domingo, 8 de fevereiro de 2015

"Eu te in(vento) ó realidade!" ________________________ Clarice Lispecto

"Quando há medo de ir embora,
 é porque ainda vale a pena ficar"

- Vinícius de Moraes
Mais do que nunca fazes falta. Não só comigo, mas em mim e na vida que levo de arrasto. Dedico-me à rotina, trabalho e pouco durmo - a insônia ocupa as horas que eram nossas. Tenho tentado me distrair, sair, provar para mim e para ti que foi possível seguir sem que a dor tenha nos dilacerado. Sabes, sou boa nas coisas que invento. E tenho tentando inventar um mundo em que não existas - mas que mundo seria possível sem que lá estejas, mesmo com todas as distâncias de mim? Não sei por onde andas, em que pensas, que escolhas fazes. Não sei se a minha falta te dilacera como a tua faz em mim. Mas minha parte faço: confesso. Neste momento quero-te mais do que amo-te. Porque tu me é uma necessidade.

Cáh Morandi

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Me entenda. Eu não sou como um mundo comum. Eu tenho a minha loucura, eu vivo em outra dimensão e eu não tenho tempo para coisas que não têm alma. __________________________ - Charles Bukowski

Uma mulher infeliz por ter amor de menos, outra, infeliz por ter amor demais, e o amor injustamente
Chorei à seco, cantei à mudo, amei pra dentro.
crucificado por ambas. Coitado do amor, é sempre acusado de provocar dor, quando deveria ser reverenciado simplesmente por ter acontecido em nossa vida, mesmo que sua passagem tenha sido breve. E se não foi, se permaneceu em nossa vida, aí é o luxo supremo. Qualquer amor merece nossa total indulgência, porque quem costuma estragar tudo, caríssimos, não é ele, somos nós. 


- Martha Medeiros

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Há um vício de eternidade no meu amor. Saber-te foi meu melhor desvio. Amar-te foi meu melhor motivo. Trago comigo um sorriso de existir. E um colo pra te sonhar único. ______________________ *Dan Cezar

Eu quis tanto ser a tua paz, 
quis tanto que você 
fosse o meu encontro.
Quis tanto dar, 
tanto receber.
Quis precisar, 
'É contigo, que estou comigo,
e é justamente por isso que,
-Falto-me quando me faltas'

Luiz Santos
sem exigências.
E sem solicitações, 
aceitar o que me era dado.
Sem ir além, compreende? 
Não queria pedir mais
do que você tinha, 
assim como eu não daria mais 
do que dispunha, 
por limitação humana.
Mas o que tinha, 
era seu.


- Caio F. Abreu

*Adaptado

sábado, 31 de janeiro de 2015

Poema à quatro mãos? Não poema de um coração que pulsa, sente, sofre, perdoa, esquece e ama novamente. Poema de pessoas igualmente sensíveis. Perfeito, dentro das imperfeições de um adeus. _______________________________ Roseli Fardin

'a ela não importava os caminhos de volta. 
a ela não preocupava os caminhos de ida.
abandonou mapas, crenças e medos.

sem sair do lugar, 
encontrou-se.'

G. Antunes
Eu nunca saberei como me despedir de ti, visto que não há chance ou ensaio em que eu saia inteira. Despedir-me é a renúncia de parte do amor que parte e deixa uma lembrança de nós dois. Despedir-me de ti é o mesmo que abrir mão deste meu lado feliz e satisfeita com o mundo, em troca da versão chorosa e arredia de quem ficou presa e perdida pelo caminho. Sobrou-me anestesiada esperança e uma metade que respira mas não sente, que caminha mas não sonha. Hoje sou árida mansidão, uma mulher sem pressas nem vontades. Sinto dores por não saber no amor ser temporária, e com os vazios no lugar de ti, restam-me todos os desamanhãs. E não irei sorrir nem prosseguir com o que escolhi deixar imóvel no instante em que te encontrei. A tua despedida de amor foi um jeito de morte, e por vezes deveríamos saber fazer qualquer coisa contra o inevitável em nós que não nos desague na tristeza. Eu não soube ser diferente, então a vida irá chamar mas não responderei, enquanto o peito estiver ardendo a sua falta. Eu não previ nem me preparei para o que serei na tua ausência. Depois de ti, ganhei eternidades quando talvez só me reste o tempo. Sou uma fiel exemplar das que não sabem o que fazer depois que o amor vai embora. Serei assim para sempre, morna metade e mais de um mesmo que não convence. Um estado de espera para sonhar e viver outra vez. Agora que regresso aos meus habituais abismos, espero, com braços que não se cansam, com desejos que não secam, por um amor que não muda mesmo quando a lua é outra, ou quando a vida inventa um novo jeito de seguir. Quem sabe um dia eu possa nascer pedra enquanto você flor, pra te namorar sem doer entre os silêncios do jardim e primavera, dessabido da língua das saudades que invernam os homens.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

"Compreendo, e vejo ali, não uma homem que me empresta o coração e a alma, mas sim, que me empresta o verbo, o ombro, o tempo, o calor e a coberta, tudo isso num infinito totalmente nosso." *


...porque enquanto existir uma chance de ser feliz
 e mudar seu destino, ela iria tentar

