segunda-feira, 9 de maio de 2016

“Há uma santidade nas lágrimas. Não são marca de fraqueza, mas de força. São mensageiras da dor incontrolável e de amor indescritível.” ______________________________ Washington Irving

Daqui, ando com um choro pouco religioso. Meu choro é calado, mora apertado no peito. Tem momentos que eu o sinto revirando-se desajeitado, procurando um lugar mais confortável para ficar. Porém não escorre. É choro acrobata, conhece a complexidade da vida, contorce-se, mas não fica onde deveria estar e não encontra o caminho do rio onde as lágrimas vão de encontro ao sol. Somos amigos antigos e ele se lembra de cada dia em que a vida o fez pulsar e aumentar seu volume. Ele é sensível, é poeta que rima dentro de mim. Às vezes luto para que ele se vá, encontre as portas do olhar que lhe abrirão horizontes, mas meu choro é confuso, teme o abismo da liberdade que a expressão do sentimento proporciona. Ah, choro carente, não percebe que sua gota é semente, que seu sal é força e que sua queda pode ser voo? Mas hei de me programar e guia de um choro perdido serei. E chorarei. Por três dias e três noites em tempestade e calmaria. Até que a pressão termine, até que o coração se acalme, até que a vida se lembre que ser sensível para fora também é uma opção. Um dia desses, ainda viro mar.


Josie Conti


sexta-feira, 6 de maio de 2016

A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. _____________________________________

Olho ao meu redor e descubro que as coisas que quero levar não podem ser levadas. Excedem aos tamanhos permitidos. Já imaginou chegar ao aeroporto carregando o colchão para ser despachado? As perguntas são muitas… E se eu tiver vontade de ouvir aquela música? E o filme que costumo ver de vez em quando, como se fosse a primeira vez? Desisto. Jogo o que posso no espaço delimitado para minha partida e vou. Vez em quando me recordo de alguma coisa esquecida, ou então, inevitavelmente concluo que mais da metade do que levei não me serviu pra nada. É nessa hora que descubro que partir é experiência inevitável de sofrer ausências. E nisso mora o encanto da viagem. Viajar é descobrir o mundo que não temos. É o tempo de sofrer a ausência que nos ajuda a mensurar o valor do mundo que nos pertence. E então descobrimos o motivo que levou o poeta cantar: “Bom é partir. Bom mesmo é poder voltar!” Ele tinha razão. A partida nos abre os olhos para o que deixamos. A distância nos permite mensurar os espaços deixados. Por isso, partidas e chegadas são instrumentos que nos indicam quem somos, o que amamos e o que é essencial para que a gente continue sendo. Ao ver o mundo que não é meu, eu me reencontro com desejo de amar ainda mais o meu território. É consequência natural que faz o coração querer voltar ao ponto inicial, ao lugar onde tudo começou. É como se a voz identificasse a raiz do grito, o elemento primeiro. Vida e viagens seguem as mesmas regras. Os excessos nos pesam e nos retiram a vontade de viver. Por isso é tão necessário partir. Sair na direção das realidades que nos ausentam. Lugares e pessoas que não pertencem ao contexto de nossas lamúrias… Hospitais, asilos, internatos  Ver o sofrimento de perto, tocar na ferida que não dói na nossa carne, mas que de alguma maneira pode nos humanizar. Andar na direção do outro é também fazer uma viagem. Mas não leve muita coisa. Não tenha medo das ausências que sentirá. Ao adentrar o território alheio, quem sabe assim os seus olhos se abram para enxergar de um jeito novo o território que é seu. Não leve os seus pesos. Eles não lhe permitirão encontrar o outro. Viaje leve, leve, bem leve. Mas se leve.

Fonte: Portal Raizes

É preciso ter a dor de sentir que a vida não tem roteiro. Na vida não existe nada seguro. Quem gosta de abismos tem que ter asas. ______________________ Antônio Abujamra.

- Quer um conselho?
- Hum.
- Esquece o chão.

Pedro Antônio de Oliveira.
A dor não parte de nós arrancando-a à força de dentro do peito. A dor não se retira com simpatia, convite, súplica ou reza braba. A dor não se convence por qualquer conversa ou estratégia de fuga. Atalhos não são caminhos. A dor é grau de realidade a convocar-nos, empurrando-nos para fora das habituais zonas de conforto. A dor grita-nos verdades sem conveniências ou filtros de entendimento. Celebra seu ciclo para então em nós se despedir, desalojando-se somente quando nossa luz retorna de viagem, trazendo na bagagem inevitável amadurecimento. A dor se dispensa por sua própria conta, pelo cansaço em ser dor e não outra coisa. Devemos, assim, permitir que o tempo dissolva seu viço em nosso céu e desencrave sua raiz do nosso chão, deixando-nos finalmente expostos aos recomeços. Preciso é exercitar equilíbrio com paciência e resignação, a manter-nos uma vez mais em pé e continuarmos, ainda que mancos e desajeitados, nos primeiros novos passos nossos. Preciso é juntarmos os pedaços que ainda doem e no amor próprio voltarmos a fazer um inteiro de nós. Não é fácil: se conseguíssemos não afundar enquanto pelo medo nos agarramos às angústias e outros medos mais; se conseguíssemos praticar palavras que tão facilmente usamos para aconselharmos os outros talvez pudéssemos ver a alternância das estações que nos invernam e nos amanhecem, bem como o rearranjo das cores, dos amores, dos destinos e a inevitável vitória da cicatriz sobre as feridas. É uma pena que na maioria das vezes nos encontremos caindo dentro de nós mesmos; e desorientados na nossa lucidez, lutemos contra dores com dores maiores ainda. À beira do precipício mantemo-nos mais atentos à queda do que à glória das asas. Atentamo-nos no que seria e não no que poderá ser; projetando futuro que morreu no passado; repetindo passados com medo de errar no futuro. E boicotados, sentimo-nos um vaso rachado condenado a nunca mais matar a própria sede.

