quinta-feira, 28 de julho de 2016

O que existia, existe, entre nós, é uma ciência do desaparecimento. Comecei a desaparecer no dia em que os meus olhos se afundaram nos teus. Agora que os teus olhos se fecharam sei que não voltarás a devolver-me os meus. ______________________ Inês Pedrosa - in Fazes-me falta

Amo essas vozes que te fazem
voar sem sentido.

António Franco Alexandre
Sim – digo-te, pousando as mãos nos teus joelhos - desejo encontrar alguém que me ame com bondade, e saiba ler.

- Alguém que queira ressuscitar para ti?

- Sim, alguém que tenha para comigo essa memória. Alguém que deixe espaços entre as palavras para evitar que a última se agarre à próxima que vou escrever. Alguém que admita que a cartografia dos animais e da pontuação não está ainda estabelecida. Alguém que eu possa ler diferentemente depois de me ler. Alguém que dirá aos animais e às plantas que nem sempre serão servos. Alguém que ao nos amarmos se reconheça de matéria estelar.

Maria Gabriela Llansol

quarta-feira, 27 de julho de 2016

Você é a menina dos olhos do Pai! Ele sempre cuidará de ti! Ouça a Sua voz, busque-O em coração sincero, confie nEle e o mais Ele fará! ______________________ Bíblia Sagrada

Necessitamos um do outro, para sermos nós mesmos.
Santo Agostinho
"Somos o que agradecemos... Nada importa tanto assim, se não foi recebido com gratidão. Nada parece eterno, se não foi contabilizado como benção... Nada somos... nada temos... Se o valor divino de cada importância não foi percebido, assimilado e atestado... Por um longo e humilde suspiro de obrigado. 

Somos o que agradecemos..."

Giovanna Stadnicki

sexta-feira, 22 de julho de 2016

Refletindo sobre Maria Madalena, vejo que com ela aprendo a força e a leveza de amar com coragem, liberdade, fé, alegria, entrega, prazer, aceitação, humildade, esperança, humanidade, compaixão por mim mesma e por todos. Se eu tivesse muitos corações, todos seriam seus!

TINTORETTO - 

Magdalena penitente 

(Musei Capitolini, 

Roma, 1598-1602)

Senhor, que és o céu e a terra, que és a vida e a morte! O sol és tu e a lua és tu e o vento és tu! Tu és os nossos corpos e as nossas almas e o nosso amor és tu também. Onde nada está tu habitas e onde tudo está - (o teu templo) - eis o teu corpo. Dá-me alma para te servir e alma para te amar. Dá-me vista para te ver sempre no céu e na terra, ouvidos para te ouvir no vento e no mar, e mãos para trabalhar em teu nome. Torna-me puro como a água e alto como o céu. Que não haja lama nas estradas dos meus pensamentos nem folhas mortas nas lagoas dos meus propósitos. Faze com que eu saiba amar os outros como irmãos e servir-te como a um pai. [...] Torna-me grande como o Sol, para que eu te possa adorar em mim; e torna-me puro como a lua, para que eu te possa rezar em mim; e torna-me claro como o dia para que eu te possa ver sempre em mim e rezar-te e adorar-te. Senhor, protege-me e ampara-me. Dá-me que eu me sinta teu. Senhor, livra-me de mim.


Prece- Fernando Pessoa

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Durma no sofá enquanto ainda é uma escolha. Acorde tarde enquanto ainda é uma escolha. Viva enquanto ainda é uma escolha. Toda dor pode ser suportada enquanto é ainda sentida. _______________________ Hugo Rodrigues

Coração é casa pra gente dividir com alguem!
Às vezes, leia-se quase toda noite, demoro para dormir. Penso demais, e isso, com certeza, posterga meu sono. Revisito sentimentos que me habitam; descarto os desnecessários e conservo os que ainda trarão beleza. E, quando todos já estão dormindo, fico vendo filmes e séries, como se eu nem precisasse trabalhar no dia seguinte; me perco em livros, como se a realidade não fosse tão linda como os livros que leio; ensaio diálogos e futuros hipotéticos, como se eu pudesse prever o que está por vir.
 
Fred Elbone

quarta-feira, 20 de julho de 2016

Porventura o mais fecundo não está na pergunta: «Porque é que eles partiram?», Mas nessa outra que levaremos a vida a responder, e sempre em total gratidão: «Porque é que eles vieram?». _______________________________ [José Tolentino Mendonça, In Diário de Notícias da Madeira]

Quando nas despedidas da vida nos parece que ficou, inevitavelmente, alguma coisa ou quase tudo por dizer, é bom pensar naquilo que o silêncio disse, ao longo do tempo, de coração a coração. Talvez o que de mais significativo somos capazes de partilhar não encontra no mundo linguagem melhor do que o silêncio. Mesmo quando achamos que não nos despedimos, a verdade é que no fundo despedimo-nos muitas vezes. E isso é maravilhoso.A vida deu-nos isso. Termo-nos visto uns aos outros partir e regressar, dizer adeus e olá com a certeza de que nada se interrompe, voltar a ouvir mil vezes a voz dos que amamos, prolongando assim o extraordinário, o interminável encontro. Precisamos também do socorro de outras palavras, e elas chegam se as quisermos ouvir. Vêm em nosso socorro essas palavras maiores, que não são para compreender talvez, mas que nos seguram enquanto certas despedidas (sobretudo as mais dolorosas) desprendem o seu vazio lentíssimo. Há um poema de Li Bai, um poeta chinês do século VIII, sobre dois amigos que se separam, que tenho entre os textos mais consoladores que li.
 
