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quarta-feira, 10 de março de 2021

Mulheres são donas dos labirintos. Os cegos de alma e de amor se perdem nelas. ________________ Fernando Coelho



Há uma outra mulher oculta em ti. Desmintam os outros, desconversem os amigos, ignorem os familiares. Há uma outra mulher e uma outra vida ocultas sob o teu próprio corpo, por ora invisíveis aos teus próprios olhos, mas tuas por sagrado direito. Uma mulher não mais regida pelos signos do zodíaco ou pela insegurança. Uma a não depender da sorte ou se entregar ao destino enquanto se aguarda. Uma que não se prestará aos medos ou às migalhas. Há uma mulher oculta em ti, que aprendeu a desculpar a si e a perdoar os outros. Uma que não mais carrega os dramas afetivos do passado, as complicações com seus pais e ausências tantas que ocupam no coração, lugar reservado ao amar. Uma mulher que aprendeu a prestar contas somente à liberdade e não mais aos olhos de ninguém. Uma mulher que descobriu no travesseiro caberem sonhos e não tristezas. Há uma mulher oculta no teu sangue, desmintam os médicos, desconversem as carências, ignorem os familiares, que aprendeu a dispensar e a despedir. Que sabe se cuidar sozinha, que sabe se curar sozinha, porque sabe se amar sozinha. Há uma mulher oculta sob o teu próprio nome, que desaprendeu ansiedades e ressentimentos. Uma que descobriu ser maior do que jamais pensou um dia se tornar e que te aguarda paciente para isto. Uma que te verá aportar na tua própria leveza com teus tons de milagre. Há uma mulher oculta na outra margem de ti, distante dos cansaços e das resignações; que aguarda tomar o teu lugar e se permitir falar, chorar e gozar da alma, do corpo e dos cálices de vinho. Uma que confessará desejos, expulsará demônios e idiotas. Uma mulher que cravada em tua carne e feita de estrelas não te adoecerá dos escuros porque deixou de acreditar neles no instante que amanheceu. Há uma outra mulher oculta em ti a querer fazer-te outra e torná-la pública, como principal personagem no palco da tua vida, sem vergonhas, mágoas e chances perdidas. Tu és a bela adormecida oculta a si mesma que não se deu conta que o que esperas é o teu amor próprio despertar-te para si e fazer-te feliz para os sempres.


Guilherme Antunes

domingo, 3 de maio de 2020

Amei esse passo estranho que abraço, na prece que envolta comigo permanece. Calcei meus sapatos, andei com as estrelas, defendi a imagem sonhada, olvidada e-vivi. (Eloah)

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.


Guilherme Gonçalves

quinta-feira, 9 de maio de 2019

Pelo carinho sem compromisso, pela mão que enlaça e pelo jeito que abraça. __Anieli Talon

O calendário é uma mentira para as saudades mas uma verdade para o amor. Ou vice versa. O café é o cheiro exato na ausência do cheiro dela. A tristeza é uma novela na qual quase morremos no final. A vida é uma coleção de despedidas que nem sempre se despedem de nós.O óbvio é aquilo que quase nunca sabemos enxergar.A lua e as rosas sempre servirão para os poemas de quem procurar por um. A salvação começa por nós mesmos. A ilusão será pensar de outro jeito.Às vezes é preciso entrar para poder sair. Tem gente que quer sair antes de entrar.O sol é um convite silencioso para as esperanças. O lado que ignoramos é o que mais sabe de nós.A escravidão pode ser muitas coisas que não nos parece escravidão. Temos facilidades para obedecer cores escuras no peito.As palavras podem ser doçura ou espinho: depende de como amanhece o coração.

Gui Antunes

domingo, 23 de setembro de 2018

Quando do medo se despede, a vida chega com flores... (Gui Antunes)

set/2018
"Desde quando felicidade é destino?' - pensava. As pessoas faziam coisas com ideias exatas de cumprir roteiros como se ao final a felicidade as aguardasse. Como se fosse conquista, como se devêssemos exaurir tristezas para o devido merecimento, como resultado direto de acertadas escolhas. Não conhecia quem houvesse aportado na felicidade. Não conhecia quem a houvesse buscado e pela busca encontrado. Assim, tinha direitos em desviar-se das tristezas. O desvio mesmo lhe era uma pequena felicidade. Como todas as outras felicidades. Pequenas. Como todas as grandes felicidades. Não importava"

quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

Guarda-me na memória para, ao atravessar o rio do tempo, saber de mim na outra margem. __________________________ Gui Antunes

