sábado, 5 de setembro de 2015

"Porque tudo em mim ama tudo em você." _________________________ John Legend

Depois da chuva, 
flores fortes 
voltam ainda mais coloridas.

— Floricitar
-Moço, será que ainda tem chance? Será que ainda tem remédio? -Eita, menina teimosa! -Moço, acho que gosto d'ele, gosto do jeito sem jeito, gosto do sorriso tortinho que ele faz quando me vê, da conversa com vários sentidos, o carinho que ele faz em mim. É, eu acho que gosto. -Cê acha? Menina, cê sabe que se apaixonar é insano. Vai machucar o coração de pequena moça. -Eu arrisco se preciso for, se ele me quiser eu pulo nesse mar, mesmo que seja maré. Sem ele eu não fico. Tá doído, meu peito sinto estalar. -Esse rapaz ainda não enxergou o brilho que carregas dentro de ti. Ele ainda está cego, perto de tal sensibilidade de flor. Tu és menina que palpita, salta e canta. Tu és noite, és sol que aquece.

— Floricitar

quarta-feira, 2 de setembro de 2015

"Quando a gente começa a se perguntar: para quê? Então as coisas não vão bem. E eu estou me perguntando para quê. Mas bem sei que é apenas 'por enquanto'. _______________________ Clarice Lispector

Quero acolher a calmaria como um afago da paz
 e me permitir um recolhimento que 
não se pode publicar, 
pois é um descanso. 

Marla de Queiroz
Não me pergunte muito o que eu quero da vida. Sim, quero amar e, quem sabe, me entregar, mas não me peça para ser decidida quando o assunto for, exatamente, decidir. Se pedires para eu decidir entre azul e verde, sumo. É muito para a minha cabeça. Se quiseres que eu escolha entre Veneza ou Paris, ficamos por aqui mesmo. Gosto tanto dos dois. Se houver necessidade de decidir entre as minhas comidas prediletas, demorarei horas. Fico com medo de errar a escolha. Não me faça escolher, só me leve junto… Não me dê opções, me dê beijos. Me dê margem para sonhar. Me dê certezas que as faço paisagem. Nasci para aquarelar as certezas que existem, não para criá-las. Façam e criem as certezas por aí, mas, deixem que eu as coloco cor e vida… Certezas são monocromáticas, dúvidas são coloridas. Às vezes, sei muito bem o que eu quero. Mas, no cantinho pensativo da minha cabeça, acho que deveria fazer outra coisa. Medo da vida realmente ser só isso? Medo da vida ser tudo isso e muito mais? Não sei… Ser indecisa é isso. É não ter nada destinado. É ser para-raio das possibilidades do mundo. É achar que o mundo é muito mais do que essas certezas do nosso mundinho; volta e meia tão pequeno, tão mesquinho…A verdade é que não sei o que fazer comigo. Mas, também, não aprisiono ninguém no meu mundo de incertezas. Pois, como levarei alguém comigo, se nem sei para onde quero ir? Seria muito egoísmo da minha parte… É, ando meio indecisa comigo, mas certa de que, a indecisão só é saudável, quando ela só machuca a gente.


Frederico Elboni - Adaptado 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

"Se fantasiava enchendo o tempo. Mas lhe faltava o acontecer da vida... Afinal, todos queremos no peito o nó de um outro peito, o devolver da metade que perdemos ao nascer." ________________________ Mia Couto.

Da vida não se espera resposta.

Orides Fontela
Sei o quanto custa os pileques de solidão, por isso volta e meia eu tenho vontades. Acontece esses repentes. Essa vontade de ser intimidada ficar vermelha de tanto ser olhada, sem enigmas, sem rodeios e ser convidada para algo bonito. Vontade de abrir a porta e dar de cara com o olhar certeiro e maroto de quem congela minhas ações. E no mesmo instante desfazer minhas malas como quem quer ficar para sempre no mesmo canto, no mesmo quarto sentindo o cheiro nas cobertas. Ver estrelas despreocupada, sonhando e deixar o vento noturno desalinhar o meu cabelo. Ser salva de mim mesma.Não posso negar o desejo imenso de desabitar o silêncio para ouvir uma voz me chamando de um nome charmoso qualquer. Misturar o gole de vinho com a saliva quente, sentir o frescor do generoso abraço, ficar nessa malemolência afetiva,enroscada nos desejos e ao cair da tarde, perceber que ainda é cedo para a vida la fora. Faz sol aqui dentro. 


sexta-feira, 28 de agosto de 2015

“Se meus olhos mostrassem a minha alma, todos, ao me verem sorrir, chorariam comigo.” _________________________ Kurt Cobain.



