quarta-feira, 27 de setembro de 2017

A primavera dói-me. Ela é a promessa da procura de jardins e a passagem dos dias atenta ao mistério dos teus olhos. É tanta luz e cor lá fora. E sempre tão gris aqui dentro. ________________________ Lia Araújo

A primavera sempre chega, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, — e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores. Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, — e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende. Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol. Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, — e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz. Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou. Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor. Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.



[ Cecília Meireles]

terça-feira, 26 de setembro de 2017

"Num mundo de padrões, originalidade é resistência. Diante da ditadura do individualismo, apegar-se é subversão. Em meio a mentalidade dominante que milita contra o casamento, amar-se regido por um pacto é desvio. É por isso que treino minha língua no idioma dos avessos..."


O barulho na sala denuncia a incontrolável pressa como se o tempo fugisse sem cumprir suas tarefas. E ela respira fundo, feito um trago de cigarro que penetra no peito. Parece ser o décimo café já quase morno que embebeda a consciência. Pensa bem, ela é esse vulcão sem aviso prévio para nenhum sentimento. Vai querer encarar alguém assim: exausta de medo, que confunde lembranças, não manda recado. Alguém cheia de apetite, mas de paladar sentimental totalmente apurado. A vantagem é que ela sabe amar de um jeito bobo, sem freio, atravessado. Ela sabe amar nas madrugadas friorentas e exigir que na próxima manhã, seja primavera. E nesse vai e vem, entre a pressa e os castigos impostos pela falta de doçura e paciência, ela insiste na vida com fúria e trezentos graus de ansiedade. Vivendo em doses generosas de alegria e pecados, a vida parece que é pra já. Nenhum labirinto ou distância é capaz de fazê-la desistir. Ao final do caminho é apenas um corpo em cacos, cansado, mas ainda visitada pela esperança. Amanhã, passa. Ela, o sonho, a incerteza, o vento, amores e tentativas.


Ita Portugal

domingo, 24 de setembro de 2017

Força e Fé, repete comigo! (Caio F.)

"É uma vontade urgente essa minha de alegrar tristezas distraídas, aquele fim não anunciado. Uma crença no rumo que tomei. Tenho conversado com a contramão dos meus medos, não procuro (mais) a rima que falta, deixo a poesia fazer silêncios, à toa. Hoje eu só tenho um sorriso, riso de domingo. Tudo assim, pintado de depois, de cobranças adiadas."


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sábado, 23 de setembro de 2017

"Por um mundo com amores mais maduros. Com amores mais dispostos e cientes das próprias escolhas. Pois, quando sentido em comum acordo, o amor é um capítulo contínuo, escrito na base dos gestos e respeito. Dizer que ama não é lá uma fala tão essencial assim se você souber quais sentimentos nutrir e depositar na outra pessoa."*

(...)A vida anda corrida. Mal podemos nos dar ao luxo de termos um tempo só para nós, quanto mais para conhecer alguém. E se você conhece alguém na rua, fatalmente perde o senso de direção e iniciativa no curto espaço no qual reflete: inicio ou não uma conversa? O que ela (e) irá pensar? No passado isso poderia significar coragem. Hoje, talvez um passo de medo. Porque no fundo, estamos perdendo a nossa capacidade de interagir no mundo real. Ao menos não da mesma forma em que a geração passada fora acolhida. Isso é preocupante? Sem dúvida. Mas também botar na conta dos meios disponíveis não chega a ser um veredicto justo. Porque somos confusões sentimentais que perambulam nas nuvens e nas ruas. Essa falta de tempo mencionada no início, resulta na falta de autoconhecimento. Muita gente não sabe o que quer, mas acha que sabe o que diz. Daí quando nasce um sentimento para ser distribuído, lambanças e mais lambanças no momento de expressá-lo. O amor não vive de medo, mas nós vivemos de medo do amor. Os afetos que tanto queremos e soltamos nas linhas e diálogos, assusta-nos. Dosamos meias palavras e recebemos meios sentimentos. Por quê? Relacionamentos tornam-se descartáveis a partir do momento no qual não sabemos proporcionar carícias. De nada adianta fazer prece pelo amor de dois e agir pelas regras do querer de um. Gabriel García Márquez escreveu intensamente em O Amor nos Tempos de Cólera: “Nunca teve pretensões de amar e ser amada, embora sempre nutrisse a esperança de encontrar algo que fosse como o amor, mas sem os problemas do amor”. Mesmo na possível crítica do autor quando se refere – mas sem os problemas do amor, talvez, sem qualquer disparidade, Márquez estivesse querendo agir sobre os nossos problemas do amor. Na maneira como o enxergamos e o mantemos. Assim, nessa vista turva e grossa de egoísmos e vaidades que já não podem caber em qualquer abraço. Primeiro você se encontra e, depois, quem sabe, transborde. Não descarte afetos para depois reivindicar carinhos. O amor não precisa viver de aparelhos, mas do nosso conhecimento em querer tê-lo.*


