domingo, 30 de outubro de 2016

O obvio é a verdade mais difícil de se enxergar. _______________________ Clarice Lispector

Por que é que a gente se abandona? O que fica quando viramos a página? O que acontece dos nossos pedaços deixados para trás? Mesmo quando a rotina não me toma, eu me ocupo. Assisto um filme, leio um livro. Fico pra depois. Eu saio de casa, eu compro algo que não preciso. Mais tarde eu penso, mais tarde eu me ouço. Por dentro algo ferve, cresce, borbulha. E eu devolvo pra dentro e guardo lá no fundo e aperto F5 nas redes sociais. Sempre esperando aquele sinal de que uma mudança grande está chegando. E o que eu fiz das mudanças que já vieram? Os hojes que eu atropelei em busca de um amanhã? Os futuros esquecidos no presente? Quando é que a gente para de correr e percebe que chegou lá?

Verônica Heiss

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Aí ele chega, provoca o caos nos seus sentidos, causa uma bagunça, você não sabe como se sentir, porque tudo é intenso, ele te faz sorrir da mesma forma que lhe faz chorar. E acha ruim quando você não consegue discernir se é bom ou ruim tudo o que ele desperta em você. ________________________ Ana Paula Leite


Escolha a menina que você sente falta depois que a festa acabar. A que você tem vontade de dormir de conchinha e sinta dó de tirar o braço dormente debaixo dela. Escolha a menina que você gosta de conversar até de madrugada, que faz você sorrir com uma simples mensagem e que se emociona com a sua declaração de amor. A que adora ficar te olhando dirigir e que sente orgulho de estar no banco do passageiro, independente do carro que você tenha. Escolha a menina que discorda de você, que tem manias e opiniões próprias, que admite preferir outro restaurante e que assume não gostar de Senhor dos Anéis mesmo sabendo que você é fã. Porém, respeita suas particularidades, apoia suas decisões e enxerga o mundo de um jeito que combina com a sua maneira de ver a vida. Escolha a menina que tem o olhar mais sexy do que a saia ou o decote que usa. A que toda vez que você olha está ainda mais linda do que antes e que torne difícil a despedida no fim da noite. Escolha a menina que você acha linda de pijama e que não precisa de lingeries caras pra ser a mais sexy do mundo pra você. A que rouba a sua coberta no meio da noite e que ao acordar com frio e descoberto, você olhe para egoísta ali toda aquecida e sinta vontade de cuidar para sempre. Escolha a menina que te surpreende nas pequenas coisas, que faz com que a união dos seus corpos aqueça a alma. A que consegue diferenciar os momentos de doçura dos de total entrega física, que te manda mensagens fofas e outras só para aquecê-lo até o encontro de mais tarde, mas gosta mesmo é de falar baixinho ao pé do ouvido. Escolha a menina com quem você tem músicas junto e, principalmente, te faz começar a entender o sentido de várias outras que tocam na rádio. A menina que se esforça pra te dar um presente criativo no Dia dos Namorados, não o presente mais caro, mas o mais significativo. Escolha a menina que te aceita do jeito que você é, com qualidades e defeitos, sem idealizações hollywoodianas. A que enxerga você além do que o resto do mundo pode ver e que você soma em vez de tentar te completar um cara que já nasceu inteiro. Escolha a menina que é a primeira que você pensa em falar quando tudo dá errado e quando tudo dá certo, a que você corre contar sobre a demissão e sobre o novo emprego. Aquela menina que é a melhor companhia e a melhor companheira, que te acompanha na festa chique do sábado e no programa de índio do domingo. Escolha a menina que tem um milhão de defeitos, que às vezes é chata, teimosa e difícil, entretanto, sabe pedir desculpas, reconhecer o erro e que tem incontáveis qualidades que a tornam extraordinária. Escolha a menina que te mostra que dividir a pipoca, a cama, o doce, o cobertor, o guarda chuva e todo resto só multiplica a felicidade. Escolha a menina que sabe que só amor não é suficiente, que te impulsione pra frente e te jogue ao mundo porque sabe que vocês conseguem dar um jeito depois. A que compreende que brigas em excesso é coisa de criança, desgastam qualquer relação e que diálogo e confiança são aquelas coisinhas que fazem o amor durar. Escolha a menina que te faz entender que todas essas afirmações clichês fazem o maior sentido e são poucas para descrevê-la. A menina que você, após ler esse texto, sentirá vontade e marcar o nome nos comentários… A menina foi escolhida, mas stambém escolheu estar ao seu lado.