E mesmo sem entender, 

eu sinto, aceito e agradeço.

Nessa ordem.


Bibiana Benites
De vez em quando, alguns acontecimentos tendem a retornar e despertar dores. Talvez seja por isso que nunca os revisitamos. Lembrei-me aqui de uma citação de Tolstoy: “Eu queria movimento e não um curso calmo de existência. Queria excitação e perigo e a chance de me sacrificar por meu amor. Sentia em mim uma superabundância de energia que não encontrava segurança em nossa vida tranquila”. Há dores que precisam da nossa atenção. E por mais que a “dor doída” esteja presente no caminhar diário, há sempre sinais vermelhos nos aconselhando a ameaça do acidente. Propositei tantos sonhos que até esqueci-me de escrever e hoje se perderam nos sinuosos rios dos meus pensamentos. “Você está feliz?” é a constante pergunta que as pessoas me fazem. E elas sempre esperam que meus olhos brilhem e que minha boca profira: “Sim, estou!”. Até porque, quem ama quer ver a felicidade impressa no semblante do amado. Se eu contestar apenas com um “sim”, não terei razões suficientes para legitimá-lo. Sobre isso tive um insight e lembrei-me da canção Giz do Renato Russo: “Pra ser honesto sou um pouquinho infeliz!”. Por isso, todas as vezes que me indagam sobre minha felicidade, permito que um silêncio inunde e reverbere em meu ser. Só depois arremato: “sou uma eterna construtora da minha felicidade”. Adélia Prado já dizia: “Não quero pão, eu quero é fome”. Deus me livre do aprazimento que mata meus desejos! Que as dores dos meus dissabores me arrastem, instigue meus afetos a buscar o meu íntimo desejo: a busca pela essência da minha existência e da minha felicidade. É por isso que aqueles que tiverem a gentileza e a paciência de passear pelas minhas palavras buriladas e desfrutar dos meus rabiscos se tornarão cúmplices dos meus propósitos. Mas nada disso me impede de ser errante, transgressora, experienciadora de fracassos. Até que eu não descubra os enigmas dos caminhos que percorro, olhando em cada ato um significado maior, deixando que as dores me reencontrem continuarei a afirmar e cantar: Pra ser honesta sou um pouquinho infeliz!

Igor Pereira- Adaptado

quinta-feira, 27 de agosto de 2015

"Se nada nos salva da morte, pelo menos que o amor nos salve da vida"... ________________________ Pablo Neruda

"Paz aos olhos que me olham, e
risos aos corações que me acompanham."

Sirley Passolongo

Pois a vida é uma experiência dura, muitas vezes confusa, incompreensível e incerta; e reconhecer um abrigo no meio de tanta inquietude é acolher o tempo da clareza, em que tudo passa a ser suprido de sentido. Alguns amores nos salvam da vida. Por resgatarem quem somos depois que partes de nós mesmos são deixadas pelo caminho. Por fazerem de nossas cicatrizes parte de suas estruturas também. Por acolherem nossa história com delicadeza, transformando o que era imperfeito numa nova possibilidade. Por permitirem o encontro com a esperança, o cortejo com a fé. Por dividirem as angústias do existir, permitindo que nossos fantasmas sejam lapidados, nunca enterrados. O amor nos torna vulneráveis. Ainda assim, percebemos sua urgência quando compreendemos que a vida é uma faísca, um piscar de olhos entre o nascente e o poente de nós mesmos. Como diz a canção, "a vida tem sons que pra gente ouvir precisa aprender a começar de novo..." E descobrimos que começar de novo não significa retroceder, mas entender que não haverá mais de nós em cada esquina ou aeroporto. Que não há outro tempo em que estaremos juntos além do tempo presente que se descortina diariamente. Que não seremos melhores ou maiores além do que podemos ser nessas horas em que vivemos e permanecemos lado a lado. De vez em quando torna-se necessário fazer o caminho de volta para que o amor nos reconheça também. Desistir das corridas, dar trégua aos projetos 'imprescindíveis' , abandonar rotinas desgastadas pelo tempo, apaziguar o contrato com a pressa. Resgatar os laços, valorizar os momentos, perceber-se merecedor daquilo que não se toca nem se vê. Arriscar a travessia, suportar os desvios do percurso, desistir de antigas rotas, aplacar a saudade do que ainda está lá. O tempo leva embora de diversas maneiras, enquanto a vida traz sem grande alarde. Que haja lucidez. Lucidez para enxergar os presentes que recebemos e poucas vezes enxergamos. Lucidez para valorizar o que nos pertence de fato. Lucidez para aceitar o fim de um tempo e o começo de outro, diferente, mas nem por isso pior. Lucidez para acolher o que é verdadeiro, real e provido de sentido. Lucidez para amar e ser amado. Lucidez para finalmente permitir que o amor nos salve da vida...