Dizia ela amar aquela menina sonhadora que por vezes encontrava no espelho do seu quarto. Amor era verbo vivo no reflexo e hoje preso no passado porque menina odiava não mais conseguir sonhar. Ignorava que não mais sonhava por amor se encontrar dormindo. Havia ela se esquecido de como seria novamente não precisar dormir para se sonhar. Sonhar sem medo. Porque o que lhe restava era pesadelo como enfeite no quarto que tanto a assustava e a deixava presa na cama, impedindo-a de caminhar serena no jardim de si. Acostumou-se com monstros e frustrações que a convenceram a ficar por ali, sem sal, sem gosto, sem vida, sem novos capítulos e voos mais altos. Mas quando faminta se alimentou de surpresas e novidades que colheu, lembrou que arriscar era mais vantajoso e prudente do que se encolher.

E aí, menina voltou a sonhar



Gui Antunes

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

"(...) Se empenhe de forma honesta, fiel e constantemente, para que os ventos soprem em favor dos seus desejos mais íntimos. (...) E finalmente deseje algo de bom a si e para os outros, sabendo que o maior perigo de tudo que sonhas, é acontecer... ____________________________ Ita Portugal

BOAS FESTAS!!
Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas de um ano novo, talvez para voltar a dormir novamente. Tem gente que depende da sorte e não das próprias escolhas. Gente que irá consultar a previsão do horóscopo, do I Ching, pular sete ondas, pular num pé só, combinar cores e simpatias como se isto traçasse seus novos caminhos por viver sempre das mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas para empurrar o hoje com a barriga. Gente que perdoa sem perdoar apenas para convencer-se de que o amor ali venceu. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e equilíbrio. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras; que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser a redenção. Ou, que pensa que apenas o amor de alguém na sua vida possa ser a redenção. Gente que coleciona hábitos e crenças a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo para o caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve se deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal reconhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços que servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a alma ou salvar os sonhos, pesar o corpo ou libertar o peito, denunciar o amor e reparar enganos, perdendo de vista as tristezas, perdendo a conta das lágrimas, repousando as verdades no colo após o cansaço dos dias caminhados. Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que tente.


Guilherme Antunes

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

E não há quem desconfie quais ventos e amores a carregam __________________ Guilherme Antunes

Ela quer ir embora de todos os fracassos. Ela não quer a cura, mas livrar-se deles. Ela tem urgências que apoiam a estupidez de insistir naquilo que diariamente a diminui. Busca o amor a ponta pés, embola a linha dos caminhos e fatalidades, barganha com a felicidade seu próprio sofrimento. Ela engole palavras pontiagudas e morre pelo excesso de mundo, diariamente. Ela reza de costas para os amanhãs e distrai-se frente aos precipícios. Ela discorda dos erros mas os promove. Ela anuncia esperanças mas as boicota. Seu altar são as fugas que enfeita. Seus deuses são convocados pela tristeza. A gratidão resvala no seu corpo e este expulsa a sua sorte. A porta estreita, a porta aberta, o peito aberto mantém-se dela segura distância. O sonho é o lugar onde se corrige. Ela quer ir embora de todos os medos. Ela não quer a cura, mas livrar-se deles. Busca o amor cheia de dentes para dilacerá-lo na sua casa. Ela não quer somente a cura, mas livrar-se dela. Dela mesma. Como se ela não fosse sua própria casa, seu próprio amor, sua única esperança e inevitável destino.


Diariamente.



Guilherme Antunes


terça-feira, 18 de julho de 2017

A vida não espera a gente ficar pronto para nada, parece que ela nunca tem tempo, o nosso tempo. Tudo é imprevisível, nada é seguro, e a todo instante nos deparamos com o que não queríamos, não gostaríamos, jamais esperávamos. ________________________ Marcel Camargo

O amor disse o seu nome e você não escutou. O amor sentou ao lado e você se distraiu. O amor insistiu e você o ignorou. O amor decorou seu rosto mas você o esqueceu. O amor lhe sussurrou e você nada ouviu. O amor já foi mais simples e você o complicou. O amor que era óbvio, você crê: nunca existiu. A dor disse o seu nome e você de prontidão. A tristeza se sentou e você deu atenção. A saudade se insistiu e você a agarrou. A solidão decorou sua casa e você não reclamou. A vida já foi mais simples e você a complicou. Aquilo que era óbvio você diz que nunca viu. Qual seria o erro, então?