*Guilherme Moreira  Junior

segunda-feira, 18 de setembro de 2017

(...) Quero te entender, compreender tuas emoções e, só pelos teus olhos, sentir a alegria que se faz e a dor que já se fez... ______________________ Fred Elbone

Imagine um beijo extremamente arrasador, as salivas valseiam pelo corpo, as mãos marcam e apertam em desespero e os lábios não se desgrudam com medo de nunca mais sentirem a mesma sensação. Imagine uma mulher que sabe se entregar como se o sexo fosse um delicioso banho de chuva: molhado e libertador. Imagine uma mulher que fala depravações com um sorriso cínico no rosto, com os ombros leves e os cabelos espalhados pela cama feito uma pintura surrealista. Imagine uma mulher que sente prazer de entregar o corpo e os beijos em um endereço ainda desconhecido; o amor. Imagine uma mulher que escolhe um homem pelas suas ações frente ao mundo, pela maneira que dribla as verdades absolutas e faz as diferenças parecem um tempero que só desanda o prato de amadores. Imagine uma mulher (...) ainda sabe sorrir quando ouve que alguém a ama. Imagine uma mulher que é tudo o que muitas mulheres gostariam de ser, mas não são. Por quê? Alguns preconceitos que fazem fila em cabeças que sobram espaço; alguns beijos em público que viram notícia em bocas ásperas que pouco sabem flutuar ao viver; alguns homens que dizem coisas arbitrarias para tirar o brilho de uma mulher que só reflete amor ao piscar demoradamente; alguma falta de sensatez ao julgar o caráter de alguém pelo tesão que sente, pela maneira que diz as coisas do coração, ou pela liberdade de querer fazer sexo sem grandes pretextos. Eu chamo isso de antepaixão, uma espécie de preconceito que inibe as paixões, as entregas, mas, principalmente, as sensações mais puras e viscerais que uma pessoa possa sentir. E, pasmem, essas pessoas podem ser lindas, inspiradoras e sensacionais, mesmo que transem no carro, (...), mesmo que tenham historias malucas ou que façam coleção das noites em que o gemido foi o refrão da música tocada nos lençóis. Imagine uma mulher que desfila nas passarelas das confusões, arromba a retina dos homens que têm a oportunidade de vê-la passar, carrega em si tesão em ser feliz e conta isso para todos, não com palavras, nem escritos, mas com as roupas alegres que usa; combinam tanto com os seus olhos verde-paz. Imagine uma mulher cheia de euforia, que todo dia pela manhã, ao abrir os olhos, lembra que só tem uma oportunidade de viver e que, diferente das noites gemidas e musicais, infelizmente, da vida não podemos fazer coleção. Imagine que quanto mais ela transparece não se importar com a minha opinião, mais eu sinto tesão por ela. Quanto mais ela contorce o corpo em busca do próprio prazer, mais me faz lembrar como amar é uma poesia em que as palavras rimam de forma orgânica. Quanto mais ela se desvincula das regras do mundo, mais a gente cria as nossas. Imaginou!? Agora, imagine que essa mulher possa ser você, assim, entregue, e sem se questionar tanto sobre as verdades solitárias que convivem em você, mas ninguém sabe. Acontece que as horas passam e os desejos guardados expõem o quão vulneráveis somos, realizá-los é uma sensação de que a vida só está começando. Se jogue, antes que a vida te empurre! Já os outros, e o que eles comentam por aí, são virgulas perto da exclamação que você carrega no coração; os outros são uma revistinha de banca que na semana que vem muda de capa, de valor, de colunistas, de matérias, mas, você é poesia, mulher, você é poesia!


