um pouco. Se estivesses aqui: seriamos um só. Demoras?


- Rita Leston -

sábado, 7 de novembro de 2015

“É bonito, não? Duas pessoas se sentirem, se saberem, se precisarem, se amarem, os dois na mesma intensidade…” _____________________ — Shami.

Os afectos. São eles o colo que tanto,
sentidamente damos,
como profundamente precisamos.

Luiz Santos
Ambos estão certos de que uma paixão súbita os uniu. É bela essa certeza, mas é ainda mais bela a incerteza. Acham que por não terem se encontrado antes nunca havia se passado nada entre eles. Mas e as ruas, escadas, corredores nos quais há muito talvez se tenham cruzado? Queria lhes perguntar, se não se lembram - numa porta giratória talvez - algum dia face a face? Um “desculpe” em meio à multidão? Uma voz que diz “é engano” ao telefone? - mas conheço a resposta. Não, não se lembram. Muito os espantaria saber que já faz tempo o acaso brincava com eles. Ainda não de todo preparado para se transformar no seu destino juntava-os e os separava, barrava-lhes o caminho e abafando o riso sumia de cena. Houve marcas, sinais, que importa se ilegíveis. Quem sabe três anos atrás ou terça-feira passada uma certa folhinha voou de um ombro ao outro? Algo foi perdido e recolhido. Quem sabe se não foi uma bola nos arbustos da infância? Houve maçanetas e campainhas, onde a seu tempo, um toque se sobrepunha ao outro. As malas lado a lado no bagageiro. Quem sabe numa noite o mesmo sonho que logo ao despertar se esvaneceu. Porque afinal cada começo é só continuação e o livro dos eventos está sempre aberto no meio.


sexta-feira, 6 de novembro de 2015

"...não sou tola a ponto de descartar a tão gostosa possibilidade de amar. Só fico na espreita, pensando em como o vento irá soprar amanhã e trazer a solução do meu sorriso." ________________________

O verbo amar não 

se conjuga sem você.

- Tom Jobim
Eu que escrevo e, brinco de amar o impossível, sei que o meu amor é perene. Mas para os que brincam de desacreditar no amor, esses pouco sabem sobre como o amor está presente na vida de todos e, talvez, mais fortemente quando nos esforçamos para ele estar ausente. Simples ânsia essa de amar e encontrar um sorriso vizinho que vire amor maior e enlouqueça a alma em busca do incerto. Sem interrogações, sem definições, sem dizeres estipulados, sem tamanhos ou mensurações tangíveis.
Nossos limites são ilusões, são amores que se foram e nem por isso deixaram de ser amores. Amor-gangorra, que vai e nem sempre vem, mas que, um dia, nos dará a graça da sua aparição alegre a ponto de transformar amores repentinos em um lindo pedaço de eternidade.

Frederico Elbone

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

Resta-me saber se a saudade cabe numa canção que havíamos sonhado juntos. _______________________ Adilson Shiva


A Esperança é o mais Frágil dos Sentimentos.

Mia Couto
Amaneira de reagir à saudade e à tristeza é ter um coração bom e uma cabeça viva. A saudade e a tristeza não são doenças, ou lapsos, ou intervalos, como se diz nos países do Norte. São verdades, condições, coisas do dia a dia, parecidas com apertar os atacadores dos sapatos. É banalizando-as que as acompanhamos. Um sofrimento não anula outro. Mas acompanha-o. Para isto é preciso inteligência e bondade. Aquilo que resta são as pequenas alegrias. No contexto de tamanha tristeza e tanta verdade tornam-se grandes, por serem as únicas que há. Não falo nas alegrias que passam, como passam quase todas as paixões. Falo das alegrias que se tornam rotinas, com que se conta: comprar revistas, jantar ao balcão, dormir junto do mar, dizer disparates, rir. Coisas assim. São essas coisas — entre as quais o amor — que não se podem deitar fora sem, pelo menos, morrer primeiro. 

Miguel Esteves Cardoso, in 'As Minhas Aventuras na República Portuguesa'

terça-feira, 3 de novembro de 2015

Acredite, sinto sua falta. Sinto falta daquilo que o padre nem disse e do “sim”, que nunca pude gaguejar de cima do altar. Quer saber mesmo? Sinto falta daquilo que nem fizemos e das infinitas coisas que fizemos de conta que faríamos. ________________________ Ricardo Coiro

