segunda-feira, 17 de novembro de 2014

"Mas quando as horas já são incertas, a noite acalma os corações frustrados. A perdição da alma e o desespero dos sonhos inquieta a mais sutil gota de suor que esfria a pele. A multidão é você mesmo e toda melancolia carece de calor." ___________________________ [Excerto sobre a neblina que ofusca a mente; Matheus Dalecio]

"Tão doce, tão cedo, tão já. 
Tudo de novo vira começo..."

Leminsk
Eu tenho uma bússola desordenada dentro do peito, que me guia e me faz ir além do infinito da palavra, para descobrir territórios ainda não explorados pelos seus inúmeros significados. Falo das minhas inquietações, porque delas, eu mesma sei. Falo de culpas e desculpas, sem culpa; e não preciso que me culpem ou me condenem por nada: eu trago a culpa em mim, ainda que ela não me reconheça como sua. Cultivo estranhezas e [pre]ocupações tão inúteis quanto nadar contra a minha própria correnteza emocional – o conflito é certo e o esforço desgastante. Mas, confesso que estou aprendendo a ser fluida; a não entortar um músculo sequer, medindo forças com os pesos que adornam a minha própria personalidade. É melhor saber de si, em silêncio, quando ninguém mais sabe. É melhor reconhecer seus avessos e dominar-se, antes que uma pessoa qualquer, assuma o comando e faça. Eu também cultivo pedras. Outro hábito estranho adquirido logo nos primeiros tropeços. Tropeçando eu descobri que a vida é uma enorme pedra que, por intuição, lapidamos todos os dias até transformá-la em arte. E por fruição, somos convencidos por ela, a experimentar doces sensações que insinuam aquilo que talvez seja a tal da felicidade. É preciso dizer que, às vezes, eu discordo da vida? A ideia é simples: felicidade não habita pedras e não se mistura às inflexibilidades – tudo que é rígido e inflexível demais não se predispõe às levezas. A felicidade é leve feito pluma; suave feito brisa. Mas, talvez isso seja só um parâmetro, que usamos inadvertidamente para mensurar e dignificar as nossas alegrias. Ou, talvez, seja só uma sensação que mora em instantes de entusiasmo, e só não passa despercebida, porque estamos sempre tentando segurar esses instantes, movidos pela crença quase inabalável de que, assim, seremos capazes de reter cada segundo da felicidade. Se a vida é pedra, a felicidade é líquida. E escorre entre os dedos, logo na primeira tentativa. Pois é… além de cultivar pedras, eu falo de discordâncias. E quase sempre discordo de verdades incontestáveis, ainda que por razões extemporâneas, eu possa concordar depois. A concordância imediata tem a ver com essa coisa de aprender a ser fluida. E a discordância é porque, algumas vezes, eu também sou pedra: dura, rígida e inflexível, assim como a vida. Eu falo de tudo. Falo das coisas que sobram, que viram excesso em mim. Das que me norteiam e me desnorteiam, por algum motivo. Falo dos elementos que compõem a vida, e me deixam comprometida com o tempo. Eu falo do tempo, também. O tempo que dribla a sua própria inexorabilidade, quando releva e refaz. Eu falo das coisas que continuam, enquanto eu, pequena demais para a imensidão do mundo, paraliso. Ou grande demais para caber em um único sentimento, transbordo. Eu falo por hábito, ainda que não tenha nada de tão significativo assim para dizer. E escrevo por insistência, porque não aprendi calar o verbo; dobrar sentimentos; [a]guardar sonhos. Evito pesos, além do meu próprio peso. E quando peso demais e me afogo nos meus medos, eu me desafogo é no riso. Sim, eu sou feita de inquietações. Sou um ponto de interrogação bem no meio da dúvida. E se voo por aí, incerta, é por que preciso das certezas para poder pousar e ficar.