«A verde montanha estende-se para lá da Muralha do Norte.
Brancas águas cercam a Muralha do Leste.
Quando aqui nos separarmos,
seremos a erva aquática vogando por grandes distâncias. 
As nuvens errantes me farão pensar em quem viaja.
O sol poente me recordará o meu amigo.
Já nos afastamos e agora acenamos com a mão.
 E os nossos cavalos, um para o outro, relincham». 

Há palavras assim (todos temos as nossas) que são o frágil corrimão de corda que nos ampara quando a terra parece que toda se desprende.Acredito muito naquilo que Raul Brandão deixou escrito: «Nós não vemos a vida – vemos um instante da vida. Atrás de nós a vida é infinita, adiante de nós a vida é infinita. A primavera está aqui, mas atrás deste ramo em flor houve camadas de primaveras de oiro, imensas primaveras extasiadas, e flores desmedidas por trás desta flor minúscula. O tempo não existe. O que eu chamo a vida é um elo, e o que aí vem um tropel, um sonho desmedido que há de realizar-se. E nenhum grito é inútil, para que o sonho vivo ande pelo seu pé».

domingo, 17 de julho de 2016

(...) A sensibilidade precisa de asas para não cair no esquecimento dos céus, ela nunca é culpa, muito menos frescura ou loucura, ela é só uma alma que, como se fosse fácil, quer abraçar outras almas que também vivam num mundo onde meias coloridas são legais e aceitas como são. _______________________ Frederico Elboni

(...) Vou dizer uma coisa para vocês. Precisa de muita coragem para ser frágil e sensível. Viver todos os dias escondida atrás dos muros que protegem os seus sentimentos é fácil, não tem risco nenhum. Afinal, quem nunca aposta nunca perde, não é mesmo? Quem nunca ama, nunca se magoa. Quem nunca mostra sua essência, nunca é julgado. Precisa de muita coragem para derrubar os muros e sair por aí sem proteção nenhuma, ou como você mesmo diz, para ser frágil como eu. Ser sensível dói muito. O tempo inteiro. Precisa de muita coragem para expor a pele ao fogo e estar sujeita a se machucar. E precisa de muito mais coragem para voltar a ser frágil depois de se queimar. Sim, a vida é dura comigo também. A diferença é que desde pequena eu fiz uma escolha: não deixar que as cicatrizes definissem quem eu sou, não deixar que as pancadas da vida ditassem meus próximos passos, não deixar que os machucados me impedissem de amar, não deixar que a frieza e a violência de uns me tornassem fria também. Continuo frágil, meiga, delicada. E sensível. Até demais. Sonho. Amo. Amo muito, até demais. E se doer, paciência. Sou forte o suficiente para amar de novo. Se os sonhos forem despedaçados, paciência. Sou persistente o suficiente para acreditar neles de novo. Sou corajosa o suficiente para me deixar quebrar em mil pedacinhos e me recompor outra vez. Sabe por que? Sou durona o suficiente para ser frágil.
 
Frederico Elbone

terça-feira, 12 de julho de 2016

"Você está onde precisa estar. Apenas respire..." Budha


Entre erros e acertos,
 existe a vida que palpita no
 meio de forma instantânea, 
real, anunciada.


Já são 7:30 da manhã e eu ainda não tive forças pra sair da cama, sinto que vou me atrasar, mas é quinta-feira, não tenho a desculpa de segunda, e não tenho como me abdicar das responsabilidades de adulta pra curtir os melodramas adolescentes que me perseguem desde a primeira desilusão amorosa.Como não tem jeito, encaro um banho apressado, ignoro a dúvida do clima pra escolher a roupa da labuta e depois de uma xícara de café também feito na pressa, sigo. São apenas dez horas de uma rotina nada previsível e que cada dia que passa percebo que sou abençoada por fazer o que gosto, e apesar das aventuras termino o dia com a cabeça cheia e o coração feliz. Afinal, estou empregada, fato que é tão difícil nos dias atuais!Sabe aqueles melodramas que falei a pouco, me esperaram sair do trabalho e me fazem novamente companhia?! Aqui estou, caminhando agora bem devagar pela cidade no caminho pra casa, mas não quero voltar pra lá. Tá tudo tão frio, calado, silencioso, cheio de lembranças boas e ruins! Enquanto paro num ponto qualquer e repenso meu trajeto observo tantos carros, pessoas, vidas inteiras inventadas por mim na tentativa de realizar algum sonho inconsciente criado ainda nos meus 12 ou 13 anos. Amanhã é feriado, sem dia útil eu serei obrigada a preencher meu dia com algum programa brega, inusitado ou jovial e animado com os amigos, talvez até sozinha na menos pretensiosa opção. Atravesso a avenida e me permito conhecer um dos “points” tão comentados pelos conhecidos mais baladeiros da minha convivência, me acomodo no canto mais discreto do bar e analiso o cardápio como quem admira um barquinho desaparecendo no horizonte, a primeira pedida pode ser uma caipirosca pra ver se esfrio a cabeça e acalmo o coração.