Guilherme Antunes

quarta-feira, 4 de maio de 2016

"De tudo que ela poderia ser, escolheu ser poesia." — Érica C.

"Tem algo solitário nela."

 — The Vampire Diaries 
Fui eu que inventei o amor. Eu inventei o amor. Inventei as pessoas. E daí, inventei A pessoa. O cheiro da pessoa. A voz. Mas antes, eu inventei a brisa, inventei a rima, inventei cada pedacinho de calçada atravessada no mundo dos passos que eu inventei. Eu inventei o desejo. Inventei o sorriso. Inventei o desaviso, inventei o piso em que me deitava pra olhar as estrelas que eu mesma inventei, nas madrugadas inventadas, eu peguei o nada, e fiz uma poção encantada em que tudo cabia inventar. Então eu inventei o teu nome, depois cada pedaço do teu corpo. Eu inventei a cor dos teus olhos, a força dos teus braços, eu inventei o abraço, só que dada a inventar, distraída entre risadas, eu inventei o querer, inventei o dizer, inventei cada amanhecer, depois cada anoitecer, e também inventei a paixão, caprichei na poção, dupliquei condimentos, coloquei sangue, suor, fluídos, coloquei todas as flores que eu consegui inventar, porque eu inventei um jardim, e eu inventei uma de mim, assim, uma capaz de inventar o ciúme, as urgências, tratei de inventar mais desejos, e no meu caldeirão de invenções, eu inventei o amor. Segui passo a passo as formulas do livro muito antigo que achei em Paris. Tudo escrito em uma língua pouco conhecida. Os arredores. Os becos. As historias. Cada pedra daquelas calçadas antigas foram me levando àquela pequena loja de coisas muito velhas, quase escondida, onde eu inventei de entrar. Dentro havia uma senhora muito velha, muito linda, muito erguida, muito sábia, que me sorriu e em sua língua enrolada me perguntou sem mais: _ você sabe inventar ( interrogação) Eu sorri. Disse que não. Nunca. Só umas letras. Mal entrelaçadas letras. Ela saiu. Demorou. Voltou com o tal livro nas mãos e me disse que ali havia um segredo, e que este eu poderia usar uma única vez, até acabar, o segredo de inventar. No momento certo, e eu saberia inventar o momento certo, estava autorizada a usar. E me esbaldar de inventar. Guardei o livro de inventar. Trouxe junto, por via das dúvidas, coisas que a velha tratou de me empurrar, coisas que se resolvesse inventar, iria precisar. Quase não passo na alfandega. Todas aquelas especiarias de aromas e aspectos esquisitos, asas de morcego, dentes de elefante, patas de coelhos, unhas de gatos misturados à contas e conchas e moedas, véus, muitas ervas, flores secas de todas as cores, licores, um vinho um cálice, tudo viajando comigo na frasqueira por cuidado. Muito tempo ficou guardado. Até que inventei um dia. E ele se fez. Me espantei. Inventei outro dia. E outro dia se fez. E fui inventando coisas pro dia. Coisas que amo. Sol, nuvens, corações, janelas, estrelas, portas, calçadas, esquinas, passarinhos, flores, perfumes, crianças, beijos, noite, lua, comidas, bebidas, tecidos macios, silencio, musica, luzes coloridas, sons, bichinhos bonitinhos, e tudo ia sendo inventado a contento. Só não podia parar. Era a única vez que funcionaria. Daí, sai feito doida inventando mais. Inventei casa, lojas, ruas, cidades, saudades, mas inventei de no meio de tudo, me sentir só. Tudo inventado e eu olhando as invencionices, e foi aí que eu inventei. Inventei o que vinha inventando com palavras. Inventei um alguém. Inventei. Mas já tinha inventado tanto que no meio de tudo, me danei. Inventei tanto, tantas coisas sem prestar a atenção, porque eu não inventei a atenção, nada mais quase restara das coisas raras que eu precisava pra continuar a ter o poder de inventar. No meio da minha mais cara invenção, olhei pro chão. Os frascos estavam vazios. Por todo lado, só restavam galhos daquilo que um dia me deu o dom da invenção. Estava no meio do mundo. Eu inventei todo um mundo. Inventei todos os personagens. Inventei o alguém mais perfeito que imaginara. Inventei a mim mesma, mesmo mal enjambrada, e na hora de inventar o final feliz, eu não tinha mais nada. Que grande cilada. Eu tinha sido avisada. Não fica deslumbrada. Não gasta o presente de forma estabanada. E eu, que nada, bora lá inventar a escada, eu sou uma fada, eu posso até voar. Mas nem cheguei à. Inventei até não ter mais com inventar. O que eu não inventei, sobrou em forma de dor e bagunça. Estava até agora dando uma ajeitada. Ainda me sinto enganada pela velha francesa que me fez inventar o mundo, e depois dele, me descartou. O que será da velha. Será que ainda vive, estará ainda vivendo naquela casa antiga daquela arruela escondida daquele canto inventado de Paris...Não tenho mais o que inventar. Não tenho mais como inventar. Só me restaram essas palavras pra me consolar. Me ajuntar. Ou inventar algum jeito de voltar pra Paris. Não consegui inventar o feliz. Só o final. Mas cheguei muito perto, foi mesmo por um triz.



