terça-feira, 29 de novembro de 2016

Quem me dera pudesse compreender. Os segredos e mistérios dessa vida. Esse arranjo de chegadas e partidas. Essa trama de pessoas que se encontram. Se entrelaçam. E misturadas ganham outra direção… | Pe. Fábio de Melo |

O amor é tão mais fatal do que eu havia pensado, o amor é tão mais inerente quanto a própria carência, e nós somos garantidos por uma necessidade que se renovará continuamente. O amor já está, está sempre. Falta apenas o golpe da graça - que se chama paixão.

| Clarice Lispector |

sábado, 26 de novembro de 2016

“Não faltou amor, não da minha parte.” _______________________ — Querido John.

Sei disso. Minha liberdade nunca coube no teu abraço. Meu riso solto, minhas fotos confessionais, minhas músicas escolhidas a dedo. Não foi fácil te manter segredo, quando o que eu sentia queria sair pela boca, pelos olhares, pelo corpo, pelos corredores, pelas persianas do meu andar. Minha arte sempre foi sofrer sorrindo, entende? Você jamais saberá dos presentes que eu comprei e não entreguei, das mensagens que rascunhei e apaguei. No meio do furação eu te descobri. E eu já sentia tanto, eu já sentia tudo. Eu já fazia planos pra nós. (...) Quem tem alma que cabe jamais me interessou. Sou mandala de imprevistos, improváveis. Sou de possíveis. Não sei pisar em ovos. Minha melodia é livre e não cabe num único estilo musical. Moço, eu tenho asas por dentro, sabe? Já percebeu que vira e mexe, estou voando, na tua frente? Sou profunda e abrigo armários de mar, prontos para acalmar minha euforia dominical, se preciso. Troco esse carnaval tradicional por livros e dois dedos de vinho quase todo ano. Minha pele tem pó de estrela e meu cabelo, estações. Sou fotográfica. Não troco sono tranquilo por amores desarrumados. Meu vigor anda de havaianas, senta no chão, medita em campo aberto, procura vinis no sábado a noite, acontece na contramão das ondas fortes, avassaladoras. Sou desassossegada dentro de um vestido preto. Não gosto de brincos maiores do que minhas orelhas e sim, não sei varrer ansiedade para baixo do tapete. Vez por outra permito que a tristeza leve meu sorriso, pra variar a cara lavada de sempre. Uma casa chamada intuição. É meu coração. Alarga, absorve, expulsa, canta, contém e compõe, me põe em cima e embaixo, que é para relembrar a existência. Sobre doer nobremente, quem nunca? Sou carne e espírito, fique sabendo.


Erica de Paula

sábado, 19 de novembro de 2016

Sempre sofri. Sempre tive febre. Sempre estive inteira em todos os infernos. Nunca quis ser abandonada. Mas aprendi a perder. O Naufrágio me ensinou a ternura dos afogados. _____________________________________ Marize Castro

