domingo, 30 de outubro de 2016

O obvio é a verdade mais difícil de se enxergar. _______________________ Clarice Lispector

Por que é que a gente se abandona? O que fica quando viramos a página? O que acontece dos nossos pedaços deixados para trás? Mesmo quando a rotina não me toma, eu me ocupo. Assisto um filme, leio um livro. Fico pra depois. Eu saio de casa, eu compro algo que não preciso. Mais tarde eu penso, mais tarde eu me ouço. Por dentro algo ferve, cresce, borbulha. E eu devolvo pra dentro e guardo lá no fundo e aperto F5 nas redes sociais. Sempre esperando aquele sinal de que uma mudança grande está chegando. E o que eu fiz das mudanças que já vieram? Os hojes que eu atropelei em busca de um amanhã? Os futuros esquecidos no presente? Quando é que a gente para de correr e percebe que chegou lá?

Verônica Heiss

sexta-feira, 28 de outubro de 2016

Aí ele chega, provoca o caos nos seus sentidos, causa uma bagunça, você não sabe como se sentir, porque tudo é intenso, ele te faz sorrir da mesma forma que lhe faz chorar. E acha ruim quando você não consegue discernir se é bom ou ruim tudo o que ele desperta em você. ________________________ Ana Paula Leite


Escolha a menina que você sente falta depois que a festa acabar. A que você tem vontade de dormir de conchinha e sinta dó de tirar o braço dormente debaixo dela. Escolha a menina que você gosta de conversar até de madrugada, que faz você sorrir com uma simples mensagem e que se emociona com a sua declaração de amor. A que adora ficar te olhando dirigir e que sente orgulho de estar no banco do passageiro, independente do carro que você tenha. Escolha a menina que discorda de você, que tem manias e opiniões próprias, que admite preferir outro restaurante e que assume não gostar de Senhor dos Anéis mesmo sabendo que você é fã. Porém, respeita suas particularidades, apoia suas decisões e enxerga o mundo de um jeito que combina com a sua maneira de ver a vida. Escolha a menina que tem o olhar mais sexy do que a saia ou o decote que usa. A que toda vez que você olha está ainda mais linda do que antes e que torne difícil a despedida no fim da noite. Escolha a menina que você acha linda de pijama e que não precisa de lingeries caras pra ser a mais sexy do mundo pra você. A que rouba a sua coberta no meio da noite e que ao acordar com frio e descoberto, você olhe para egoísta ali toda aquecida e sinta vontade de cuidar para sempre. Escolha a menina que te surpreende nas pequenas coisas, que faz com que a união dos seus corpos aqueça a alma. A que consegue diferenciar os momentos de doçura dos de total entrega física, que te manda mensagens fofas e outras só para aquecê-lo até o encontro de mais tarde, mas gosta mesmo é de falar baixinho ao pé do ouvido. Escolha a menina com quem você tem músicas junto e, principalmente, te faz começar a entender o sentido de várias outras que tocam na rádio. A menina que se esforça pra te dar um presente criativo no Dia dos Namorados, não o presente mais caro, mas o mais significativo. Escolha a menina que te aceita do jeito que você é, com qualidades e defeitos, sem idealizações hollywoodianas. A que enxerga você além do que o resto do mundo pode ver e que você soma em vez de tentar te completar um cara que já nasceu inteiro. Escolha a menina que é a primeira que você pensa em falar quando tudo dá errado e quando tudo dá certo, a que você corre contar sobre a demissão e sobre o novo emprego. Aquela menina que é a melhor companhia e a melhor companheira, que te acompanha na festa chique do sábado e no programa de índio do domingo. Escolha a menina que tem um milhão de defeitos, que às vezes é chata, teimosa e difícil, entretanto, sabe pedir desculpas, reconhecer o erro e que tem incontáveis qualidades que a tornam extraordinária. Escolha a menina que te mostra que dividir a pipoca, a cama, o doce, o cobertor, o guarda chuva e todo resto só multiplica a felicidade. Escolha a menina que sabe que só amor não é suficiente, que te impulsione pra frente e te jogue ao mundo porque sabe que vocês conseguem dar um jeito depois. A que compreende que brigas em excesso é coisa de criança, desgastam qualquer relação e que diálogo e confiança são aquelas coisinhas que fazem o amor durar. Escolha a menina que te faz entender que todas essas afirmações clichês fazem o maior sentido e são poucas para descrevê-la. A menina que você, após ler esse texto, sentirá vontade e marcar o nome nos comentários… A menina foi escolhida, mas stambém escolheu estar ao seu lado.

● Jéssica Delalana

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Deve existir algo estranhamente sagrado no sal: está em nossas lágrimas e no mar... __________________________ Khalil Gibran

Arquivo Pessoal
'não vos esqueçais que a terra ama sentir os vossos pés descalços. Não vos esqueçais que ao vento agrada jogar com os vossos cabelos.'


Khalil Gibran – 
Sobre a simplicidade

quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Olha bem para as flores, menina. Escuta: elas não deixam de ser flores quando vais embora. É da essência delas: Perfumar campos e encrespar os cabelos das amantes. Tal qual o teu cerne de fazer o bem e pintar mundos no mundo, a cor. A flor nasceu para ser flor. A síntese colossal da tua existência. _____________________________ Abraão Vitoriano

O tempo não volta, moço. Ainda que regresse por rotas que um dia passou, as pessoas não estarão paradas no mesmo lugar. As situações serão outras. Outros mistérios, novos anseios. Entreguei em tuas mãos a chave. Desafiei os espaços, a noção do certo e errado, ignorei conselhos amigos. Escolhestes o discurso, a cobrança, as homéricas cenas. Enquanto fixavas teu olhar no deserto, no vento cálido, nas ancestrais desculpas. Eu mirava onde o vento fazia a curva, onde nasceu a primeira gota. O tempo não volta, moço. Levantei da calçada, troquei as janelas, cortei o cabelo, aprendi a respirar fundo, preferi estar acordada. Outros mistérios, novos anseios. O vento, o tempo te levou para o lugar que tu escolhestes. Quanto a mim, optei por ser nuvem e pé no chão.


