quarta-feira, 22 de abril de 2015

"De vez em quando, minto pra vida. Finjo não estar esperando mais nada, não acreditar em mais nada. Minto só para que ela me dê como castigo tudo que eu finjo não mais acreditar. " ______________________________________ Camila Lourenço


Boa noite!
Eu sou um relógio quebrado. Um relógio atrasado querendo sempre correr contra o tempo, antecipar as horas e etiquetar de urgente alguns retratos dos anos. Meu passo está sempre atrasado ou antecipado demais. Eu amo quando não deveria amar, e desgosto quando o presente se faz gostar. O encanto que me vai nos olhos se esvai pelas mãos se o ponteiro do relógio da vida insiste em se atrasar com o meu. Eu engulo pessoas, vomito ansiedades e durmo na solidão. Eu sou um relógio quebrado, que aprendeu ser tic-tac entre o espaço do tempo do que quero e do que é. Um contador de horas que para confiar no tempo, precisou desaprender contar. Eu ando na velocidade da rotação do planeta, e respiro na apatia dos que odeiam esperar as voltas que o mundo dá, mas que sabem que para o compasso da vida acertar a valsa, não há outra solução. Se eu quero agora, só quererão quando a pressa do torpor se fizer adormecer. Se a fome bate a porta uma hora da tarde, a comida só chega as três. Se eu quero pra ontem, chegam depois de amanhã. Se é pra agora, o tempo sempre espera adormecer a pressa da paixão. Eu sou um relógio quebrado pendurado na parede do tempo, que aprendeu confiar nos gostos que a fração dos segundos não controlados dão para a estação. Sou um relógio quebrado que quer tudo no compasso do desejo. mas que já desistiu de conter ou antecipar as horas, ou o tempo, e agora só murmura uma prece para a hora da vida sincronizar-se com o desejo do meu ponteiro quebrado. Eu sou um relógio que precisou desaprender contar para aprender a confiar.

Camila Lourenço

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