● Jéssica Delalana

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Deve existir algo estranhamente sagrado no sal: está em nossas lágrimas e no mar... __________________________ Khalil Gibran

Arquivo Pessoal
'não vos esqueçais que a terra ama sentir os vossos pés descalços. Não vos esqueçais que ao vento agrada jogar com os vossos cabelos.'


Khalil Gibran – 
Sobre a simplicidade

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Olha bem para as flores, menina. Escuta: elas não deixam de ser flores quando vais embora. É da essência delas: Perfumar campos e encrespar os cabelos das amantes. Tal qual o teu cerne de fazer o bem e pintar mundos no mundo, a cor. A flor nasceu para ser flor. A síntese colossal da tua existência. _____________________________ Abraão Vitoriano

O tempo não volta, moço. Ainda que regresse por rotas que um dia passou, as pessoas não estarão paradas no mesmo lugar. As situações serão outras. Outros mistérios, novos anseios. Entreguei em tuas mãos a chave. Desafiei os espaços, a noção do certo e errado, ignorei conselhos amigos. Escolhestes o discurso, a cobrança, as homéricas cenas. Enquanto fixavas teu olhar no deserto, no vento cálido, nas ancestrais desculpas. Eu mirava onde o vento fazia a curva, onde nasceu a primeira gota. O tempo não volta, moço. Levantei da calçada, troquei as janelas, cortei o cabelo, aprendi a respirar fundo, preferi estar acordada. Outros mistérios, novos anseios. O vento, o tempo te levou para o lugar que tu escolhestes. Quanto a mim, optei por ser nuvem e pé no chão.


Abraão Vitoriano

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos actos, não pelas palavras. Ela me perfumava e me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar " _________________________________ Antoine de Saint-Exupéry Do livro "O Pequeno Príncipe"


Tudo passa? Talvez não. Talvez esta seja uma visão inflexível demais sobre a transitoriedade da vida. Um amor não se faz eterno pelas lembranças? As mais duras mágoas não se transformam em sabedorias? Quantas paixões não mudam e ainda assim permanecem inteiras, no mais perfeito companheirismo? Essa efemeridade total parece dura demais, até mesmo para o meu típico realismo. Desumana demais. Eu prefiro acreditar em alguns eternos. Alguns, somente. Porque ainda assim algo é certo. Nem tudo fica. Não importa o quanto nos fazemos presentes. Não importa o quanto nos apegamos até mesmo à dor. Algumas coisas simplesmente não permanecem. Mágoas ou alegrias. Os desejos de dividir uma vida ou as óbvias ausências disfarçadas de liberdade. Então, eu tenho me permitido ser mais flexível. Não apenas para a ideia de que certas coisas não passam. Mas também para enxergar tudo o que não fica. 

Matheus Jacob

domingo, 23 de outubro de 2016

"Vento, "Paris foi feita pra ti." ________________________ Mel

Eu vou. Com a minha caixa de histórias e meu rímel borrado. Já esfreguei meus olhos pra ver e intimei os ouvidos a ouvir. Escuta: é o vento que canta. Ando desacelerada e me convém. Preciso de mais tempo. De mais ar e de mais flores. Castelos em Paris? Quem sabe. Eu vou. Essa caixa de histórias pode se abrir, cair a qualquer momento não vão. E eu, então, precisarei iluminar o céu, para dizer do que vivi. [olhos estrelando. anote aí]

Érica de Paula

sábado, 22 de outubro de 2016

Eu amo ler pessoas. Mas, ultimamente, não tem sido interessante. Deixo-as na estante, pois cansei de chorar nos finais. ___________________________ Noemi Prates.