Guilherme Antunes



quarta-feira, 5 de julho de 2017

Me pergunto e quisera saber de que se trata essa nostalgia de invernos… Dizem que inernos são crises… Quiçá não porque não há outros tons, mas é no inverno onde se forma o silêncio para ouvir as folhas… (Adilson Shiva)

Julho/2017
A vida, filho, é demasiadamente grande e temos por isto, medo. Assim nos prendemos às idéias e números, como necessidade para algum sossego e de garantir a perfeição: quanto se deve ganhar para que não falte, quanto se deve sobrar para bem viver, qual a distância para chegarmos, qual a idade para sonharmos, quanto de cansaço para partirmos, quanto nos falta para amarmos? Assim nos garantimos sem garantirmos coisa alguma, com esta bobagem de quererermos maquinar o mundo como uma disciplina de rigor. O rigor, meu filho, embora seja jeito de controle dos medos é um conceito muito estúpido para o espírito.


Guilherme Antunes

domingo, 25 de junho de 2017

"nos tempos cor de cinza não saia ela nunca de casa a proteger-se dos ventos do destino." ________________________ Gui Antunes


junho/2017
Ela pensa que será mais feliz se mudar de emprego. Ele pensa que será mais feliz se viajar para a Europa. Ela pensa que será mais feliz ao trocar de apartamento. Ele pensa que será mais feliz ao comprar seu carro. Ela pensa que será mais feliz com 3 kg a menos. Ele pensa que será mais feliz com 3 kg a mais. Ele pensa que será mais feliz se dormir com outra. Ela pensa que será mais feliz se não dormir com mais ninguém. Ele pensa que será mais feliz se acordar mais cedo. Ela pensa que será mais feliz se dormir até tarde. Ele pensa que será mais feliz depois de concluir seu curso. Ela pensa que será mais feliz se pular domingos. Ele pensa que será mais feliz ao chegar na festa. Ela pensa que será mais feliz ao chegar nas férias. Ele pensa que será mais feliz se beber demais. Ela pensa que será mais feliz se amar de menos. Ele pensa que será mais feliz se se jogar. Ela pensa que será mais feliz se se poupar. Eles pensam que serão melhores além do que são. Eles sentem que serão melhores para além do que tem. Ela quer mudar seu futuro sem passar pelo presente. Ele quer mudar seu presente adiando-se para o futuro. E vice versa.


E o que eles querem é um futuro a dois quarteirões de distância com o amor os esperando na esquina.


Guilherme Antues

quinta-feira, 16 de março de 2017

"O Vento me define tão bem: sou calma feito brisa, sou forte quando preciso e viro vendaval se tentam roubar o meu sorriso." _________________ Inês S

Ela quer ser olhada. Ela busca ser olhada. Mirada, contemplada, despida. Clama por olhos abusados que cruzem com os seus. Dedicados. Olhos amantes. Olhos atentos a saber dos silêncios que gemem seus desejos. Anseia ser encontrada como alguém jamais a procurou. Um olhar devasso a devassar suas entrelinhas. A enxergar suas invisíveis confissões. A sua própria existência. Um olhar que a decifre e a devore. Sonha por dissolver-se no par de olhos que a mergulhe. Que a asfixie. Que a salve. Acredita que os olhos podem ser perigosos. Acredita que os olhos devem ser perigosos. Quer sentir-se nua. Quer sentir-se plena. Busca a ventura do salto acompanhada ao precipício. Somente o amor pode realizar o salto. Somente o amor pode despi-la.


Ela quer sentir-se amada.

Gulherme Antunes

sábado, 11 de março de 2017

"De longe te hei-de Amar. Da tranquila distância, em que o amor é saudade e o desejo, constância..." ____________________ Cecília Meireles

Há algo perverso que nos convoca a voltarmos aos rostos que já despedimos; e sentirmos saudades do que não se gostaria de sentir. O passado é um exagero. Leva demasiado e deixa-nos muito pouco. Acumulamos dele o quanto podemos como que para sabermos de nós sem nunca sabermos, carregando-os numa pilha que fatalmente desmoronará. Há algo perverso que nos convoca a voltarmos para as tristezas. Comem-nos a felicidade com qual direito? Deitamo-nos com elas a espera de despertarmos melhores. Antes, gratos pela vida sem sabermos outra coisa que não a vida. Agora, sonhamos tudo o mesmo ou menos, a querer o mesmo ou menos. O agora é um exagero. Leva demasiado e deixa-nos muito pouco. Buscamos por medicinas e conversas a cuidarmos dos sintomas de uma única desordem: não sabermos ser. Apáticos, intensos, desesperançosos ou eufóricos são emoções tão transitórias quanto persistentes que cedo ou tarde por elas nos curamos. Mas nos curamos de quê? Há algo perverso que nos convoca a voltarmos às mortes que já superamos. Quando morremos, tudo ao redor divide-se por metade. Quanto já nos sobrou? E o que de nós ainda restará?