Be Lins

sábado, 30 de abril de 2016

"Meu pensamento é poético. Recusa-se a andar em linha reta. Dança. Deleita-se em analogias.” _________________________ (Rubem Alves, Por uma educação romântica, p. 47).

Consta nos astros, nos signos, nos búzios. Eu li num anúncio, eu vi no espelho, tá lá no evangelho, garantem os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz. Consta nos autos, nas bulas, nos dogmas. Eu fiz uma tese, eu li num tratado, está computado nos dados oficiais. Serás o meu amor, serás a minha paz. Mas se a ciência provar o contrário, e se o calendário nos contrariar. Mas se o destino insistir em nos separar. Danem-se os astros, os autos, os signos, os dogmas. Os búzios, as bulas, anúncios, tratados, ciganas, projetos. Profetas, sinopses, espelhos, conselhos. Se dane o evangelho e todos os orixás. Serás o meu amor, serás a minha paz. Consta na pauta, no Karma, na carne, passou na novela. Está no seguro, picharam no muro, mandei fazer um cartaz. Serás o meu amor, serás a minha paz...

[Chico Buarque]

quinta-feira, 28 de abril de 2016

"Eu só quero uma vida normal. Nem leve, nem pesada demais, apenas do tamanho da força de meus ombros." ___________________________ Ita Portugal

Sensibilidade sempre foi o seu forte.
Por isso, ela sofre.

Noemi Prates
Viver demora. Apenas o restante passa rápido. A tristeza, o trajeto do rio, a transgressão da mágoa e o furor do desafeto. Viver é devagar e enquanto isso deposita a tua alma no silêncio. Colhe e acolhe a dor do teu dia. Ajeita o fértil terreno e desobstrui as intenções fadadas a morte. Dá tempo. A vida passa devagar, portanto não morra de véspera sem ter dito tudo o que for possível. Escuta teu silêncio e fale, mesmo sem fluidez.  A vida, que tantos cantam, interpretam e dançam, caminha a passos largos e vai fertilizando o terreno tanto para as descomposturas afetivas, quanto para as dores repentinas e sem explicação. Qual a razão de tanta pressa? Serão necessários os atropelos? A vida segue seu ritmo sem nenhuma engenhosidade. Demore-se também para que possa encontrar uma vaga disponível e aproveitar a viagem ao lado da janela. Viver demora, então não resuma seus desejos. Honre o seu tempo e o tempo que a vida lhe dá. Poupe-se do desespero e console os seus dias. Viver demora um pouco mais que sua ansiedade. Traduza-se. Repita-se. Se não der certo, liberte-se dos melindres e contrarie a lógica.


Ita Portugal

quarta-feira, 27 de abril de 2016

Resisti ao tempo, às duvidas. Depois vieram as certezas que não pedi. Eu só queria acreditar no amor. E, graças, eu acredito. O amor é motivo. _________________________ Dan Cezar

"Não há dias, 
sem perdas,
 danos e ganhos"

Caminhamos em círculos, pegamos atalhos, pulamos degraus, corremos contra o tempo, ficamos em cima do muro. Preparamos resposta, ensaiamos sorrisos, combinamos roupas e intenções, encaixamos nossos sonhos em planos e os planos na nossa falta de tempo, ou de dinheiro. Vendemos as horas do dia para comprar as horas da noite. Envenenamos o corpo e queremos libertar a alma. Por hábito, cultivamos medos e mornos tons de cinza. Nos apegamos aos detalhes e perdemos o principal. De inúmeros jeitos nos poupamos e nos desperdiçamos, conforme doces ilusões ou as cruas verdades que carregamos.

Até o amor em nós chegar...


Guilherme Antunes