domingo, 28 de janeiro de 2018

E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós. - ______________________ Martha Medeiros .

De vez em quando sinto a mesma tristeza que o menino Zezé sentiu quando cortaram seu pé de laranja lima. Quando perco coisas cativadas no coração ou mesmo me sinto distanciado daquilo que tanto amo, então é como o pé de laranja lima de minha vida estivesse sendo cortado. Nenhuma saudade sequer se aproxima daquilo que se perdeu ou que distante está. Nenhuma esperança de novamente ter faz com que a tristeza e a lágrima se dissipem. Por isso mesmo procuro amar o máximo que eu possa amar. Por isso mesmo que preciso cuidar com o máximo de carinho e atenção daquilo  que temo um dia perder. Uma flor de jardim, um bilhete antigo, uma roupa velha, um retrato em preto e branco. Tudo isso faz doer quando de repente se perde. Imagine uma pessoa, um amor, um convívio, uma vida. Não. Não quero que cortem o meu pé de laranja lima.




Escritor Rangel Alves da Costa
blograngel-sertao.blogspot.com

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

“Em um relacionamento divertido!” _______________________ (A soma de todos os afetos)

“Em um relacionamento sério.” Nada contra. Fico alegre por quem assim esteja. Faço votos de felicidade ao casal e, confesso, tenho até uma certa inveja de quem se encontra e se ajeita a ponto de querer contar ao mundo que vive um caso amoroso e que ele é sério. Não é despeito, não. Juro. Eu admiro e respeito a seriedade do amor de cada um. Mas acho que quem se ajeita “em um relacionamento sério” anda menos para o calor dos romances que para a frieza dos tratos comerciais, a obrigação dos contratos de compra e venda, a burocracia das operações bancárias e a apatia dos casais ranzinzas, circunspectos, fechados para as brincadeiras de um amor sadio em sua graça e sua leveza. É que eu prefiro as terminologias mais afetuosas, sabe? Estar “em um caso sério de amor insano”, “em estado de graça”, “em caminhada pelas nuvens ao lado de fulana ou sicrano”. Quem sabe “em construção do amor na companhia de…”. A mim faz bem imaginar o amor como o pesado ofício da leveza, o trabalho braçal dos amantes, uma obra inacabada que precisa ser reconstruída e reformada para sempre. Você há de me explicar o quanto estar “em um relacionamento sério” é tão só e simplesmente um jeito de valorizar aquele ou aquela ao lado de quem se está caminhando. E que, ora bolas, são só palavras! Quem liga para isso? Eu ligo. Tenho a impressão de que assim classificado o amor vira outra coisa. Carimbado e despachado ao dia a dia como “um relacionamento sério”, ganha a dimensão limitada e triste de um termo de compromisso. E será mesmo que o amor pode se cobrar e registrar de acordo com as nomenclaturas e tabelas cartoriais? Então vem alguém perfeito e me acusa de não ser sério, de arranjar desculpas para fugir das convenções da vida adulta, me julga, incrimina, desclassifica. E eu só lamento que tudo tenha de ser assim, tão superficialmente classificável. Será que o amor não é outra coisa, não? Não será um negócio sem forma e categoria que simplesmente é e, assim sendo, acontece e se fortalece em seu tempo a partir de nossas intenções e ações e essas coisas de quem quer o bem do outro tanto quanto o seu próprio? Sem amarras e cercas e advertências, sem pregar uma placa no portão avisando: “Cuidado. Cachorro Bravo!” ou “Afaste-se! Estamos em um relacionamento sério!” Vai aqui o meu respeito a quem pensa diferente de mim. Mas, de minha parte, melhor seria estar “em um relacionamento divertido”. Seriamente brincalhão. Daqueles construídos de encontros profundos, em que as almas se encantem e se transbordem sinceramente. Que tragam suas coisas de antes e as dividam com franqueza. Suas dores e perdas, seus escuros pavorosos, seus instantes de grandeza. Que tudo isso se apresente em solidária confraternização de amor. E que de cada encontro resulte uma história divertida, diversa, que gire na direção oposta da maioria dos casais sisudos, amarrados um ao outro em sofrida provação. Que o caminho seja leve e cada um ali esteja em franca entrega. Celebrando a vida porque isso é o mínimo que se espera de quem está vivo: viver como quem recebe uma graça, agradece de joelhos e se levanta para dividi-la com o mundo. Eu quero tudo isso, sim. Mas também quero rir, sabe? Rir dos meus tropeços e minhas topadas, da minha desgraça, das minhas alegrias breves e minhas mesquinharias, da minha cara feia no espelho. Quero rir e gritar sem culpa “EU TE AMO, VOCÊ AÍ!” Quem sabe isso me acorde e me melhore. Meu amor há de ser tão simples e bonito quanto o pão feito em casa. Divertido como os animais domésticos que brincam de morder um ao outro. Despretensioso como quem sonha com as viagens espaciais e com um mundo em paz, em que os estúpidos desistam de seu galope rumo à burrice completa, em que nas escolas as crianças aprendam a ver beleza nas operações básicas de somar, subtrair, multiplicar, dividir e respeitar a si mesmas e ao outro, em que os eloquentes aceitem que “liberdade de expressão” também vale para aqueles que expressam opiniões contrárias às suas. E que tudo isso seja muito divertido. Sempre. Será preciso coragem. E coragem é atributo das almas sérias, envolvidas por seus propósitos, tomadas de bravura para tocar a vida em frente a despeito de seus medos e imperfeições, plenas de ânimo para aceitar seus defeitos e corrigi-los como se pode. Afinal, amar e respeitar compreendem um estado de coisas que ficam para muito além de estar “em um relacionamento sério”. Faço fé que por aí há de caminhar uma alma grave à espera da minha risada. Ansiando pela leveza das nossas conversas e a graça do nosso jeito de lidar com as coisas importantes. Juntos, vamos construir uma casa antiga no meio de uma avenida de prédios comerciais modernos e alimentar hábitos simples. Comprar pão de manhã, plantar hortelã e manjericão em vasinhos de barro, cultivar delicadeza em feitios gentis. Seremos nós e os nossos filhos, nossos sonhos e o nosso desvario de ternura. Eu faço fé. Em nossa estranheza sagrada de amantes honestos, daremos de brincar com a comida, sonhar com o impossível, acordar enquanto o mundo dorme e sair pela cidade à procura de um chafariz onde entraremos de roupa e tudo. E quando uma alma desavisada e triste nos questionar indignada, o dedo em riste, “vocês estão loucos, vadios imbecis? Tomando banho no chafariz?”, responderemos em coro sem prender o riso: “Não, senhora. Nós estamos em um relacionamento divertido!”