E os primeiros raios de luz do dia que entram pelas frestas da janela de madeira já não incomodam quando você está ao lado. Porque é você quem está ao lado. Você, que geralmente dorme à minha esquerda, hemisfério corporal onde, dizem os especialistas, mora o coração. E então, por um momento, tudo parece fazer sentido. Foi essa a sua mandinga pra entrar no meu coração e pra, de quebra, tomar conta da minha cabeça e transbordar a minha vida. Não adianta negar. Foi essa a tática infalível pra que eu abrisse a porta da minha casa, o fecho do meu sutiã e incontáveis sorrisos de mais de oito graus na escala Richter. Te olho dormindo. De bruços, os braços estendidos para cima e o rosto levemente virado para o lado. A respiração calma e silenciosa, como se você descansasse numa daquelas paisagens bonitas que a gente só vê em filme. As costas discretamente torneadas, como se cada músculo não fosse fruto de mais do que um esforço cotidiano. A boca perfeitamente cerrada, como se aqueles lábios grudados guardassem o segredo da criação do mundo. E é inevitável eu me perguntar como cabe tanta beleza num corpo tão pequeno. Tão compacto, tão discreto, tão sutil. Tão branquinho. Tão diferente do meu, todo desenhado e que nunca entendeu direito aquele tal de “menos é mais”. Tão menos e que consegue ser tão mais. Você, meu amor, saiu de uma pintura renascentista. Só pode ser isso. Você fugiu do teto da capela Cistina direto para os meus lençóis. Ciao, Michelangelo. Porque aqui a vida é mais feliz. Tem travesseiro macio, embora você o dispense todas as noites. Tem cobertor, embora o meu calor lhe seja mais convidativo. E tem o meu corpo quente – ah, esse você não troca por nada. Só por uns minutinhos de sono a mais quando é ainda dia de semana. E sabe que eu até gosto? Porque nada me recompõe tão bem quanto saber que você está em paz. Que nenhum pesadelo feriu sua madrugada. Que os monstros que, um dia, talvez, tenham dormido embaixo da sua cama, foram embora pra nunca mais. Que o universo conspira a favor de nós. E que eu passaria noites inteiras velando o seu sono. Eu, então, me aproximo para deixar um beijo no seu rosto inerte. E é inevitável não sentir o seu cheirinho doce. Um cheiro meio de flor, meio de fruta. Um cheiro que os franceses procuram até hoje – em vão – pra confeccionar a fragrância mais esperada de todos os tempos. Um cheiro de pecado que só se cala no meu pH ácido. E eu me pergunto como você acorda sem o característico bafo matinal de quase 100% dos seres humanos. Você diz, quando acordado, que é impressão minha. Que é loucura eu cheirar o seu corpo todo depois de longas doze horas de sono. Que é porque o cheiro do cigarro foi embora enquanto você dormia. É, até faz sentido. Mas eu ainda prefiro acreditar que o universo reservou o melhor cheirinho da perfumaria divina pra você. Ou melhor, pra mim. Pra eu cheirar. Pra eu lamber. Pra eu beijar. E aí você se arrepia. E sorri. E me beija de volta, mesmo dormindo. E eu fico pensando que nunca, jamé, nem never more eu conseguiria ser rude ou pouco doce na hora de te resgatar das profundezas do seu sono, que é sempre justo e bonito. Assim como você. E quando aquele raio de sol do meio-dia queima a sua retina por através das suas pálpebras, eu morro um pouquinho. Pra quê acabar com um dos espetáculos mais bonitos do planeta Terra, caro sol? Mas renasço ainda mais feliz assim que você me lança aquele primeiro olhar do dia, seguido de um sorriso, de uma carícia quase que infantil e de um preguiçoso beijo na boca, me chamando pra uma sacanagenzinha matinal e anunciando que, independentemente do que o Climatempo disser, o dia de hoje será mais bonito. Só porque você acordou ao meu lado. Não sei pra vocês, meus amigos. Mas paz, pra mim, é isso.

Bruna Grotti   _______ * Frederico Elboni- Adaptado

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

"Ela era um livro que precisava ser lido. Escrito numa língua em que ninguém foi alfabetizado."

Adoro quem pensa como eu,
 mas amo quem me faz pensar
de um jeito que eu
não tinha imaginado.

Carina Destempero
Sou dessas, de poesias manchadas no guardanapo que interrompem bate-papo de bar. De foto três por quatro morando na carteira. De choro. De olho no olho. De amor à primeira vista. De gostar de abraços largos. De não dá-los. De vontades que explodem e preenchem o caminho de volta para casa. De madrugadas. De planos abertos pelo retrovisor do carro. De dedos costurados dentro de uma sala de cinema escura. De nuca. De De meias palavras. De tudo escrito. De tudo acabado desta vez. De voltar atrás. De olhar de longe. De fingir que não viu. De mentir que não fuça. De declarações duras. Que dizem verdades. De acreditar em vou aparecer mais. De não rasgar fotos. De escrever pessoas em uma bexiga de gás e olhar para o céu enquanto elas se apagam de mim. De cair na mesma história. De novo. Do mesmo jeito. De não prevenir nenhum desgosto. De passar a borracha em um número de telefone. De esquecer que passou. De contar que passou. E esquecer também que contou. De ligações no dia seguinte. De ligações perdidas. De propósito. De alôs mais gagos que convites. Ao vivo. De desligar o telefone e deixar o silêncio dialogar. E de atacar as reticências às páginas brancas. De me conhecer só assim, já que sou dessas que gostam de.



Priscila Nicolielo