domingo, 31 de dezembro de 2017

"Se eu pudesse desejar, desejaria para cada um de nós um pouco mais de amor em forma de gente. Também desejaria a gente como remédio pra alguém. Porque sei o quanto é bom o gosto do amor em forma de gente. Eu quero engolir o bem e contar pro mundo que nós todos podemos ser dor e amor. Porque descobri que a vida tem cura". _____________________________ Vanelli Doratioto

"... a vida tem formas tão loucas
quanto mágicas de nos guiar
 pelos caminhos que,
realmente, devemos seguir
."
Seja lá qual for seu caminho, um dia, quase sem querer, seus pés irão tocar algum espinho. Seus joelhos vez ou outra irão beijar o chão. Teu mundo será tocado de forma áspera por outras pessoas. Um dia acontece. Um dia a ordem das coisas foge do nosso alcance e a gente esfola as certezas em algum canto. Disso eu e você sabemos. Mas há no mundo um consolo. Um acalento doce que vale mais que ouro. Há no mundo gente que é remédio. Gente que cura dores com amor. Que assopra aflições e que transforma feridas em superação. Essa gente é beijo de mãe. É sopro de esperança. É amor para o coração cansado. É bebida quente em dia frio. É uma canja saborosa em noites de fome. É um ombro amigo em momentos ruins. Se me permitissem nomear eu diria que essa gente é amor puro e sincero. Dádiva que remenda corações partidos e dá força para a alma. Eu tenho pessoas remédio em minha vida. Pessoas às quais sou imensamente grata. Eu também sei que há em mim (e em você) a capacidade de ser o remédio de alguém. O amor cura. O amor ensina. O amor reconstrói. O amor acredita em recomeços e estende as mãos sem perguntas tolas para isso. E para amar não é preciso nada além da vontade pura e sincera de ser abrigo. Se eu pudesse desejar, desejaria para cada um de nós um pouco mais de amor em forma de gente. Também desejaria a gente como remédio pra alguém. Porque hoje eu sei que cair dói. Que falhar sangra. Que recomeçar exige empenho e fé. Que repensar toda uma vida e mudar o rumo não é fácil. Porque hoje eu sei o quanto é bom o gosto do amor em forma de gente. Porque hoje eu quero engolir o bem e contar pro mundo que nós todos podemos ser dor e amor. Que tem gente que é remédio. Que a gente pode ser remédio. Que a vida tem cura.

 Vanelli Doratioto 

sexta-feira, 29 de dezembro de 2017

Em 2018 : "Prepare-se para sua capacidade de amar, para sua melhor beleza, para fazer cada vez melhor o que você sabe, seja quindin, amor,coleção de selos, estudos transcendentais, harpa, pipoca, pensamento de kant, numismática, sorriso, sinuca ou cirurgia ocular." ________________________ Artur da Távola*

Retrospectiva  2017


Para Caio, o destino era soberano: “Se não for hoje, um dia será. Algumas coisas, por mais impossíveis e malucas que pareçam, a gente sabe, bem no fundo, que foram feitas para um dia darem certo(…)”. “O mundo, apesar de redondo, tem muitas esquinas”.


Pamela Camocardi



QUE VENHA 2018 !!!

quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

E o resto? E tudo aquilo que a gente mal consegue verbalizar de tão intenso? Desejos, impulsos, fantasias, emoções. Ora, meia dúzia de normas preestabelecidas não dão conta do recado. Impossível enquadrar o que lateja, o que arde, o que grita dentro de nós. - ______________________ Martha Medeiros .


De vez em quando sinto a mesma tristeza que o menino Zezé sentiu quando cortaram seu pé de laranja lima. Quando perco coisas cativadas no coração ou mesmo me sinto distanciado daquilo que tanto amo, então é como o pé de laranja lima de minha vida estivesse sendo cortado. Nenhuma saudade sequer se aproxima daquilo que se perdeu ou que distante está. Nenhuma esperança de novamente ter faz com que a tristeza e a lágrima se dissipem. Por isso mesmo procuro amar o máximo que eu possa amar. Por isso mesmo que preciso cuidar com o máximo de carinho e atenção daquilo  que temo um dia perder. Uma flor de jardim, um bilhete antigo, uma roupa velha, um retrato em preto e branco. Tudo isso faz doer quando de repente se perde. Imagine uma pessoa, um amor, um convívio, uma vida. Não. Não quero que cortem o meu pé de laranja lima.




