terça-feira, 7 de julho de 2020

“Uma casinha bonita. Um emprego que eu adore. Uma pessoa que me entenda. Um par de pés pra me guiar. E um de braços pra dias frios. Um chão pra quando meu mundo desabar. Um colo eterno de mãe. Um lugar pra voltar. Outro pra ficar pra sempre.” _________________________________________________ Tati Bernardi.

Por amor a gente fica, dorme no sofá da sala, encontra conforto no chão do quarto, faz de tudo para fazer o outro sorrir. Por amor a gente divide o que há de melhor, abre mão de um lado da cama, estende a toalha para o café da manhã e engole o orgulho sem titubear. No amor a gente descobre que já foi saudade, que esqueceu o tédio, que se acostumou a rotina e que surpresas sempre viram boas lembranças. É quase sempre o amor, que se assemelha a loucura, que desenterra segredos e que traz à tona toda essa euforia. Tem amor que enfeita a casa, que põe sabor aos nossos gostos, que traz de volta alegrias a muito tempo esquecidas. Por amor a gente reclama da ausência, briga com o tempo e tenta a todo custo eternizar cada momento. O mesmo amor que invade sem pedir licença nos torna livres, dispostos a conquistar os sonhos de outro alguém. Por amor a gente perdoa e se acostuma ao ponto de sentir falta de algumas imperfeições. Por amor a gente fica, faz morada, chama de lar, constrói família, adota cachorro, cultua a felicidade e luta para que tudo isso nunca tenha um fim.

Affonso Schimitt

domingo, 5 de julho de 2020

É o querer inteiro, em partes, em todas as partes. É o querer no caos, no grito, na intensidade. Depois no silêncio entender que nada precisa ser dito, já está sendo feito. E fica a leveza, a paz tão merecida. ________________________________________________ Suzana Bidese

Felizes aqueles
que têm lugares secretos
onde podem voltar.
Guarda um pedaço de ti.
.

Fernando Couto Ribeiro
Definitivamente o sexo é muito bom, porém do outro lado temos o silêncio, a companhia, a calmaria. Onde a respiração menos ofegante também pode ser sentida. Onde os corpos estáticos também constrõem o amor. Onde a plenitude faz repouso. Onde o prazer é muito mais sutil e por isso se esconde em meio ao abraço. Momento no qual deixamos a performance de lado e nos rendemos a rotina. O conforto torna-se sinônimo de paz, a euforia dá espaço a contemplação e o amor é o único sentimento que realmente nos interessa.



Affonso Schimitt

segunda-feira, 29 de junho de 2020

Construir-se é um processo cheio de frustrações, onde precisamos exercitar, separar o que conquistamos de tudo que precisamos deixar para trás. _____________________________________ Poeta da colina


foto: internet
"...e as pombas do meu quintal eram livres de voar, partiam para longos passeios mas voltavam sempre, pois não era mais do que amor o que eu tinha e o que eu queria delas, e voavam para bem longe e eu as reconhecia nos telhados das casas mais distantes entre o bando de pombas desafetas que eu acreditava um dia trazer também pro meu quintal imenso..."


(p. 98, Lavoura Arcaica, de Raduan Nassar


domingo, 28 de junho de 2020

Gosto da palavra AMOR. Dizem-me que AMAR é melhor, que contém a palavra MAR. Ah! Mas Amor contém MOR que quer dizer MAIOR. E assim fica AMOR, MAIOR que o MAR de AMAR. ________________________ Portelinha