Nunca antes a indiferença, maquiada pela tecnologia, ‘destruiu’ tantas expectativas como atualmente. Não é o ‘ódio’ pelo outro que desmonta seu sorriso tão duramente costurado. Não é a ofensa que apaga do coração a centelha de uma afinidade qualquer. O que entristece a alma, aquilo que pode afogar os sentimentos mais básicos de um coração, chama-se indiferença. A indiferença é arte do desdém. Quem pratica a indiferença possui uma veia artística. Esse tipo de pessoa costuma pintar em matizes opacas no rosto do desdenhado a palavra ‘desumanidade’. Pois o que seria a indiferença senão a desconstrução da humanidade? Quem pratica a indiferença – ‘te respondo quando me der na telha e olhe lá’ – faz do outro qualquer coisa, menos ser humano. Ignorar aquele que nos escreveu uma mensagem, que deixou um recado na caixa postal do telefone ou que nos enviou um ‘olá’ pelas redes sociais é desrespeitoso. Quem já leu Franz Kafka sabe o que é ver a indiferença tomar ares épicos. Tomo como exemplo ‘O Processo’. Na obra, um homem é processado sem saber o porquê procura entender o crime que cometeu sem ter cometido crime algum. Ele recebe menosprezo de seus detratores, amigos, família… todos. É visível durante a obra uma desconstrução de sua personalidade até sobrar nada mais do que algo, não alguém. O mesmo aconteceu com ‘monstro’ erudito do doutor Frankenstein. Foi o desprezo, o preconceito, generalização e discriminação que o transformou numa criatura cruel. Não é preciso morrer de amores por alguém que lhe escreve um ‘oi’ e você por educação lhe retribui com outro singelo ‘oi‘. Nunca soube de alguém que morresse por ser gentil, educado. Sejamos gentis nem que seja para dizer “gostaria que você não me escrevesse mais, ok?”. Acredite, isso soa mais ‘delicado’ do que o silêncio da indiferença. A multiplicidade aplicativos que nos conectam, carregam em seu DNA, como se projetados de fábrica, o recurso do desdém. É óbvio que não é uma boa ideia dar corda para aquele chato que a todo custo quer sair com você (Desfazer amizade e/ou bloquear são cortesias dos aplicativos). Mas pior ainda é silenciar diante das conexões virtuais. Estar conectado com todos é, ao mesmo tempo, não estar com ninguém. Não são poucos os que abdicam da vida social para viver atrás de um avatar que lhes garanta o anonimato. Ledo engano. Estamos todos mergulhados, alguns mais, outros menos, no lago da decisão alheia. Ele vai me responder? Ela vai me ligar? Poxa, não custa nada. E assim dependentes de palavras vindas do outro lado da tela permanecemos ansiosos e reféns da indiferença. É com pequenos gestos de atenção e respeito pelo outro que a sociedade muda. Se o desdém, a indiferença, a insensibilidade podem matar almas; gestos de educação podem revigorá-las. E isso vale mais que mil beijos.




Texto de Israel de Sá (Adaptado)

quinta-feira, 20 de outubro de 2016

Amava como vivia. Vivia com delicadeza a maior parte dos dias. Interrompidos de tempo em tempo por explosões intermitentes e súbitas de raiva, ciúmes e paixão. Suas emoções desdiziam seus atos e corrompiam sua lógica. Seu pensamento era claro e refinado, mas suas emoções eram densas, turbulentas e selvagens. Amava como vivia, na mais sagrada contradição. _______________________________ Andréa Beheregaray.

Quem tem alma que cabe jamais me interessou. Sou mandala de imprevistos, improváveis. Sou de possíveis. Não sei pisar em ovos. Minha melodia é livre e não cabe num único estilo musical. Moço, eu tenho asas por dentro, sabe? Já percebeu que vira e mexe, estou voando, na tua frente?Sou profunda e abrigo armários de mar, prontos para acalmar minha euforia dominical, se preciso. Troco esse carnaval tradicional por livros e dois dedos de vinho quase todo ano.  Minha pele tem pó de estrela e meu cabelo, estações. Não troco sono tranquilo por amores desarrumados. Mas confesso, que às vezes, eles são os mais bonitos. Meu vigor anda de havaianas, senta no chão, medita em campo aberto, procura vinis no sábado a noite, acontece na contramão das ondas fortes, avassaladoras. Sou desassossegada dentro de um vestido preto. Não gosto de brincos maiores do que minhas orelhas e sim, não sei varrer ansiedade para baixo do tapete. Vez por outra permito que a tristeza leve meu sorriso, pra variar a cara lavada de sempre. Uma casa chamada intuição. É meu coração. Alarga, absorve, expulsa, canta, contém e compõe, me põe em cima e embaixo, que é para relembrar a existência. Sobre doer nobremente, quem nunca? Sou carne e espírito, fiquem sabendo.
 