Dei um pulinho no céu, que é o que a gente faz cada vez que visita aquelas lembranças, azuis que são, de tanto céu, azuis que são de tanto mar, mergulhos de sonhar, não dormir pra acordar, lá dentro, no mais afetuoso lugar, aquele azul bonito que se intensifica, qualifica sempre mais e mais e mais, banho de sais, perfumes que pairam nas ondas de cada gota desse mar céu azul de lembrar. Nem um som. Nem um movimento. É tudo por dentro. Até respirar pede pausa. Como se entre uma puxada de ar e outra, algo raro, único, irretornável, fosse escapar. Não escapa. Pode respirar. Transbordam águas que sempre voltam ao mesmo lugar. A primeira intimidade. O suspiro. A reação. Outra ação. Tão delicada. Noite longa. Madrugada. Nem um toque poderia ter tanto poder quanto a palavra encantada. Despertada. Noites de lua. E estrelas. Ora chuvas. Ora poeira. E aquela zonzeira boa de tocar o irreal, o celestial momento de estar. No outro. E o outro. Te invadir. Sentir. Poderoso verbo. Sentir. Nada te rouba o sentido. São dos sentidos o território seguinte. Portal. Abram-se instantes. De novo. E de novo. Infinitamente dentro e além. Não é da mente. É mais. É céu azul. E mar. Quando nos pomos a imaginar...Dei um pulinho no mar. E ara tanto azul. Que parecia mais que mar. Já era céu quando fechei os olhos. E as estrelas se sumiram pra deixar o azul ser todo meu. Por uma meia hora. Ou um pouco mais. Estávamos juntos. Como o combinado. Lá no início. Pra Março. As estrelas tocavam pra nós, e a multidão sumia. Sorrir junto era a prova dos nove. Dos dez. Dos milhares de dias que negociamos ficar. Sua mão na minha. Minha mão na sua. Juntas, bocas sempre a procura, a sua à minha, como se a minha não estive a um palmo da sua. Dançamos como loucos. Alucinamos. E rimos. E rimos juntos como se só a gente soubesse o segredo dos sorrisos. O que te fato fazia sentido. Invadimos as portas do céu. Retomamos nosso estado de anjo. Eu, o seu. Você, o meu. E havia invasão. Angelicais eram nossos passos em direção aos nossos próprios passos, que se faziam prazer em compasso. Quando tudo é um prazer. Ou era. Acordar. Abrir os olhos. Despertar. Dentro. E ir e vir e nunca pensar em verbos finitos. Só os bonitos. Outra é a forma de ser dentro do amor. Ali não cabia nada mais, além do amor. Era céu. Azul do mar. Onde eu fui mergulhar. E você veio atrás. Dei um pulinho no azul, e era tudo azul demais, azul que é a cor da fantasia que só se confidencia à lua, à cama, às aguas do céu às estrelas do mar...Que lugar é este pra onde a gente vai sem ir, e quer lá ficar , pra sempre, sem nunca mais ter que voltar... Será que o céu é um pedaço de tudo que se perdeu e se amou e se quis, será que o céu é descobrir que a gente era capaz de ser feliz, e assim, como o azul é azul em tanta matriz, ganhar um cantinho lá dentro, anjo ser de um, para o outro, pra dentro, mar, além, é tanto céu, fechar os olhos, e de repente ver a lua, contemplar o tamanho da lua, e ali na janela, seminua, cantar baixinho qualquer canção que continua, nos ecos, dos suspiros, dos corações vadios, que antes de dormir, acordam pra bulir com sonhos, lembranças, pulos de prazer, azul do céu, bem fundo, no mar, dentro, fora, acima, embaixo, vontade de ir, e lá ficar!

Be Lins

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

Como o tempo custa a passar quando a gente espera! Principalmente quando venta. Parece que o vento maneia o tempo. ........................................................ Érico Veríssimo

"O sentimento do irreparável gelou-me de novo. E eu compreendi que não podia suportar a ideia de nunca mais escutar esse riso. Ele era, para mim, como uma flor no deserto. Se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Corremos o risco de chorar um pouco, quando nos deixamos cativar."


Antoine de Saint-Exupéry

terça-feira, 15 de novembro de 2016

"Pode partir quantas vezes quiser, sentimento não é bagagem de mão, é de alma." _________________________ Danilo M.M.

O que nos sangra, num momento como esse, é a obrigação de desamar. Mas será que isso existe? Os poetas, há muito, já apregoaram que o amor é sempre “para sempre”. Questionaremos as verdades poéticas? Banalizaremos o amor? Faremos dele um bibelô barato e quebrável destinado a adornar, por breves dias, as estantes da nossa alma?