Escritor Rangel Alves da Costa
blograngel-sertao.blogspot.com

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

"(...) Se empenhe de forma honesta, fiel e constantemente, para que os ventos soprem em favor dos seus desejos mais íntimos. (...) E finalmente deseje algo de bom a si e para os outros, sabendo que o maior perigo de tudo que sonhas, é acontecer... ____________________________ Ita Portugal

BOAS FESTAS!!
Tem gente que passa o ano inteiro dormindo e só resolve acordar às vésperas de um ano novo, talvez para voltar a dormir novamente. Tem gente que depende da sorte e não das próprias escolhas. Gente que irá consultar a previsão do horóscopo, do I Ching, pular sete ondas, pular num pé só, combinar cores e simpatias como se isto traçasse seus novos caminhos por viver sempre das mesmas promessas de final de ano. Gente que diz acreditar no amanhã apenas para empurrar o hoje com a barriga. Gente que perdoa sem perdoar apenas para convencer-se de que o amor ali venceu. Gente que não sabe que a diferença entre crer e saber é a mesma entre muleta e equilíbrio. Tem gente que se acostuma com adoçante ao invés de doçuras; que acredita que uma folha a menos no calendário possa ser a redenção. Ou, que pensa que apenas o amor de alguém na sua vida possa ser a redenção. Gente que coleciona hábitos e crenças a vida inteira pensando ser algo de valor. Tem gente que guarda dinheiro e deixa tudo para o caixão. Gente que pensa ter a vida inteira e resolve se deixar para depois. Tem gente que muito se acha quando na verdade nunca se encontrou. Gente vivendo de sonhos mesmo se alimentando de ilusões. Gente que diz saber do mundo e mal reconhece suas solidões. Gente que se acostumou ser gado porque está bom assim. Gente que pensa que pensa e ao final não pensa nada. Somos viciados em tentativas e dependentes de recomeços que servem do tempo para nos amansar a pressa e enrugar a pele, partir a alma ou salvar os sonhos, pesar o corpo ou libertar o peito, denunciar o amor e reparar enganos, perdendo de vista as tristezas, perdendo a conta das lágrimas, repousando as verdades no colo após o cansaço dos dias caminhados. Ninguém é tanto tempo feliz por mais que queira, nem triste o tempo todo por mais que tente.


Guilherme Antunes

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Toda emoção é inconstante, toda paixão é bipolar. Tudo é mistério, tudo é instável, e sorte de quem aprende a se equilibrar nessa gangorra." ______________________ Marta Medeiros

Eu que chamei tantas vezes de amor essa força bruta e avassaladora. Onde nada poderia ser simples ou menos tumultuado porque precisava tirar o fôlego, a razão e toda a minha inteligência emocional. Eu que chamei de amor essa coisa opressora que turvava a mente e embargava a voz com frases aflitas. Essa coisa quase injusta, pois me tornava absolutamente impotente diante de uma escolha. Eu que chamei de amor essa explosão indomável, esse estado de urgência, essa descaracterização de mim mesma: vivia um estado de transbordamento que fazia com que me sentisse mais miserável do que plena. Sentia uma espécie de desejo onde o limite era sempre doloroso. Estava submetida a uma profusão de sentimentos incolonizáveis que faziam de mim mais vigilante que atenta, mais traída do que distraída. Eu que chamei de amor essa embriaguez de estar tão escravizada que tentava apoderar-me não do Outro, mas da liberdade dele. Eu que não queria habitar seu coração, mas dominar os seus pensamentos. Eu que deixava de ser amante de alguém para me tornar súdita de um sentimento. Eu que chamei de amor esse desconforto quase adorado e seu efeito lacrimogêneo: vulgarmente conhecido como paixão.