Andréa Beheregaray.

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Não sei para que servem essas singulares aulas de filosofia, se tudo o que realmente me interessa na vida é um bom recado na secretária eletrônica, uma carta, uma possibilidade...(Bruna Lombardi, Filmes proibidos, de 1990)


Eu só queria um pouquinho de carinho, será que é muito difícil? Uma atenção, um telefonema, uma correpondência, dá pra ser? Um pouquinho de companhia bastava, qual o problema? Sentimentos nasceram para serem sentidos, não para serem escondidos debaixo da dor.



— Verônica Heiss

terça-feira, 18 de outubro de 2016

O rio faz seu próprio caminho...

Quando eu era pequena, vivia na ponta dos pés espiando e desejando habitar no mundo dos adultos. Na minha incorrigível ideia, adultos sabiam das coisas. Inventavam outras. Então, cresci. Aprendi tudo dos adultos. Aprendi o que desejava e o que nunca quis. E repeti as lições. Adultos franzem a testa. Criam rugas. Andam apressados. Demoram sorrir. Trabalham o tempo todo. Compram muitas coisas. Guardam em armários. Possuem desejos estranhos. Fazem coisas contraditórias. Engordam. Ficam zangados. Adultos possuem problemas reais e imaginários. Tomam remédios sem parar e nunca melhoram. Adultos fazem regras e desobedecem as leis. Guardam dinheiro. Guardam mágoas. Conservam coisas, descartam pessoas. Adultos são cheios de dúvidas. Complicam a vida. Fazem perguntas e não encontram respostas. Adultos brigam por seus dilemas. Aventuram-se pelo conforto. Adultos desamparam quem precisa. Desatam laços. Fazem nós nas situações. Querem ultrapassar limites. Cometem loucuras sem motivos. Falam duramente. Ferem sem necessidade. Adultos perdem o juízo, a calma, a alma. Adultos colecionam medos. Competem inutilmente. Estudam fórmulas, teorias, conceitos, regras e nunca usam. Adultos ficam tristes por qualquer coisa. Preocupam-se a toa. Choram sem razão. Entopem-se de felicidade provisória. Desiludem-se. Não se entendem. Amam por obrigação. Esquecem por suposições. Machucam por ilusões. Passam adiante as responsabilidades. Esquecem das flores. Afugentam os pássaros. Resumem os carinhos. Dispensam a alegria. Com os adultos a folia é silenciosa, os palhaços ficam sérios e o circo dorme. Adultos escolhem pelos olhos e condenam pelo coração. São coisas que aprendi e quero esquecer.


Ita Portugal e Reni Procopio Florentino.


segunda-feira, 17 de outubro de 2016

"Não quero mais saber do lirismo que não é libertação."

Estou farto do lirismo comedido
Do lirismo bem comportado
Do lirismo funcionário público com livro de ponto expediente
protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.
Estou farto do lirismo que pára e vai averiguar no dicionário
o cunho vernáculo de um vocábulo.
Abaixo os puristas
Todas as palavras sobretudo os barbarismos universais
Todas as construções sobretudo as sintaxes de exceção
Todos os ritmos sobretudo os inumeráveis
Estou farto do lirismo namorador
Político
Raquítico
Sifilítico
De todo lirismo que capitula ao que quer que seja
fora de si mesmo
De resto não é lirismo
Será contabilidade tabela de co-senos secretário do amante
exemplar com cem modelos de cartas e as diferentes
maneiras de agradar às mulheres.
Quero antes o lirismo dos loucos
O lirismo dos bêbedos
O lirismo difícil e pungente dos bêbedos
O lirismo dos clowns de Shakespeare

Não quero mais saber de lirismo que não é libertação.