Sobra só essa loucura,
que ninguém segura no meu coração.
Acredito que a verdade é que fomos feitos para nos encontrar e trocar esperanças. Nos próximos amores (se houverem), na vontade de viver, na ânsia de encontrar alguém que construa na gente o seu lugar. Não era para ficarmos juntos uma vida inteira, nem, como imaginei, para construirmos castelos de sonhos e companhias. Era para nos provarmos como a paixão sempre nos dá pistas da sua existência. Ela simplesmente é uma paixão de anos e dias inteiros que me fez acreditar no poder que a vida tem em distribuir momentos lindos. Nem todos momentos vêm completos e precisam ser infindáveis, às vezes, algumas coisas surgem e criam uma pequena e linda ponte para, do outro lado, encontrar um coração que também queira um lar calmo para morar./Não é no anelar, mas é na ponta dos dedos a nossa aliança. Ali está a sensibilidade, ali está a energia que faz de nós vulcão e brisa de mar. (...)Nossa aliança é a minha inocência em amar as pessoas e a sua resistência em acreditar que seja possível amar tanto. É a minha vontade de pedir desculpas por qualquer coisa que eu não tenha feito e a sua mão firme, segurando a minha, e dizendo “calma, essa solidão vai passar”.Nossa aliança é o choro cúmplice que temos quando temos medo de que a febre nunca passe. É a fragilidade que escorre em lágrimas porque não tem motivo para esconder: está escancarada nos olhos.Nossa aliança é a certeza de que não precisamos um do outro, mas nos queremos acima de qualquer coisa. Uma aliança é circular porque não tem começo, nem fim. O que nos une é a certeza de que o amor é um eterno recomeço.


Trechos escritos de Frederico Elbone e Marina Melz

sábado, 31 de outubro de 2015

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

[...] Pássaros cruzam o céu. O perfume de minha roseira está mais presente que nunca. De vez em quando cai uma pétala e eu a ponho numa estante. Certos dias são menos difíceis que outros. _____________________________ Pit Agarmen in A noite devorou o mundo

"A felicidade também é capaz de nos encontrar."

Mateus Rocha
É preciso escolher. Porque o tempo foge. Não há tempo para tudo.  Não poderei escutar todas as músicas que desejo, não poderei ler todos os livros que desejo, não poderei abraçar todas as pessoas que desejo. É necessário aprender a arte de 'abrir mão' , a fim de nos dedicarmos àquilo que é essencial.




(Rubem Alves)

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Não colherás no meu rosto sem ruga a cor, violenta correnteza. És caçadora - eu não sou presa. És a perseguição - eu sou a fuga. __________________________ (Marina Tzvietáieva)


O segredo da minha lucidez é

não acreditar em juventude eterna.

“Para ter lábios bonitos, pronuncie palavras de bondade. Para ter olhos bonitos, veja o que as pessoas têm de bonito nelas. Para ficar magra, compartilhe suas refeições com aqueles que têm fome. Para ter um cabelo bonito, deixe uma criança passar a mão nele todos os dias. Para ter um belo porte, ande sabendo que você nunca está só, porque aqueles que te amam e te amaram te acompanham sempre. As pessoas, mais ainda do que os objetos, precisam ser reparadas, mimadas, animadas, chamadas e salvas: nunca rejeite ninguém. Pense nisso: se um dia você precisar de uma mão amiga, você encontrará uma no final de cada um de seus braços. Quando envelhecer, você vai perceber que tem duas mãos, uma para ajudar a si mesmo, a outra para ajudar aqueles que precisam. A beleza de uma mulher não está nas roupas que ela usa, no rosto ou no jeito de arrumar o cabelo. A beleza de uma mulher se vê em seus olhos, porque é a porta aberta do seu coração, a fonte de seu amor. A beleza de uma mulher não está na sua maquiagem, mas na verdadeira beleza da sua alma. É o carinho que ela dá, o amor, a paixão que ela exprime. A beleza de uma mulher cresce com os anos.”


Quando lhe pediram para revelar o segredo de sua beleza, a atriz Audrey Hepburn escreveu este poema.

domingo, 25 de outubro de 2015

"Acho que já sabes mas preciso dizer: Estou morrendo de saudades tuas. " _______________________ (Rachel Carvalho)

"Quando o coração gosta de ouvir as mesmas
 músicas, várias e repetidas vezes,
 é o quê?"


(Rachel Carvalho)
"E me pego aqui sentindo essa confusão dentro de mim, de aperto no peito e borboletas no estômago. Eu amo o teu olhar, apesar de não saber direito o que ele me faz. Mas não saber não é o maior problema. O pior é perceber que não consigo fazer outra coisa que não seja pensar em ti. E fico avisando ao coração: ei, não vai ser bobo de novo, que não deixo. 
E ele ouve? Só ri. "

(Rachel Carvalho)

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

A palavra nas mãos do poeta enfeita-se como faz a mulher amada. _______________________________ Guilherme Antunes

O poeta é um fingidor/ Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor/ A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve/ Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve
Mas só as que ele não têm
E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão
Esse O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Img: Arquivo Pessoal
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.
E os que lêem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve
Mas só as que ele não têm
E assim nas calhas de roda
Gira, a entrete a razão
Esse comboio de corda
Que se chama coração

Fernando Pessoa 



Homenagem ao dia doPoeta
20 de outubro de 2015