Daqui, ando com um choro pouco religioso. Meu choro é calado, mora apertado no peito. Tem momentos que eu o sinto revirando-se desajeitado, procurando um lugar mais confortável para ficar. Porém não escorre. É choro acrobata, conhece a complexidade da vida, contorce-se, mas não fica onde deveria estar e não encontra o caminho do rio onde as lágrimas vão de encontro ao sol. Somos amigos antigos e ele se lembra de cada dia em que a vida o fez pulsar e aumentar seu volume. Ele é sensível, é poeta que rima dentro de mim. Às vezes luto para que ele se vá, encontre as portas do olhar que lhe abrirão horizontes, mas meu choro é confuso, teme o abismo da liberdade que a expressão do sentimento proporciona. Ah, choro carente, não percebe que sua gota é semente, que seu sal é força e que sua queda pode ser voo? Mas hei de me programar e guia de um choro perdido serei. E chorarei. Por três dias e três noites em tempestade e calmaria. Até que a pressão termine, até que o coração se acalme, até que a vida se lembre que ser sensível para fora também é uma opção. Um dia desses, ainda viro mar.
segunda-feira, 9 de maio de 2016
sexta-feira, 6 de maio de 2016
A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. _____________________________________
Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem
ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao
aeroporto carregando o colchão para ser despachado? As perguntas são muitas… E se eu tiver vontade de ouvir aquela
música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a
primeira vez? Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e
vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então,
inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu
pra nada. É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de
sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o
mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a
mensurar o valor do mundo que nos pertence. E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir.
Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos
para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços
deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam
quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue
sendo. Ao ver o mundo que não é meu, eu me reencontro com desejo de amar
ainda mais o meu território. É consequência natural que faz o coração
querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou. É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro. Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos
retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na
direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não
pertencem ao contexto de nossas lamúrias… Hospitais, asilos, internatos Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar. Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve
muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o
território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar
de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles
não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se
leve.
Fonte: Portal Raizes
É preciso ter a dor de sentir que a vida não tem roteiro. Na vida não existe nada seguro. Quem gosta de abismos tem que ter asas. ______________________ Antônio Abujamra.
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| - Quer um conselho? - Hum. - Esquece o chão. Pedro Antônio de Oliveira. |
Guilherme Antunes
quarta-feira, 4 de maio de 2016
"De tudo que ela poderia ser, escolheu ser poesia." — Érica C.
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| "Tem algo solitário nela." — The Vampire Diaries |
Be Lins
sábado, 30 de abril de 2016
"Meu pensamento é poético. Recusa-se a andar em linha reta. Dança. Deleita-se em analogias.” _________________________ (Rubem Alves, Por uma educação romântica, p. 47).
Consta nos astros, nos signos, nos búzios. Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz. Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas. Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais. Serás o meu amor, serás a minha paz. Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar. Mas se o destino insistir em nos separar. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas. Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos. Profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz. Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela. Está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz. Serás o meu amor, serás a minha paz...
[Chico Buarque]
quinta-feira, 28 de abril de 2016
"Eu só quero uma vida normal. Nem leve, nem pesada demais, apenas do tamanho da força de meus ombros." ___________________________ Ita Portugal
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| Sensibilidade sempre foi o seu forte. Por isso, ela sofre. Noemi Prates |
Viver demora. Apenas o restante passa rápido. A tristeza, o trajeto do rio, a transgressão da mágoa e o furor do desafeto. Viver é devagar e enquanto isso deposita a tua alma no silêncio. Colhe e acolhe a dor do teu dia. Ajeita o fértil terreno e desobstrui as intenções fadadas a morte. Dá tempo. A vida passa devagar, portanto não morra de véspera sem ter dito tudo o que for possível. Escuta teu silêncio e fale, mesmo sem fluidez. A vida, que tantos cantam, interpretam e dançam, caminha a passos largos e vai fertilizando o terreno tanto para as descomposturas afetivas, quanto para as dores repentinas e sem explicação. Qual a razão de tanta pressa? Serão necessários os atropelos? A vida segue seu ritmo sem nenhuma engenhosidade. Demore-se também para que possa encontrar uma vaga disponível e aproveitar a viagem ao lado da janela. Viver demora, então não resuma seus desejos. Honre o seu tempo e o tempo que a vida lhe dá. Poupe-se do desespero e console os seus dias. Viver demora um pouco mais que sua ansiedade. Traduza-se. Repita-se. Se não der certo, liberte-se dos melindres e contrarie a lógica.
Ita Portugal
quarta-feira, 27 de abril de 2016
Resisti ao tempo, às duvidas. Depois vieram as certezas que não pedi. Eu só queria acreditar no amor. E, graças, eu acredito. O amor é motivo. _________________________ Dan Cezar
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"Não há dias,
sem perdas,
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Caminhamos em círculos, pegamos atalhos, pulamos degraus, corremos contra o tempo, ficamos em cima do muro. Preparamos resposta, ensaiamos sorrisos, combinamos roupas e intenções, encaixamos nossos sonhos em planos e os planos na nossa falta de tempo, ou de dinheiro. Vendemos as horas do dia para comprar as horas da noite. Envenenamos o corpo e queremos libertar a alma. Por hábito, cultivamos medos e mornos tons de cinza. Nos apegamos aos detalhes e perdemos o principal. De inúmeros jeitos nos poupamos e nos desperdiçamos, conforme doces ilusões ou as cruas verdades que carregamos.
Até o amor em nós chegar...
Guilherme Antunes
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