Manuel Bandeira





domingo, 16 de outubro de 2016

Vocês não sabem o que têm nas mãos. Tocam os seios sem saber que no meio bate um coração. Beijam bocas sem ouvir o que elas têm a dizer. Fixam os olhos sem perceber que por trás há uma mente inquieta. São milhares de pensamentos e sentimentos que pulsam e se confundem, vocês deviam fazer mais que apenas assistir. ______________________________ Veronica Heiss

Vai me perdoando...Não sei lidar...
Estão todos olhando a moça passar. Falam de seu corpo, comentam seu mistério, disputam sua atenção. Mas se a moça olha, mudam de assunto, se a moça pede ajuda, ninguém escuta e se quiser companhia - coitada da moça! - vai continuar só. É assunto na academia, atrai olhares no trabalho e quando sai de noite também. Mas ela dorme sozinha e tem um vazio no peito que ninguém tem vontade de ocupar. A Menina tem um coração pesado que ninguém quer carregar. Quem olha de longe não percebe e quem não se aproximar nunca vai saber: a Menina gosta livros e Bossa Nova, queria saber dançar. Tem preguiça de filme cult e vê pequenos detalhes onde os outros enxergam cotidiano. E, acima de tudo, está cansada de tanto assustar e afastar as pessoas. Cansada de esperar vidas se resolverem por uma promessa de futuro e ficar pra trás mais uma vez. Quem vai cuidar da Menina triste? Quem vai levar de prêmio seu amor? Quem tem coragem de assumir o desafio e o coração pesado? Apostem suas moedas, esperem o próximo capítulo. Enquanto isso, a Menina também espera...

Verônica Heiss

sábado, 15 de outubro de 2016

As pessoas têm que se permitir. Aprender o atraso, o olhar em volta. Mudar o caminho de todos os dias e se perder no seu próprio bairro. É o que tenho feito, me perder. E devo dizer que estou muito feliz por não encontrar o caminho de volta. ______________________________ Verônica Heiss

Vamos nos atrasar. Por causa da chuva, por causa da preguiça. Sem culpa. Tem um mundo todo de gente lá fora que pouco importa. O carro bem poderia ter quebrado, ninguém vai saber se a gente não contar. Vamos nos atrasar por querer mais de nós dois. Fica mais um pouco e me deixa fazer parte da sua história. Quero o seu dia-a-dia na minha rotina e seu colo pra dormir. Quero nossos assuntos em pauta e nossa falta fazendo companhia. Eu quero mais que solidão a dois e inseguranças tristes para preencher cotidiano. Mais que sorrisos inconvicentes e quase amizades convenientes. Eu quero menos. Menos pensamento, menos dúvida. Um equilíbrio e você de brinde. Vamos nos atrasar, deixar o mundo acontecer do outro lado da porta enquanto a gente discute desenhos animados na cozinha e faz comida para o jantar. Esqueça a música alta, esqueça as pessoas e seus cumprimentos tediosos, é sábado, deixa pra lá. Tudo o que a gente precisa está aqui. Tem eu, tem você, tem uma madrugada inteira de nós dois. E isso é tudo.



Verônica Heiss

sexta-feira, 14 de outubro de 2016

"Guardei umas palavrinhas secretas pra você, moço. São imensas de poesia são íntimas e delicadas (...) nuas intenções para que fiques e as minhas palavrinhas: despede-te das sombras. Tens agora um colo para sonhar." ___________________________ Dan Cezar

É uma característica tão feminina enxergar por trás das formas, que de vez em quando, perdidas nesse encantamento que independe completamente da aparência, somos colocadas mais longe do que gostaríamos dos homens que desejamos. Eles querem a 'pele'. Nós também. Mas para a mulher não há padrões, não há regras. O homem é desejado por um todo, e química pra nós tem outra dimensão. São as reações de um em relação às reações do outro, e essa “eletricidade” passa, inevitavelmente, pela ternura.Não é uma questão só de corpo, é também de cabeça. A pele é fugaz...o desejo é volátil...e mulher gosta mesmo é das eternidades.