Nara Rúbia Ribeiro

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Eu gostaria de falar que dentro de tantas coisas que eu já disse, há mais centenas para te contar e que todas as vezes que eu noto a sua ausência, eu me pergunto quanto mais para esperar. “Eu gostaria muito que você soubesse de todas essas coisas, mas o que eu gostaria mesmo é que você viesse, quisesse apostar. Que os seus braços fossem de vez um refúgio, o lar perfeito para morar. _______________________ Yamí Couto


Eu vou te ser sincera. O que sinto por você me deixa sequelas. Mas é você que eu quero. É uma promessa. Nós sabemos o que queremos, o que nós dois podemos e eu não vou te cobrar mais do que aquilo que pode me dar. Mas se puder me atender, me toca. Encosta. Eu não quero mais do que eu mereço. Por um lado você é sossego. É apego. Mas se puder me atender, me toca. Encosta. Eu sei. Sou tão nova para competir contigo quando contarmos anedotas, mas respeite o feminino. Sou mulher desde cedo, capaz de apagar as tuas derrotas. Mas se puder me atender, me toca. Encosta. Me olha com desejo quando eu estiver com o teu cheiro, como se fosse a primeira vez e a última que eu te tiver por dentro, como se eu fosse a única capaz de suprir suas carências, a falta de cartas de amor na correspondência e de tudo que te causar certa dependência. Se puder me atender, me toca. Não me troca: – Pelas suas sábias lições de vida que não te dão qualquer saída, – Pelas mulheres feridas que te servem de inspiração e falsa boemia, – Pelas suas escolhas em viver fantasias de que estar parado na monotonia é melhor que se surpreender com a vida. E pela última vez me encosta na porta, e não me deixa sair de nenhuma forma. “Me encoste, toque… sei que sou tua sorte.”



Yamí Cout

terça-feira, 8 de novembro de 2016

Não me procure nas evidências. Nem nas coisas fáceis. Sou tão mais intensa. Me escondo na delicadeza. Na sutileza. Atrás de um coração. Eu só existo na alma sensível, de uma mulher que você ainda não viu. ____________________________ Patty Vicensotti

Senta ao meu lado e venha escutar o meu silêncio... E enquanto o meu coração bater eu não desisto da gente. Preciso de você aqui no meu presente. No seu abraço sinto a reciprocidade nos seus batimentos acelerados. Senta ao meu lado e vamos viver no agora os nossos momentos. As pupilas dilatam, conversa de quem se ama e se entrega. Depois vamos tomar um café que a nossa amiga insônia adora quem faz companhia para ela. Aqui dentro de nós a conversa é sempre intensa e sem hora para acabar.

Maria Emilia

quinta-feira, 3 de novembro de 2016

"Se procurar bem você acaba encontrando. Não a explicação (duvidosa) da vida, Mas a poesia (inexplicável) da vida.” _________________________ Carlos Drummond de Andrade