Guilherme Antunes

sábado, 11 de fevereiro de 2017

Queria tê-lo chamado para ir ao cinema e descobrir qual era o seu filme favorito, ou escutado uma música com ele e ter conhecido o estilo musical que mata com prazer os seus silêncios, mas não o fiz. ___________________________________ F. Galarreta

Você pergunta à semente quais seus planos por querer garantias que te afastem deste medo besta do depois. Quais garantias, de fato, podemos ter na vida? As pessoas vivem se encontrando e se perdendo. As flores vivem colorindo e depois morrendo. Os laços vivem sendo feitos e depois rompendo. A vida assusta os desavisados assim mesmo, quando ela parece desse jeito, sem eira nem beira, do avesso, louca, pouca, muita, acolá das razões que nos afastam das alternâncias e que nos cercam na nossa ilusória zona de conforto. E quando passamos a saber que a vida é palco de muitas cores e incertezas que nos trazem o novo e a força, como as sementes que gritam amanhã qualquer da nossa colheita, aí podemos respirar macio e criar o bom e o melhor, trilhar o insuspeito, navegar pelo mistério, iluminar as nossas sombras e escolher qualquer caminho e qualquer sorriso que inevitavelmente acolherá o coração.




Guilherme Antunes.

sábado, 24 de dezembro de 2016

Que eu comece diariamente a partir de onde estou e anuncie adiante a vitória da luz... (G.A.)

Um Belo Natal!!
Pai, permita-me ser o espelho dos meus escuros e o eco das minhas verdades. Ensina-me a aceitar-me no tempo entre as sementes e a colheita. Dá-me o próximo e os amanhãs para partilhar a compaixão que hoje me faltou. Coloca-me diante dos meus egoísmos para o necessário diálogo com a alma que reage às próprias feridas. Apresenta-me ao perdão que tanto busco, mas ainda não reconheci. Conceda-me a coragem para atravessar os medos. Revela-me os medos para descobrir a fé. Permita-me a gratidão que ontem não enxerguei, e os milagres que à porta não atendi. Abençoa-me através dos silêncios. Anuncia-Te através do poema. Ensina-me o amor como caminho de duas mãos. E permita que ofereça as minhas ao Teu trabalho.

Guilherme Antunes



Feliz Natal!

quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“Falo do amor de forma mística, sei o preço. (…) *


Quando se percebeu amando - verbo este deliciosamente posto no gerúndio - havia ela já cruzado passos da sutil linha entre qualquer coisa e o amar. Pudesse esta qualquer coisa antes ser paixão, entusiasmo, desejo, afeto, dedicação ou estes todos e outros mais catalogados. O que agora era, era a soma e a exata descontinuidade disto. E não seria o tempo a legitimar o amor. E não seria palavra vinda da boca a iniciar o tempo em que se ama. Quando se percebeu amando, havia já colhido em silêncio o fruto da árvore sem se dar conta. Quando se percebeu amando, percebeu apenas porque já se era outro. Caia o homem no abismo para elevar-se, dando por si nos seguintes dias do seu próprio renascer.


Guilherme Antunes-Adaptado


Simone de Beauvoir

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Outro dia me falaram do amor que nunca vem. Esperas, distrações, descrenças. Uma janela aberta caso o vento fosse portador de tal evento. Pra quem sabe o amor, ele está na próxima esquina. Isso me encanta. Sou das esquinas. E das janelas perfumadas do teu cheiro. _______________________ Dan Cezar

Amamos como nos amaram. Amamos como permitimos que nos amem. Amamos como permitimos nos amarmos. Amamos como gostaríamos de ser amados. Amamos como gostaríamos de ter sido amados. Amamos como já nos faltou amor. Amamos como faltou amarmos. Amamos de posse de todas as certezas. Amamos carregados de todas as dúvidas. Amamos como se fosse simples. Amamos como se difícil fosse. Amamos como se fosse apenas desejo, e desejamos como se pudesse ser amor. Amamos como faltou termos acertado mais. Amamos como faltou termos errado mais. Amamos como se fosse o primeiro. Amamos como se fosse o último. Amamos como se no amor tudo esperássemos. Amamos como se não quiséssemos nada mais. Amamos como se nos sobrasse. Amamos como se nos faltasse. Amamos melhorados. Amamos piorados. Amamos armados e armamos jeitos vários de não amarmos mais, para depois desamarmos ainda amando. Amamos como quem busca. Amamos como quem se encontrou. Amamos. Amemos. Ao menos, que possamos dizer que ao final tentamos.