(Solange Maia)

quarta-feira, 12 de outubro de 2016

Eu sei de você. Sempre soube. Mesmo antes. Com todos os defeitos e efeitos. Com seu sorriso indecifrável e olhar que não revela seus segredos. Sua voz de sons graves e suaves, quase um murmúrio. Um toque direto, sabendo a direção, sem atalhos. Sabia de você antes que chegasse. _________________________ D .A.

Amar é magnífico quando flui dos dois lados, quando não se tem dúvidas e isso se torna um padrão. Quando não vivemos isso, evidencia-se então uma busca incessante, um desnortear de sentimentos em detrimento a essa música tão melódica e sublime. Entre parênteses: Como não sou muito fã da unanimidade, valorizo as dúvidas. Procurar e/ou ser achado, esperar e/ou perceber ao redor, aceitar e/ou vê no que dá… Afinal, quais conceitos devemos abraçar? Amar é uma arte, e devemos ser artistas e não somente atores. O encontro do solo com o dueto. Vivendo como solistas, saberemos viver o dueto? A definição vem sempre acompanhada de perdas, talvez por isso interrogamos tanto. Evidencia-se que capacidade de amar é uma coisa, e capacidade de ser amado é outra. Então como fugir do amor? Todos amam, todos são amados: Conclusão de sentimento do poema. Cada ser tem sua forma de revezar seus papéis. Olhar para trás e extrair o valor de cada carta não lida, de cada beijo não dado, de cada dor não consolada, de cada eu não encontrado, é alcançar o botão que liga o sorriso de “satisfação” do amor, sua estratégia funciona. Thomas Merton, a quem tenho profunda admiração por sua vida e obra, escreveu que: “O amor não é uma questão de se obter o que se deseja. Muito pelo contrário. A insistência em sempre ter o que se deseja, em sempre obter satisfação, em sempre ser saciado, torna o amor impossível. Para amar, você precisa sair do berço, onde tudo é ‘obter’, e crescer para a maturidade da doação, sem se preocupar em obter alguma coisa especial em troca. O amor não é uma transação, é um sacrifício. Não é marketing, é uma forma de culto. Na realidade, o amor é uma força positiva, um poder espiritual transcendente. É, de fato, o poder criativo mais profundo na natureza humana. Enraizado nas riquezas biológicas de nossa herança, o amor floresce espiritualmente como liberdade e como resposta da criatura à vida num encontro perfeito com uma outra pessoa. É uma apreciação viva da vida como valor e como dom. Responde à fecundidade, à variedade e à total riqueza da própria experiência viva; ele ‘conhece’ o mistério interior da vida. Deleita-se com a vida como uma fortuna inesgotável. O amor aprecia essa fortuna de uma maneira impossível ao conhecimento. O amor tem a sua própria sabedoria, sua própria ciência, sua própria maneira de explorar as profundezas interiores da vida no mistério da pessoa amada. O amor sabe, compreende e satisfaz as exigências da vida, na medida em que responde com calor, abandono e entrega.” O amor é o sentido e é tão amplo… Só podemos escrever e falar pouco até; já viu mistério ser revelado por completo? Deus é mistério, Deus é amor. E já concordo com Rubem Alves quando diz que: “A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo”.



Jhônatas Cabral

 

terça-feira, 11 de outubro de 2016

"É curioso como uma palavra, um texto, uma música, um erro, uma mentira, uma verdade, uma pessoa, podem mudar o teu estado de espírito em apenas um segundo... e às vezes toda uma vida também" __________________________ D.A.