Marla Queiroz

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

"Quero morar numa cidade onde se sonha com chuva. Num mundo onde chover é a maior felicidade. E onde todos chovemos." Mia Couto

Ele diz que sou forte por me atrever a escrever com chuva e frio. Que sou perfeita em assumir, rasgar o verbo e os gestos num único olhar. (...) Que sou farta em sentir, em fluir, em avermelhar as mãos. Que sou leve e sou código, boneca de pano, que pareço não ter medo e vestir sonhos quando acordo. Que sou capaz de aquecer o mármore e transformar café em sorvete. Só ele pode dizer isso. Só ele sabe se é verdade ou não. Tenho pressa de viver e de sentir, sentimentos não pairam em paisagens, eu bem sei. Meus diálogos são de corpo também. Esta é a verdade sobre mim e não é um segredo. Todas as evidências de minha intensidade são públicas. O que me causa e quem atrai, é coisa de dentro. Respeitem.


Érica de Paula

terça-feira, 5 de dezembro de 2017

"Quem eu sou, você só vai perceber quando olhar nos meus olhos, ou melhor, além deles." ______________________________ — Clarice Lispector.

O maior afrodisíaco que pode existir em uma relação é uma alma escancarada. Não há nada mais belo, mais sedutor, mais atraente do que alguém completamente despido em suas miudezas, aberto em sua loucura, completamente vulnerável, ansiando para ser tocado, fisgado por um abraço, preso em um olhar.Todo relacionamento profundo depende da abertura das pessoas presentes na relação. Dessa maneira, é necessário que as almas estejam escancaradas, a fim de que haja profundidade para o mergulho. Caso contrário, a relação será superficial e, por conseguinte, incompleta. Acho que nós, mais do que ninguém, sabemos disso, afinal, em quantos relacionamentos nos sentimos completamente despidos, sem joguinhos, arrodeios e medo? Eu sei que é bem verdade que quando nos colocamos de maneira totalmente desarmada em frente a alguém, há o grande risco de nos machucarmos ou de não sermos correspondidos. No entanto, procurando o prazer sempre há o risco de tropeçarmos na dor. Sendo assim, é preciso que estejamos dispostos a nos arriscar, já que não se envolver profundamente com alguém por medo, como diria Sean, personagem de Robin Williams no filme Gênio Indomável, é apenas uma superfilosofia que garante que você nunca irá conhecer ninguém de verdade. Somente almas escancaradas são capazes de mergulhar na loucura, não a psiquiátrica, mas a que permite que todos os pecadinhos, os segredos, as esquisitices, as coisas bobas sejam reveladas. Ou seja, a loucura que permite a eclosão do próprio sujeito, o qual se transforma a partir do mergulho nas profundezas de outro ser. Um mergulho na essência do humano, da intimidade e, portanto, bálsamo do divino. Desse modo, quando há a libertação dos medos e nos entregamos, com a alma completamente nua, acontece o encontro que alegra, lembrando Spinoza. Nesse espaço colocado entre duas pessoas enlaçadas sem nenhum subterfúgio, acontece o gozo, o prazer, o delírio, a perda da própria consciência, a imersão em uma órbita superior, em que não há limites para o voo, pois todas as limitações terrenas se esvaem na medida em que sentimos a manifestação do divino. Acontecem os refluxos da alegria, o aumento da potência de ser e, acima de tudo, sentimos por instantes que somos capazes de criar um escudo contra a morte, porque criamos memórias compartilhadas e estas são eternas, porque existem no espaço secreto onde as almas se beijam e o tempo não passa. A conversa, o toque, pode até existir em qualquer relação, todavia, é apenas quando sentimos que temos à nossa frente uma alma escancarada que conseguimos interpretar cada palavra e perceber a sua poesia, inclusive, a do olhar, que mesmo em silêncio, é capaz de fazer as denúncias mais subterrâneas, como se houvesse um canal ligado diretamente à alma, uma janela aberta sem nenhum tipo de cortina. Sendo assim, o maior afrodisíaco que pode existir é uma alma escancarada, entregue e vulnerável, capaz de sentir cada dedo penetrando, acariciando e envolvendo cada célula do corpo, pois o maior prazer que existe em uma relação é perceber que em meio a tanta superficialidade, há um lugar no mundo onde podemos encontrar luz e calor para descansar nosso corpo e acordar nossa alma.

Erick Morais