foto; Internet
Talvez, Deus use uma régua e um compasso. Algo que Lhe mostra que as coisas vão se encaixar. Ou um relógio do tempo, que lhe denuncia a hora exata dos encontros que vamos ter no decorrer da vida.Por várias vezes, questiono se Deus é um físico, matemático ou, apenas, um poeta apaixonado pelos romances impossíveis. Fico de cá, imaginando Ele de lá, chateado com a nossa bagunça ao encontrar os amores e deixando-os passar. Por muitas vezes, sonhei com Deus dançando em casamentos celebrando o amor, abrindo um vinho por mais um recém-nascido, comemorando o milagre da vida e dando muxoxos quando alguém prega o ódio em Seu nome, resmungando ‘esse babaca não entendeu foi nada.’. – será que Deus falaria ‘babaca’ ?!  Deus deve achar engraçado demais nossas confusões, indecisões e incertezas. Deve ficar de lá mandando chuvas de sinais para nos mostrar o caminho enquanto nós, cegos de vaidade, desapercebemos o óbvio. Não sei se para Deus somos comédia romântica, suspense ou drama. Será que eu teria paciência de assistir a minha própria vida com tanta dedicação, assim como Ele nos assiste? Em Sua onisciência, onipresença e onipotência, penso que, talvez, apertando um botão, Ele resolveria tudo. Nossas angústias, medos e realizaria todos os nossos desejos. Sentado numa cadeira, típica das lojas de games, adicionando alguns reais para jogar mais meia hora. É impossível prever o que Deus nos preparou. Mas, é indiscutível a Sua força através da nossa fé. O que a fé move e a energia que rege tudo isso.É incrível saber que as lágrimas não escorrem pelo rosto em direção a boca por acaso. Que o sorriso depois da tempestade é a resposta. É maravilhoso que, mesmo diante do caos, ainda temos a esperança. E com tanto barulho, bobagem dita, repetida e espalhada em nome de Deus, Ele continua fiel aos Seus princípios e focado na Sua maior e mais forte das leis: A lei do amor.Quem sabe seja esse o segredo de Deus. Seja essa a Sua régua e compasso ou o Seu relógio do tempo: Descarregar sinais de amor sobre nós. Para que, de alguma forma, sejamos tocados e encantados por esse sentimento que nos revela tanto de nós, e nos revela tanto para o outro. Como dizia minha vó, Deus faz tudo certinho. E com muito amor.


Edgard Abbehusen

quinta-feira, 25 de junho de 2020

"Pra não pensar na falta, eu me encho de coisas por aí. Me encho de amigos, livros e músicas." Tati Bernardi

Silêncio. Uma saudade que dança, lembrança. Herança de um tempo feliz.  É uma saudade que eu chamo de minha, talvez por que eu tinha a intenção de ficar. E mesmo que eu saia sozinha, os sorrisos que fui ninguém vai me tirar.  Justo eu, que nunca tive endereço, encontrei em você um grande apreço, meu começo, moço, sem fim algum. De sentimentos que conviviam em perfeita harmonia, sintonia, poesia de dois. Ironia do destino a gente se cruzar. É como se tivessem sequestrado a parte mais bonita de mim e eu começasse do fim para entender o meio. Me roubaram exatamente no momento em que eu estava deitada no teu peito, morando no teu abraço, laço, embaraço. Cansaço que dói, arde. Ferida que rasga na pele. Impele. Martele. Ele. Eu não quero parecer uma menina que caiu na rotina e perdeu a rima de se apaixonar. Eu prefiro ser uma mulher que ainda decora poemas, na esperança de resolver seus dilemas e depois se encontrar. Agora me diz: quanto tempo demora a tua hora de voltar? Não pense que isso é um lamento, na verdade eu sentia um afrouxamento e uma paz sem igual, e talvez esse tenha sido o meu mal, o meu bem e eu fiquei refém de tanto sentir ao teu lado, demasiado. Humano. Te reinvento na minha memória, mesmo que a nossa história tenha a duração de um sorriso. Talvez seja o fato de que ao teu lado eu amanhecia sem pressa, porque essa era a promessa: me demorar no teu olhar, no teu sonhar, acompanhar o teu corpo quando em mim ele fazia morada, e eu não queria mais nada, pois me sentia embrulhada naquele abraço. E depois vieram as tuas canções, o teu som e eu encontrei o meu tom ao teu lado. E ainda tem o violão dedilhado com tanto apreço e isso não tem preço quando fecho os olhos e lembro. Da forma que eu admirava você passeando naquelas notas e não há quem possa me pedir para esquecer, a intensidade com que você se entregava quando estava aninhado, tão afinado naquele instrumento. Eu gostava também de gargalhar com os teus olhos, rodopiar com as tuas mãos, adormecer na tua paz, na tua barba, na tua boca.  Eu lembro do primeiro abraço, era como se tivéssemos fazendo um juramento que servia de acento ao nosso sentir, que teimava em existir com a nossa permissão. Agora me dá a tua mão e me diz que isso vai passar, e que logo eu vou bordar, cirandar, estar ao teu lado de novo. Sendo feliz de novo. Me diz, moço. Vem ser porto. Chega bonito, inteiro como sempre foi. E não esquece de trazer os pássaros para cantarolar na minha janela como fazia todas as manhãs com tuas mensagens, teus telefonemas. Passeia de mãos comigo, brinda comigo, me aquece do frio que faz lá fora. Eu estava tão entregue. Sem medo algum, eu me doava um pouco mais a cada dia. Sem esperança de que desse certo ou não, mas eu estava vivendo aquilo tudo com tanta verdade. 