Lá está ela, mais uma vez. Não sei, não vou saber, não dá pra entender como ela não se cansa disso. Acredito que essa moça, no fundo gosta dessas coisas. De se apaixonar, de se jogar num rio onde ela não sabe se consegue nadar. Ela não desiste e leva bóias. E se ela se afogar, se recupera. A moça...ela muito amou, ama, amará, e muito se machuca também. Ela espera por alguém que venha lhe curar. As vezes esse alguém aparece, outras vezes, não. E pra ela? Por quem ela espera? E assim, aos poucos, ela se esquece dos golpes baixos que a vida lhe deu e lhe dará. A moça - que não era Capitu, mas também tem olhos de ressaca - levanta e segue em frente. Não por ser forte, e sim pelo contrário... por saber que é fraca o bastante para conseguir ter o melhor em seu coração, na sua alma, na sua essência. E ama, sabendo que vai chorar muitas vezes ainda.


-- Caio Fernando de Abreu.

domingo, 9 de outubro de 2016

"Dizem que toda dor passa. Eu não sei se acredito, para mim ela se agarra na pessoa e se torna parte dela." ______________________ Daniel Bovolento

Paixão é não saber onde começa você e termina o outro. Em qual parte daquele aconchego se perdeu a angústia que dilacerava a sua solidão. É quando a gente finalmente entende os motivos de tudo ter dado tão errado no dia de ontem e de todas as dores que nos prepararam para a chegada do amor. Amar é um estado de permanência. É aprender a ceder. A esquecer que existe ego, orgulho, superioridade e que nos transforma em seres humanos mais humildes. Capazes de aceitar e reconhecer falhas, de compreender os momentos do outro, de entender que, de fato, não somos obrigados a nada, mas o querer ficar é mais forte que tudo. Estar ao lado de alguém é um infinito de desapegos. De certezas, vontades, expectativas, de sonhos. A gente abandona velhos desejos para construir novos ainda mais mirabolantes. Adiciona-se um prato na mesa de jantar, um travesseiro na cama e uma interrogação no futuro. Paixão é se perder. Na saudade, na ansiedade, na demora das horas e no tempo. Abandonamos o juízo, o bom senso e o discernimento em prol daquele calorzinho que esquenta o peito quando fechamos os olhos para sonhar. Desistimos e nos rendemos no breve espaço do mesmo segundo. Eis o maior descompasso da vida: se relacionar. Justamente porque para nos orientarmos na nossa própria travessia precisamos viver o caos de uma vida a dois. O relógio precisa caminhar no ritmo de duas pessoas para que um único sentimento possa fazer sentido. E cedo ou tarde faz. Quando o turbilhão de sentimentos dentro da gente entra em harmonia, enfim o carrossel da vida em conjunto equilibra seu passeio. Amamos. Conhecemos o amor. Se relacionar é um aprendizado diário. Sobre nós, sobre o mundo, sobre alguém. Vai muito além do beijo na boca, do abraço apertado e da gargalhada no rosto. Envolve um encontro de almas que precisam evoluir. Transcender aquilo que entendem como verdade absoluta para conhecerem a realidade do que significa parceria. É dar as mãos, os pés, o corpo inteiro e ainda assim querer se doar mais. Uma entrega que não tem início, fim ou meio termo, ela simplesmente é. Dia após dia, segundo após segundo. Amar é viver o outro em sua imensidão e só então compreender um pouco sobre si. Encontrar-se em olhares alheios. Descabelada, desnuda, descalça. Humana.

Danielle Dayan

quinta-feira, 6 de outubro de 2016

Quem nos faz falta acerta o coração como um vento súbito que entra pela janela aberta. Não há escape. _________________________ (Caio Fernando Abreu)