Frederico Elboni

domingo, 17 de setembro de 2017

sábado, 16 de setembro de 2017

Viver é não esperar a tempestade passar... É aprender como ajustar as velas... AD

Todo mundo deveria passar por um furacão. Sem exceção. A gente tem manicure marcada, o frango descongelado, mas nenhum cotidiano sobrevive a um furacão. E a gente só sabe disso quando vive um. Todo mundo deveria passar por um furacão, para ter que escolher entre ir ou ficar. Correr ou esperar. Empacotar ou respirar. Com exceção das evacuações mandatórias, penso que não tem escolha certa e escolha errada. Mas penso que todos deveriam parar para pensar: "Vou ou fico?" "Tenho para onde correr?" Todo mundo deveria passar por um furacão e falar para as pessoas com quem vive: "Eu quero ir", "Eu não quero"; "Aqui é seguro"; "Mas eu não me sinto segura". "Então eu vou sozinho" "Eu não fico sem você." Todo mundo deveria passar por um furacão para falar o que sente, Todo mundo deveria passar por um furacão, pegar a estrada e perceber que esqueceu aquele documento importante para, em seguida, se dar conta que aquele documento não tem a menor importância.E o que importa está aqui, no banco de trás, reclamando do calor, no banco ao lado, exagerando no ar condicionado. Todo mundo deveria passar por um furacão e praticar empatia. Todo mundo deveria ter uma rede de apoio, ainda que virtual, para dizer: "Não aguento mais. Estou dirigindo há 14 horas." E ouvir de um desconhecido uma mensagem simples: "Calma, tem um posto aberto na 75, pega à esquerda." "Falta pouco." "Força." "Você consegue." Todo mundo deveria passar por um furacão e chegar num hotel mequetrefe de beira de estrada e, mesmo com cama faltando e sem ar condicionado, erguer os pensamentos aos céus: "Obrigado por esse abrigo, meu Deus." Todo mundo deveria passar por um furacão e comer um pote de M&M como se o mundo fosse acabar - porque, afinal, vai que...Todo mundo deveria passar por um furacão para entender, em detalhes, o mapa de onde se vive a aprender, em minutos, mais do que em todas as aulas de Geografia da vida. Todo mundo deveria passar por um furacão e enlouquecer ao tentar encontrar um hotel que  aceite um bicho, para também dar uma prova de amor ao seu bichinho. Todo mundo deveria passar por um furacão para saber-se vulnerável, mas, sobretudo, para saber-se forte. Para respirar fundo, fazer uma cama no corredor, um cafofo no closet e dormir abraçado com quem se tem. Todo mundo deveria passar por um furacão para, por fim, amanhecer em gratidão com o primeiro raio de sol, com um pato que invade o seu quintal ou com o canto daquele passarinho que, por algum dos muitos milagres da natureza, também sobreviveu.


"IRMA -TODO MUNDO DEVERIA PASSAR POR UM FURACÃO" (Autoria desconhecida)


terça-feira, 12 de setembro de 2017

"...porque tu sabes, que é de poesia minha vida secreta!" ________________________ (Hilda Hilst)

Há de querer ser leve, assoprada, bailarina. Dente-de-leão dançando no vento, voando sem pressa e sem saber aonde vai — e aonde quer — chegar. Frágil menina forte, que disfarça a fragilidade e os medos infantis nos risos de mulher suficiente, competente e independente, escondendo por detrás dos passos firmes a carência, as paixões e as necessidades, que vão muito além de um copo d’água e de comida frequente. Tem-se sede de amor, de carinho tempo inteiro, de toque e mais toque e um pouco mais de toque, só para não faltar. Necessário ser presente, fazer-se presente e doar-se presente, desejá-la com leveza e segurá-la como se pudesse quebrar. E pode. É moça de porcelana, de vidro por vezes, tamanha capacidade que tem de deixar transparecer, por mais que sempre e sempre e toda vida tente disfarçar. Leitura fácil e singela, basta penetrar o olhar e fazer coceiras na alma. Tudo se revela num desviar de olhos, que enrubesce e que cala falando mais do que poderia — e deveria — contar. E se permite, e deixa ser levada e envolta e segura, e desfalece em braços que sabem o que querem, em corpos que dizem mais do que a boca, em beijos que revelam segredos e em danças sem músicas, ritmadas alternadas, num desfecho digno de star. E chove purpurina e o céu se torna particular e dela, todo dela, pronto para lhe levar e assoprar e permitir que seja, que voe, que chova. Que vá parar nalgum lugar. E vai, fugindo, sentindo, amando, sendo toda-toda e pedindo pra ficar...