André J. Gomes

quarta-feira, 17 de janeiro de 2018

Quero o silêncio amoroso das coisas pequenas. Quero cair nos braços da paz." _____________________________ (Be Lins)

Falamos em seguir adiante, não desistir, não se deixar abater, não retroceder. E quanto a parar e respirar? Reavaliar os caminhos, para reconhecer os adversários, para olhar mais demorado, para sentir o momento, antes de agir. Procurar a bússola do coração pra encontrar direção. Afinal, a estrada não termina em nós, ainda existe muito caminho a ser descoberto. Nessa insistência em não desistir, deixamos de valorizar o que realmente importa, deixamos de enxergar com os olhos da alma, nos descuidamos da gentileza, para não perdermos tempo. Aprendemos a pontuar o final ignorando as reticências da caminhada . Na correria do imediato, atropelamos nossa sensibilidade e nosso sentir fica um tanto desalinhado. As vezes, precisamos só de um momento, um suspiro, um gole de sossego. As vezes, o cuidado é mais demorado, mais delicado. É difícil aprender a puxar o freio de mão dos nossos dias acelerados, mas em certos momentos é uma questão de "se priorizar" em meio as prioridades. Se presentear com um "presente" menos apressado, com um agora mais bonito. Parar não é paralisar. É encontrar o atalho que nos leva de encontro a paz.



Renata Fagundes

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Quando o casulo começou a desmoronar, parecia o fim do mundo! ___________________ (Andrade de Moraes)-

Não pretendo me enganar. Cada fio que a vida tece é necessário para formar a trama completa sabe? E sempre, todo desafio, por mais drama que possa trazer nas entrelinhas do destino, vem como um degrau maior e mais trabalhoso a ser subido. E me dou a chance o tempo todo: a chance de tremer, de desabar, de desesperar, a chance de me reerguer, de renovar o olhar e encher os sonhos de ar fresco. É porque certas miudezas se agigantam dentro da gente quando nos vemos encurralados. E é porque nada tem tanta força assim a ponto de derrubar todas as estruturas ao mesmo tempo. Certas coisas balançam, outras caem, e formam escombros por debaixo da alma. Mas em todo amontoado de poeira também existem brechas, é só olhar com calma. Observo-me, em silêncio, deixando um eco na mente e sentindo o resto do corpo todo dormente. Preciso de certas sutilezas e uma dose de solidão para mastigar o contexto. E ao caminhar na corda bamba e buscar o equilíbrio, movimento-me numa argumentação constante de tudo que absorvo. Assim, estou ciente de cada parte de dentro que arde e que dorme nesse processo. Não pretendo me subtrair ainda que todo abalo dos contornos dos sonhos meus sejam sentidos. Não costumo entregar os pontos tão fácil assim, pois algo dentro de mim me engole vida e vontade e cor e energia e inquietação. Todo pranto de agora é presságio de um novo inicio e não necessariamente um fim. E respiro para agradecer sempre que vejo que nada que é ruim se sustenta muito tempo no meu coração, pois dentro das dificuldades também existe um bocado de poesia disfarçada. Ainda me surpreendo com nossa capacidade de regeneração, como podemos prosseguir mesmos quando inspirações são amputadas adiando certos sonhos e jogando amanhãs pra frente. E o bonito da vida é sempre isso, se permitir casulo e entrar na toca sempre que preciso, para conseguir enfileirar os pensamentos e destacar as prioridades que nos causam vibrações interiores. E, perante a todos e tantos temores, que a gente ainda possa ter a simplicidade de ser riso, e respeitar-se a ponto de deixar doer até o limite máximo, esvaziar o copo da essência para conseguir acordar sentindo o dia novo, de novo. É sentir-me disposta a receber abraços disfarçados de notícias boas, ainda que a tempestade esteja formada no ar. É deixar entrar certas sensações indispensáveis para tornar-me forte, que vai da falta de habilidade em reagir até a grande probabilidade de amanhecer com um gosto de novos rumos à frente. E remo forte em direção a favor do tempo aberto, pois o incerto de hoje, também é caminho de amanhã.

Lilian Vereza





Lilian Vereza