Hoje choveu o dia inteiro. Fez um frio tão forte que foi de arrepiar os pelinhos do corpo. Não tive sequer coragem de tirar o pijama. Ainda estou jogado entre os cobertores quentinhos da cama, como se isso pudesse fazer o tempo fechado aqui do meu peito mudar. Como se o calor dos travesseiros pudessem simular o verão que se abre em meu sorriso sempre que você chega. A saudade tem revelado raios terríveis e trovões assustadores me despertam todas as noites, desde a última que te vi. E sim, eu sei, a distância, às vezes, é companheira dos apaixonados, mas não me peça para sentir pouco a sua falta. Não me pede para acostumar com as mensagens escassas por culpa da falta de sinal, de um tempo que oscila, que te tira de mim, que me rouba as tuas palavras que leio com o som da tua voz. Durante a rotina, os dias apertados, as horas que espremem a gente, sentimos a falta um do outro. E sempre que a vida para e os finais de semana e feriados chegam, que é quando eu tenho tempo para te ter só para mim, e você não está aqui, chove. E olha, não são todas as vezes que as gotas caem das nuvens. Muitas delas são de outras cacheiras. Duas que moram no topo de mim, ali, bem perto de onde fica o pensamento de você. Acho que deveriam votar um projeto de lei, sei lá, uma multa para todos os casais que se amam e precisam, por qualquer motivo que seja, conviver com a distância durante muito tempo. Mas não pense que esse tempo é tão grande assim. Vinte e quatro horas já seria o limite. Depois disso, amor, você teria a obrigação de aparecer de qualquer lugar, se materializar, só para a gente se amar. Até as horas voarem, até os minutos correrem, até os segundos me roubarem a respiração e você finalmente chegar, voltar e podermos outra vez nos encontrar, me sinto como um prisioneiro. Um encarcerado daqueles dos filmes, sabe? Fico marcando nas paredes do meu coração os quatro tracinhos de pé e um inclinado cortando os demais, numa contagem regressiva angustiante. A saudade de quem a gente ama sufoca. Sufoca tanto que a gente aperta desesperadamente os travesseiros, imaginando aquele alguém, aquele cheiro que transforma qualquer lugar em lar. Mas esse mesmo aroma é sempre o perfume que falta quando a saudade aperta… Por aqui, a chuva segue. Dentro e fora de mim. Mas por ora, só quero te dizer que li na previsão que o tempo está para abrir. Falta pouco para o sol do meu sorriso raiar e depois ser ofuscado pelo eclipse do nosso beijo. Não demora. O meu mundo te espera.


Matheus Rocha

terça-feira, 4 de outubro de 2016

...é sobre a tua ausência no lugar íngreme da minha pele... ________________________ Valter Hugo Mãe

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos. Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.


Guilherme Antunes

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

"Me encantei pelo vento, vivo de redemoinhos. Os meus segredos conto as aves na mudança das estações. Vivo sem testemunhas, como os cantos das paredes, como livros na estante, quadros de fotografia..." ________________________ Marcos Tavares.

Gasto minhas peraltices a fio. Um gosto de vida me saliva. Truques e traquinices me combinam da criança que um dia fui. Trago esse espírito de antes. Meu olho é vício de sorrir: toda querença é possível; toda possibilidade é significância de voo. Uma asa, uma boca de fazer silêncio e um par de sonhos e tenho um mundo. Estou com cacoete de amor.


Dan Cezar

sábado, 1 de outubro de 2016

Ainda existe! Sim: a cura. O amor é a candura que reaviva as dores obscuras. Há mal que amar não reconstrua? ______________________ Patty Vicensotti

Eu já fui raiva tentando me defender da vida. Eu já fui ira achando que esse era o melhor jeito de seguir em frente. Eu já fui tão bruta que acabei me despedaçando no caminho. Quando doía por dentro eu era raiva por fora. Por muito tempo confundi dor com raiva e raiva com força, mas percebi que raiva não tem nada a ver com força. Força é consistência, solidez. Força é aprender no silêncio o tempo das coisas. É apreender o silêncio das coisas perdidas no tempo. Força é não deixar a dor virar desamor por si mesmo. Força é isso que nos faz seguir em frente e nos mantém inteiros quando todo resto insiste em desmoronar. E isso não tem nada a ver com oferecer a outra face. Oferecer a outra face, muitas vezes, nada mais é do que dirigir a raiva para si mesmo. Eu não quero sentir mais raiva para seguir em frente, eu quero sentir amor. Já gastei muitos anos da minha vida perdida em sentimentos devastadores. Não tenho mais medo de sentir dor, tenho medo de não sentir amor! Eu quero amar mesmo que doa e se doer eu quero ter a coragem de amar outra vez e outra vez e outra vez e mais outra. A raiva é o resultado da dor que não pode ser transformada. A dor pode se tornar o combustível das mais belas mudanças, mas é só o amor que pode nos fazer verdadeiramente seguir em frente e o hoje amor é o único combustível que me interessa.