Abraão Vitoriano

segunda-feira, 24 de outubro de 2016

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos actos, não pelas palavras. Ela me perfumava e me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar " _________________________________ Antoine de Saint-Exupéry Do livro "O Pequeno Príncipe"


Tudo passa? Talvez não. Talvez esta seja uma visão inflexível demais sobre a transitoriedade da vida. Um amor não se faz eterno pelas lembranças? As mais duras mágoas não se transformam em sabedorias? Quantas paixões não mudam e ainda assim permanecem inteiras, no mais perfeito companheirismo? Essa efemeridade total parece dura demais, até mesmo para o meu típico realismo. Desumana demais. Eu prefiro acreditar em alguns eternos. Alguns, somente. Porque ainda assim algo é certo. Nem tudo fica. Não importa o quanto nos fazemos presentes. Não importa o quanto nos apegamos até mesmo à dor. Algumas coisas simplesmente não permanecem. Mágoas ou alegrias. Os desejos de dividir uma vida ou as óbvias ausências disfarçadas de liberdade. Então, eu tenho me permitido ser mais flexível. Não apenas para a ideia de que certas coisas não passam. Mas também para enxergar tudo o que não fica. 

Matheus Jacob

"Vento, "Paris foi feita pra ti." ________________________ Mel

Eu vou. Com a minha caixa de histórias e meu rímel borrado. Já esfreguei meus olhos pra ver e intimei os ouvidos a ouvir. Escuta: é o vento que canta. Ando desacelerada e me convém. Preciso de mais tempo. De mais ar e de mais flores. Castelos em Paris? Quem sabe. Eu vou. Essa caixa de histórias pode se abrir, cair a qualquer momento não vão. E eu, então, precisarei iluminar o céu, para dizer do que vivi. [olhos estrelando. anote aí]

Érica de Paula

domingo, 23 de outubro de 2016

Eu amo ler pessoas. Mas, ultimamente, não tem sido interessante. Deixo-as na estante, pois cansei de chorar nos finais. ___________________________ Noemi Prates.

Nunca antes a indiferença, maquiada pela tecnologia, ‘destruiu’ tantas expectativas como atualmente. Não é o ‘ódio’ pelo outro que desmonta seu sorriso tão duramente costurado. Não é a ofensa que apaga do coração a centelha de uma afinidade qualquer. O que entristece a alma, aquilo que pode afogar os sentimentos mais básicos de um coração, chama-se indiferença. A indiferença é arte do desdém. Quem pratica a indiferença possui uma veia artística. Esse tipo de pessoa costuma pintar em matizes opacas no rosto do desdenhado a palavra ‘desumanidade’. Pois o que seria a indiferença senão a desconstrução da humanidade? Quem pratica a indiferença – ‘te respondo quando me der na telha e olhe lá’ – faz do outro qualquer coisa, menos ser humano. Ignorar aquele que nos escreveu uma mensagem, que deixou um recado na caixa postal do telefone ou que nos enviou um ‘olá’ pelas redes sociais é desrespeitoso. Quem já leu Franz Kafka sabe o que é ver a indiferença tomar ares épicos. Tomo como exemplo ‘O Processo’. Na obra, um homem é processado sem saber o porquê procura entender o crime que cometeu sem ter cometido crime algum. Ele recebe menosprezo de seus detratores, amigos, família… todos. É visível durante a obra uma desconstrução de sua personalidade até sobrar nada mais do que algo, não alguém. O mesmo aconteceu com ‘monstro’ erudito do doutor Frankenstein. Foi o desprezo, o preconceito, generalização e discriminação que o transformou numa criatura cruel. Não é preciso morrer de amores por alguém que lhe escreve um ‘oi’ e você por educação lhe retribui com outro singelo ‘oi‘. Nunca soube de alguém que morresse por ser gentil, educado. Sejamos gentis nem que seja para dizer “gostaria que você não me escrevesse mais, ok?”. Acredite, isso soa mais ‘delicado’ do que o silêncio da indiferença. A multiplicidade aplicativos que nos conectam, carregam em seu DNA, como se projetados de fábrica, o recurso do desdém. É óbvio que não é uma boa ideia dar corda para aquele chato que a todo custo quer sair com você (Desfazer amizade e/ou bloquear são cortesias dos aplicativos). Mas pior ainda é silenciar diante das conexões virtuais. Estar conectado com todos é, ao mesmo tempo, não estar com ninguém. Não são poucos os que abdicam da vida social para viver atrás de um avatar que lhes garanta o anonimato. Ledo engano. Estamos todos mergulhados, alguns mais, outros menos, no lago da decisão alheia. Ele vai me responder? Ela vai me ligar? Poxa, não custa nada. E assim dependentes de palavras vindas do outro lado da tela permanecemos ansiosos e reféns da indiferença. É com pequenos gestos de atenção e respeito pelo outro que a sociedade muda. Se o desdém, a indiferença, a insensibilidade podem matar almas; gestos de educação podem revigorá-las. E isso vale mais que mil beijos.




Texto de Israel de Sá (Adaptado)