Mafê Probst

segunda-feira, 11 de setembro de 2017

Prefiro gastar meu prazo tomando um vinho com a intimidade. Essa, vos asseguro, é mais próxima da felicidade. Acho que nunca terminarei de comemorar a permanência do amor como um presente diário. Um pacote que nunca abro. O mistério de seu conteúdo faz parte da felicidade de tê-lo em mãos. ______________________ Diana Corso

Curioso, esse ser, humano, e sua diária e pequena solidão. Solidão preenchida por insanos momentos de reclusão. Ou serão momentos sãos? Um momento para chamar de seu. Nele repousam inquietações. Ou seriam, reflexões? O que foi feito daquele sonho. O que será daquele anseio. Onde foi parar meu coração. Naquela canção? Como era mesmo o refrão? Tudo um dia será esquecido? Virei solidão? Desilusão? Estarei eu na contramão? Quem abrirá mão do desejo quando tanto bem se quis? Foi por um triz que não fiz o que sempre quis. Quis com você, quis pouco ou pouco te quis? Nada faz sentido quando se está só. Quando sorrateiro arrasta-se o silêncio pelas paredes, e soleiras, desconsiderando as eiras e as beiras e enxergar minha derradeira condição? Continuo aqui, e cada um vai por aí. Entre seus livros, seus discos, seus programas de televisão, sem saber que aquele rosto ainda traz,  tanta, paixão.

Be Lins

sábado, 9 de setembro de 2017

… era uma tarde como qualquer outra, vivida a bordo de seu universo particular… _________________________ @tatikielber


E se, de repente, cada alegria nova desfizesse um nó ? E se a gente nem acreditasse mais que esses nós podiam ser desfeitos? E se, de repente, nossas convicções começarem parecer endurecidas demais ? E se a gente sentir uma vontade imensa de rever as ideias, de olhar por outro ângulo, de nos dar uma chance, de ignorar os julgamentos e de ser feliz, estupidamente feliz ? E se, de repente, nos dermos conta que bem no meio da nossa vida tranquila e sossegada, surgiu aquele alguém que muda tudo que a gente já foi ? E se essa pessoa vira imediatamente uma música em loop infinito na cabeça da gente ? E se a gente não quiser nem um pouquinho dar stop nessa música? E se, de repente, todas as coisas prontas que a gente sabia descobrem-se na verdade apenas começadas? E se o que antes era muito vira agora muito pouco? E se, de repente, um único beijo durasse duas horas, e a gente nem se lembrasse que isso existia? E se já não sabemos onde fica a fronteira que divide a paixão e o amor, porque tudo anda deliciosamente misturado? E se, de repente, um olhar entra dentro da gente e nos faz sentir absurdamente amados, desejados e cuidados? E se a gente nem quiser mais se proteger? E se, de repente, a gente descobre que existe sim alguém capaz de perceber que mora um poema inteiro dentro da nossa boca? E se agora a gente sabe que saudade é uma coisa muito, muito sem graça? E se, de repente, a cama branca já não combina mais com esse desejo tão gostoso, onde o coração pulsa em sintonia com a pele, e a gente desenha hipérboles de ternura nas costas voluptuosas do outro? E se a gente começa a querer enfeitar a vida do lado de fora, só pra combinar mais com o lado de dentro ?

(Solange Maia)

sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Trecho do livro que ela estava lendo: ......................"O meu olhar alcança o longe. Contempla o território que me separa da concretização do meu desejo. O destino final que o olhar já reconhece como recompensa, aos pés se oferece como lonjura a ser vencida. Mas não há pressa que seja capaz de diminuir essa distância. Estamos sob a prevalência de uma imposição existencial, regra que ensina, que entre o ser real e o ser desejado, há o senhorio inevitável do tempo das esperas." ____________________________ do livro Tempo de Esperas

Porque ela era uma garota legal. Atrás daquela pose de não-me-importo-acho-que-sou-mesmo-inalcançável. Porque tudo que ela queria era ser protegida e amada, e não ter ou sentir tanta necessidade de se proteger de algo que nem sabe ao certo o quê. Porque ela era uma garota legal. Dessas que sua mãe vai gostar em qualquer esfera que esteja. Mas é que, depois de ter se machucado tanto, ela não sabe mais como agir. Porque quando ela se sente vulnerável, o mundo parece confuso e difícil. Talvez por isso de antemão ela seja sempre tão confusa e difícil. Mas ela era uma garota legal. Atrás daquela pose de não-me-importo-acho-que-sou-mesmo-inalcançável. E ela queria alguém que insistisse. Para além de toda a marra. Todo o dar de ombros. Toda a casca...Porque, por trás de todo o discurso neo-budista-não-vamos-criar-expectativas, existia uma menina que ansiava e esperava. Intensa. Sempre. E mais. Intensa. Sempre. E mais....