Fabíola Simões

terça-feira, 25 de agosto de 2015

Pediste ao céu para que viesse rosa sem qualquer espinho. Não há rosas sem espinhos, amor. Serias então outra que não eu? E a primavera, entristecida, porque outra que não tua? ________________________ Guilherme Antunes

Segue então moça, firme, agarrada à sua fé.
E se eu for embora por instantes, seu gesto será de tristeza? Se eu for embora por instantes, não devolverei o afeto que até então me foi ofertado. Se eu for embora, prometa deixar a porta fechada para eu não titubear. E se for à tardinha, espero que o sol, em um ato de solidariedade, desbote no horizonte. Quero sair apressada, para não dar tempo às lembranças e fingir que tudo evaporou da memória. Não irei esfuziante e nem alardearei os motivos, aliás a única coisa acalentadora é que foi bom. Tivemos dias generosos, todavia mergulhamos em aflições. Nunca fomos proprietários de tranquilidade. Se eu for embora, irei lembrar das promessas de tonalidade que sentenciavam um horizonte feliz. Quando eu sair, será de uma forma despojada, sem contudo parecer livre. Farei apenas para não esgarçar a guardada felicidade. A propósito, o que será de mim quando sair? Continuarei com a habitual descompostura que me mantém viva. Nunca adiei a felicidade. Sei que ela foi decorrente das porções generosas da convivência, que um dia esqueceu de prosseguir a estrada colorida de girassóis. Então, nada mais se junta ou acumula. Não há investimentos dentro do peito. Sairei sem ruído. E se eu decidir ir, colecionarei coragem para chorar, lavando a alma, retirando o pó infinitas vezes ou até que se feche a ferida, cerzida de boas recordações. Finalmente batizarei essa vivência de um amanhecer para a vida.

segunda-feira, 24 de agosto de 2015

"Tenho me preocupado muito com o tempo. Quanto mais ele passa, mais ainda ele passa, e com ele, passo eu, passa tu, e onde ficamos nós? Estamos retidos. Detidos no coração egoísta das nossas fraquezas..." _________________________ (Be Lins)

Meu sentir é muito antigo pra toda
 essa modernidade que grita desapego


Nina Benavídez
Ao entardecer a vida se sublima, se entorpece, faz do pensamento um voo e vai. Ao entardecer o sentimento aflora, o coração reencontra sua feição amorosa, a mente busca uma asa qualquer e vai. Ao entardecer o vento vem trazendo canção, o olhar avista outonos e primaveras, a boca pede um cálice de vinho e o passo sobe na nuvem e vai. Ao entardecer avista-se a revoada, o barco que retorna ao cais, as ondas que chegam nervosas, as pedras que se molham afoitas e a gaivota que sai do ninho do sentimento e vai. Ao entardecer tudo é poesia, um bilhete de amor, uma carta saudosa, uma palavra não dita que se repete na voz e uma interrogação que estende seus braços e vai. Ao entardecer os coqueirais balouçam sua solidão, as conchas da areia contam seus últimos segredos, as águas avançam apagando passos e levando consigo a flor dolorosa deixada ao desvão. E tudo sai do ser e vai. Vai em busca de viver, de acontecer, de ser menos dor, ser menos tristeza, ser menos agonia. Vai sonhar um sonho de realização, de possibilidade, de fuga. Lá em cima um sol se pondo, lá no horizonte uma tela pintada com feição e olhar. E da janela, diante a vida que se estende lá fora, apenas a solidão que grita e não vai. Não vai embora porque precisa ser solidão de reencontro, de lembrança, de saudade, de nostalgia. Até que o amor chame o ser à felicidade e ele vá.


Rangel Alves da Costa