Não tem graça falar sobre homens, todo mundo sabe o que eles pensam e desejam, basta uma boa televisão e sexo para se construir um casamento feliz com um macho humano. A mulher, sim, traz consigo a incompreensão, o seu amor é um mistério até pra elas mesmas. Na literatura e/ou filosofia, as mulheres sempre são exteriorizadas como detentoras do poder, todos querem satisfazê-las, e a missão é entender que se você não a ama, ela te esquece, contudo, se amar demais, ela terá tédio de você. Em um dos atos de Hamlet, livro escrito por Shakespeare, o seu protagonista revela a maior desilusão quanto ao amor feminino. No momento em que Hamlet e Ofélia assistiam à peça, esta, referindo-se ao prólogo, disse: foi curto; Hamlet respondeu de maneira ácida: “Tal como o amor das mulheres”. Em outros momentos Hamlet aconselhou que Ofélia fosse ao convento, talvez para prevenir a possível maldição do amor feminino (ou talvez porque ele estava se fazendo de doido mesmo). Friedrich Nietzsche dizia que no amor e na vingança, a mulher é mais bárbara do que o homem. Dizem que a única paixão do Filósofo Bigodudo fugiu com um de seus melhores amigos, talvez isso tenha motivado a barbaridade de suas palavras. O personagem Don Juan aconselhava-nos a dar a mulher o que ela não tem. Tratar como princesa a mulher prostituta e como prostituta a patricinha: “assim você será inesquecível para cada uma delas”. Freud, ao estudar sobre a questão da histeria nas mulheres, percebeu que tal coisa (histeria) advinha de uma castração do desejo sexual feminino, alimentado por uma sociedade conservadora. Voltando a Sigmund Freud, acho importante ressaltar que as suas biografias nos dizem que o nosso psicanalista favorito era um romântico, que trocava cartas gigantescas com o seu amor: Martha – ‘’ oh minha princesa’’. Reli o que escrevi no último parágrafo e me senti como colunista de uma revista de fofoca. Calma, leitor, eu tomarei mais cuidado, é o amor que deixa a gente assim. Luiz Felipe Pondé escreveu um livro chamado ‘’ Guia Politicamente incorreto do sexo’’, no qual aludiu que o feminismo não entende a mulher, pois não existem direitos iguais na cama. A mulher quer mesmo é ser submissa. Sade é conhecido por ser um Filosofo libertino, e como todo libertino acredita que não há limites quando o assunto é sexo, neste, inclusive, tampouco há razão, o sexo é irracional. A mulher quer o homem selvagem e foge do educado. Uma amiga minha, certo dia, revelou-me um segredo: “Eu gosto de homens corajosos”. Nesse momento você vê aquele seu amigo colecionador de notas baixas, feio e entroncado, com aquela gatinha da sala. Você olha para si e se percebe solteiro e solitário, apesar de sua beleza facial e suas boas notas. A imagem que se tem é que a mulher gosta de homem que não presta, porém talvez elas gostem de quem tem coragem, então, logo você entende que a sua covardia é que te coloca como um perdedor. O homem que diz que mulher gosta de homem que não presta é movido pelo ressentimento. O ressentido brada contra aquilo que aponta o seu fracasso, tenta culpar a mulher pela sua própria covardia. Leitor, apesar das leituras que fiz e do meu “conhecimento de causa”, confesso-lhe que não entendo a mulher, e, se você for mulher, provavelmente também não deve se entender. É algo complexo que demanda por anos e anos de estudos e “foras”. Um amigo meu, ao desabafar para mim, disse que enquanto houver Matemática e mulher, a sua vida será um fracasso, pois nunca irá compreendê-las. Eu não podia fazer nada, senão concordar.

João Neto Pitta



quarta-feira, 2 de novembro de 2016

"Naquela tarde quebrada, contra o meu ouvido atento, eu soube que a missão das folhas é definir o vento." _______________________________Ruy Belo

Relacionamos aquilo que entendemos como felicidade às exteriores conquistas que reincidimos. O tempo revela o que por conveniência insistimos não enxergar: esta felicidade se trata apenas de um alívio. Não à toa buscamos repetir a sensação que jamais em nós se instala. Seja através de um novo emprego, um relacionamento, o carro do ano, uma viagem ou um celular e teremos com eles momento de satisfação que logo se dissolverá, continuando nós a procurarmos a felicidade naquilo em que não pode ser encontrada, insistindo no alívio como seu pobre substituto: um elogio que nos façam, um outro relacionamento, uma demonstração de reconhecimento, uma nova compra. Adquirimos, mudamos e conquistamos para obter alívio para uma condição insuficiente. Não há nada ou ninguém que possa dissolver a ânsia e o incômodo que carregamos, senão as revelar como um espelho. Somente nós podemos reconhecer a própria incompletude e um algo ou alguém não poderá completá-la, embora com eles e por eles nos distraiamos, anestesiemos e nos esqueçamos. A felicidade é algo que carregamos mas que ainda não sabemos acessá-la permanentemente. É possível que quando a alcançarmos venhamos a compreender a futilidade das nossas repetições e insistências. A felicidade é o que buscamos, embora a confudamos facilmente com euforia, excitação, inclusive ansiedade. Ela é independente do outro ou de qualquer objeto - isto é, da realidade exterior - e sim relacionada a nós e às nossas interiores dimensões. Eis a sutil diferença que toda diferença faz.
 
Guilherme Antunes