Guilherme Antunes

quarta-feira, 2 de novembro de 2016

"Naquela tarde quebrada, contra o meu ouvido atento, eu soube que a missão das folhas é definir o vento." _______________________________Ruy Belo

Relacionamos aquilo que entendemos como felicidade às exteriores conquistas que reincidimos. O tempo revela o que por conveniência insistimos não enxergar: esta felicidade se trata apenas de um alívio. Não à toa buscamos repetir a sensação que jamais em nós se instala. Seja através de um novo emprego, um relacionamento, o carro do ano, uma viagem ou um celular e teremos com eles momento de satisfação que logo se dissolverá, continuando nós a procurarmos a felicidade naquilo em que não pode ser encontrada, insistindo no alívio como seu pobre substituto: um elogio que nos façam, um outro relacionamento, uma demonstração de reconhecimento, uma nova compra. Adquirimos, mudamos e conquistamos para obter alívio para uma condição insuficiente. Não há nada ou ninguém que possa dissolver a ânsia e o incômodo que carregamos, senão as revelar como um espelho. Somente nós podemos reconhecer a própria incompletude e um algo ou alguém não poderá completá-la, embora com eles e por eles nos distraiamos, anestesiemos e nos esqueçamos. A felicidade é algo que carregamos mas que ainda não sabemos acessá-la permanentemente. É possível que quando a alcançarmos venhamos a compreender a futilidade das nossas repetições e insistências. A felicidade é o que buscamos, embora a confudamos facilmente com euforia, excitação, inclusive ansiedade. Ela é independente do outro ou de qualquer objeto - isto é, da realidade exterior - e sim relacionada a nós e às nossas interiores dimensões. Eis a sutil diferença que toda diferença faz.
 
Guilherme Antunes

terça-feira, 4 de outubro de 2016

...é sobre a tua ausência no lugar íngreme da minha pele... ________________________ Valter Hugo Mãe

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.


Guilherme Antunes

domingo, 18 de setembro de 2016

A solidão é ambígua. Ela fere, mas também é amiga. Depende do instante. Da pausa. Da perda. O silêncio nos afeta, mas mostra a direção certa. _______________________ Noemi Prates.

Raros são os amores que dispensam promessas, visto que raras são as pessoas que promessas dispensam. Ouso dizer que vivemos de promessas mais do que de amores. Talvez porque saibamos bem o que seja uma promessa e nela nos agarramos como uma certeza. Mas e o amor, qual a certeza de sabê-lo o que se é? Promessas visam aliviar-nos garantindo-nos amanhãs. E o amor, garante-nos o quê? Um amor que se declare garantindo que amará amanhã, também é promessa. Uma promessa que se declare garantindo que será a mesma amanhã, também pode ser amor. Mas quando o amor não nos responde, o que ele é? O amor quando não se reforça na promessa se fortalece no silêncio.E quem sabe isto seja a maturidade daquele que aprendeu que as palavras são tão frágeis quanto os amanhãs, e saiba que os nossos caprichos e medos e boicotes são mais previsíveis do que queremos tanto prever, e saiba que os frutos virão amando-se desde agora a semente, e que a colheita não está em nada separada das raízes. Raros são os amores sem necessidade de outra coisa senão o próprio amar: sem compromissos públicos na agenda, sem encontros marcados com as certezas, sem anúncios nas redes sociais e planos anunciados de férias e festas onde se espera se estar longe do fracasso de não ter sido aquilo que se prometeu.Amar é verbo sem cobranças.Amor sem promessa tem perfume de gratidão, perfumando-nos e, por consequência, perfumando o outro, sem esperarmos por isso.


Guilherme Antunes

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Resisti ao tempo, às duvidas. Depois vieram as certezas que não pedi. Eu só queria acreditar no amor. E, graças, eu acredito. O amor é motivo. _________________________ Dan Cezar

"Não há dias, 
sem perdas,
 danos e ganhos"

Caminhamos em círculos, pegamos atalhos, pulamos degraus, corremos contra o tempo, ficamos em cima do muro. Preparamos resposta, ensaiamos sorrisos, combinamos roupas e intenções, encaixamos nossos sonhos em planos e os planos na nossa falta de tempo, ou de dinheiro. Vendemos as horas do dia para comprar as horas da noite. Envenenamos o corpo e queremos libertar a alma. Por hábito, cultivamos medos e mornos tons de cinza. Nos apegamos aos detalhes e perdemos o principal. De inúmeros jeitos nos poupamos e nos desperdiçamos, conforme doces ilusões ou as cruas verdades que carregamos.

Até o amor em nós chegar...


Guilherme Antunes