— Garçom, por favor!

A cidade já está mais povoada que o normal, me vejo abismada! Muita gente aproveita o feriado prolongado digo a mim mesma em pensamento, reparo as roupas das meninas, os casais sorrindo gratuitamente, mal educadamente ouço conversas de mesas próximas e completo mentalmente todo fim de noite e de histórias que decidi acompanhar. Já na sexta dose da mesma bebida, nada está como antes! Eu dependo de alguém pra contar meus tormentos sentimentais, minhas faltas e as saudades que ainda nem senti, dos tocos tomados, das oportunidades perdidas e de tudo que não quis ganhar por medo de perder, o que nem era meu em alguma fase da vida. Chamo o garçom de todas as doses, pago a conta e pacientemente entro num táxi que me leva de volta pra um mundo que só eu visito e não faço nenhuma força pra melhorar, insisto em reclamar e não deixo ninguém mais entrar. Ali acabo minha quinta-feira, bem cedo me deito e adormeço, com a ajuda de um ou outro remedinho que me embalou suavemente até uma sexta-feira vazia e cheia de fatos desnecessários, que não faço o mínimo esforço de desapegar.


JOANY TALON

quinta-feira, 7 de julho de 2016

"O coração ainda palpita sorrateiro,quando sinto no vento o teu cheiro"♥ (Invasora)

Escrevo para falar deste sorriso que me espalha pelo ambiente inteiro. Sabe, sorriso de olhar?
Sorrir por tocar sem mão, beijar sem boca, mentalizar o contato? Escrevo, pois se não o fizesse, sufocaria. Internaria tudo. Não saberias destas coisas, destas cavidades cheias de ti, destas sutilezas que cortinas escondem. Escrevo para advertir: todos me vêm em você. Teu disfarce é forjado, pouco complexo, sem as tais camas de gato necessárias para guardar os afetos de "outrem". É afeto desprotegido. Ouvidos surdos, olhos cegos, fissura aparente. Esconder [me] não te cabe. Tua casa é de vidro.
 
Èrica de Paula

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Certa vez tive que explicar conversibilidade e reversibilidade. Tive que mencionar sentimentos. Tive que falar de alma. A alma não é conversível à moeda material. E quem ama nunca mais poderá ser revertido ao estado de não amar... ______________________ Ângelo Feinhart

E o silêncio invadiu alma e coração, e o poeta calou..
Não acredite no amor procurado, encomendado, arranjado. Não acredite em encontros programados. Os melhores afetos te encontram sem hora marcada. Não acredite nestes amores de tarôs, búzios, neste amor de cartazes. As melhores histórias nascem dos esbarros. Quem procura, até acha. Mas não desfruta da beleza dos que se descobrem juntos e aos poucos. Eu te diria: siga seu caminho, cuide de sua alma, continue a academia, o curso de inglês, a jornada de trabalho, o happy hour com os amigos e deixe o amor pra lá. Deixe-o repousar. Ele te chegará baixinho, black tie, elegante e com rosas nas mãos. Ele amará você e a liberdade estampada em teu peito e sorriso. Ninguém vive de amor. Temos outras coisas em pauta: cuidar do nosso próprio jardim, regar os diálogos, descumprir as ausências com amigos, família. Afeto é consequência. Perdoe-me se insisto. Estou cansada dessas mulheres retalhadas que só são capazes de se enxergarem em outro, noutros. Abrem mão dos espelhos da casa e do quarto. Escrevem frases de efeito na porta do guarda-vestidos, mas não tatuam essa verdade no próprio coração. Já fui essa mulher de paixões. E dos muitos extremos que a acompanham. Sei exatamente como é essa coisa de se sentir dilacerando para acreditar que está viva. Sobrevivi a tudo e não sou mais das paixões. Corpo e coração não aguentam. Existe uma delicadeza infinita nas pequenas nostalgias, na calmaria do mar e no barco à vela. Cansei de ser lancha a motor. Desacelerei o caminhar. E olha, ando colhendo flores por aqui.
 
Érica de Paula

sábado, 2 de julho de 2016

"Sonhei penhascos Quando havia o jardim aqui ao lado." 🌻 (Hilda, a Hilst)

Por mais que o teu peito se cale
e o teu olhar seja mudo
tenho sonhos

de absurdos.
Arquivo Pessoal
E nem mesmo a esponja mais dura da dor
ou o corte mais profundo da indiferença
será capaz de ferir o meu sonho.
A estrutura do que sinto,
na essência do que sou,
é de blindagem puríssima.



Nara Rúbia Ribeiro