Elenita Rodrigues

quinta-feira, 7 de setembro de 2017

Não sei quantas almas tenho. Cada momento mudei. Continuamente me estranho. Nunca me vi nem achei. De tanto ser, só tenho alma. Quem tem alma não tem calma. ______________________ Fernando Pessoa



PEDIDO


Minha alma tem pés descalços
e olhos brilhantes infantis.
Ela veste trapos imprestáveis,
tem uma corda cingida à cintura 
e vive em busca de borboletas, 
versos e passarinhos. 
Alma, peço-te, agora: 
Leva-me junto de ti!
Carrega-me em teus braços. 
És infinitamente maior do que sou. 




Nara Rúbia Ribeiro

terça-feira, 5 de setembro de 2017

"Durma, medo meu." _________________________ O Teatro Mágico

"Será que a sorte virá num realejo? Trazendo o pão da manhã, a faca e o queijo. Ou talvez... um beijo teu, Que me empreste a alegria... que me faça juntar Todo resto do dia... meu café, meu jantar Meu mundo inteiro... que é tão fácil de enxergar... E chegar." Eu já havia me esquecido desse aperto no coração que a espera nos proporciona. É uma vontade de que as coisas aconteçam logo e ao mesmo tempo, é um medo de que elas não aconteçam. Uma inquietação alegre. Um sorriso se abrindo. Um coração acelerado. E um amor revivendo. Realejo.



O Teatro Mágico

domingo, 3 de setembro de 2017

Tem horas que a gente se pergunta por que é que não se junta tudo numa coisa só?! (OTM)

Bom seria se todos dos dias fossem como show do Teatro Mágico!Com entrada só para raros. Magia... Sensibilidade. Amor em forma de arte.Arte em forma de poesia. Poesia em forma de... Tudo numa coisa só! Ah se todos os amores fossem como o de Ana e o Mar. Se o amor fosse peculiar como o da Bailarina e o Soldado de Chumbo. Se todos fizessem meus olhos brilharem com o encanto tão doce do Cidadão de Papelão. Da Pedra mais Alta sinto-me mais Perto de você.Teatro Mágico me leva ao retrospecto... Fazendo com que eu acredite em um beijo trazido em um Realejo. Tem dias que Eu não sei na verdade quem eu sou, mas um Anjo Mais velho sempre Cuida de mim. Eu sou a Menina que também sonha com uma roda gigante... A menina que é encantada... Completa-mente encantada por uma trupe mágica-mente linda. Admiro toda a poesia de um palhaço, todo canto de um sujeito simples cheio de expressividade no olhar, que vive a ecoar notas... Todos os sonhos são tão mais bonitos quando, nos Sonhos de Uma Flauta... Reticências expressam a vontade de falar algo mais... Algo que fica contido em mim. Quero a música rara... Quero correr por entre Vaga lumes. Uma Fé Solúvel às vezes acontece em mim. Sina nossa é um poeta que Pena quando cai o pano... Quero a liberdade de sentir o Ar e de poder fazer poesia mesmo sem saber o qua a boca fala, sempre gostei mesmo do que diz o coração... Zaluzejo. Quero a alegria de um Camarada d´Água... E toda mágica de uma Trupe Para Brilhar onde Estiver. Meu prezado e admirado palhaço Bons ventos para nós para assim sempre... Soprar sobre nós! Soprano o que alumia meu cantar.

(Por, Rô)



OTM



sábado, 2 de setembro de 2017

“Pra falar verdade, às vezes minto tentando ser metade do inteiro que eu sinto. Pra dizer às vezes que às vezes não digo sou capaz de fazer da minha briga meu abrigo (…)” _______________________________ O Teatro Mágico

O Anjo Mais Velho 
(Fernando Anitelli )

"O dia mente a cor da noite
E o diamante a cor dos olhos
Os olhos mentem dia e noite a dor da gente"
Enquanto houver você do outro lado
Aqui do outro eu consigo me orientar
A cena repete a cena se inverte
enchendo a minha alma d'aquilo que outrora eu deixei
de acreditar
tua palavra, tua história
tua verdade fazendo escola
e tua ausência fazendo silêncio em todo lugar
metade de mim
agora é assim
de um lado a poesia o verbo a saudade
do outro a luta, a força e a coragem pra chegar no
fim
e o fim é belo incerto... depende de como você vê
o novo, o credo, a fé que você deposita em você e só
Só enquanto eu respirar
Vou me lembrar de você

O Teatro Mágico