Não era amor. Era um adorar diário. 
Não era amor, era uma vontade de recomeçar uma nova história todos os dias. 
Não era amor, era um bem-querer recém-nascido. 
Não era amor, era como se eu tivesse retornado de um lugar que eu nunca fui embora. 
Não era amor, era um gostar mais que todos já visto até hoje.
Não era amor, era agridoce.
Não era amor, era vontade de ficar perto, sendo silêncio, barulho, não importava, bastava ser alguma coisa.
Não era amor, mas eu me aconchegava no teu braço, e o barulho do mundo lá fora não me atormentava.
Não era amor, era lucidez, caminhar leve e músicas que falavam por nós.
Não era amor, era afeto macio, cheiro, presença.
Não era amor, era o reconhecimento imediato daquela outra alma que falava a mesma língua que a minha. 
Não era amor, era invasão, urgência e delicadezas que se exibiam a todo instante.
Não era amor, era vinho, verso e violão.
Não era amor, era sensibilidade aflorada.
Não era amor, eram sorrisos, zelo, soma.

Não era amor. Era melhor.

Bibiana Benites

quarta-feira, 24 de junho de 2020

Existem coisas piores que estar sozinho mas geralmente leva décadas para entender isso e quase sempre quando você entende é tarde demais. E não há nada pior que tarde demais. _________________________________________ Charles Bukowski

Quando ela está sozinha, ora com suas próprias palavras. Já que para ela não existe regra para conversar com a pessoa amada. Quando ela está sozinha, olha para o espelho e agradece por mais um dia. Afinal, agradecer pela vida, é uma coisa muito rara e bela. Quando ela está sozinha, anda de bicicleta sem as mãos. Acredita que de braços abertos pode voar e ir para qualquer lugar. Ela adora essa sensação do vento no seu rosto e a velocidade que bate o seu coração. Sem precisar de nenhuma razão, ela muda os planos e realiza novos sonhos. Quando ela está sozinha, corta o cabelo com a tesoura da cozinha, tira uma fotografia e fica rindo de si mesma por dias. Quando ela está sozinha, deita na cama com uma blusa básica e uma calcinha. E antes de dormir, tira a sua maquiagem e fica ainda mais atraente e sexy. Quando ela está sozinha, corre balançando os braços e nem liga para o cabelo desarrumado. Anda pela rua com o seu fone no ouvido, com um sorriso tranquilo, natural e muito bonito. Seus olhos brilham de alegria enquanto ela caminha distraída, curtindo a trilha sonora da sua vida. Ela é livre. Isso não é um crime. Muitos não entendem essa menina e ficam querendo saber porque ela está sozinha. Ela tenta mostrar ao mundo algo que aprendeu com muita dor. Solidão é unir duas pessoas sem amor. Ela aprendeu a se dar valor e acreditar em um amor sem pressa. Aquele que, com o tempo, alcança o que interessa. Ela não se desespera e segue sua vida. Pra ela, uma simples tentativa nunca foi a melhor saída. Aprendeu a ser resistente. A dizer “não” quando não for suficiente. Sabe que metade de qualquer coisa nunca vai satisfazer. Poucos conseguem entender esse seu jeito de ser. Inteira em uma só. Ela nunca esteve sozinha. Nem com ela e nem com os demais. Ela é apenas uma menina que sabe viver em paz, com ela mesma e com a vida.

terça-feira, 23 de junho de 2020

A menina que há tempos chorava, se pôs de pé. Tudo porque teve fé. (Cris Carvalho)

A menina da saia de chita precisa de novo segurar as mãos de Pipa pra não cair do cavalo da fantasia. A menina tinha se esquecido que dentro dela, adormecidos, estão os monstros do passado, que a fazem querer partir, mais do que chegar. Ela não quer olhar para trás. Mas ela também tem medo do que vem pela frente. Espada em punho, reza ao anjo da guarda para que proteja a menina que mora nela. A menina que não quer perder seu lado divino. O seu lado inocente, agraciado, bendito. A menina quer outra vez um quarto rosa, onde ela possa estar só com seus brinquedos e seus sonhos. A menina quer outra vez uma mão segura amparando a mão dela. 'Enterra o passado de vez, menina. Esquece e vai dormir'. 


Cris carvalho