sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Aquilo que nos fere é aquilo que nos cura. A vida tem sido um pouco dura comigo, mas ao mesmo tempo tem me ensinado muita coisa. - _______________________ Caio F. Abreu

Conviver com a falta faz parte do ser humano; perceber-se sozinho, também. Crescer é aprender a conviver com os pedaços que permanecem sem encaixe, com o buraco que todos possuímos, com a escassez de peças que formam esse quebra cabeça incompleto que é a vida. Quando entendemos que esse quebra cabeça é sim um quadro imperfeito_ pra qualquer um_ de peças desajustadas e faltantes, de cantos obtusos e bordas incompletas, que poucas vezes refletirá algo que faça sentido, enfim desistimos de desejar o impossível e aprendemos a encontrar as respostas no que é verdadeiro, real e palpável. Neste fim de semana, passando uns dias na casa com a família, mergulhei no universo de “A menina quebrada”, livro de Eliane Brum. Nele, a jornalista se aproxima muito de nós, seus leitores, ao abordar a vida com sensibilidade e desassossego, o desassossego dos inquietos, ou daqueles que não se acomodam diante do óbvio, mas procuram desmontá-lo para enfim remontá-lo com certeza e verdade. Me fisgou no momento certo. Entre tantas crônicas, duas me fizeram refletir sobre a falta a que nos habita e aquela que percebemos nos que amamos. No texto “É possível obrigar um pai a ser pai?”, ela abre a discussão a partir do caso Luciane Nunes Oliveira Souza, indenizada na justiça pelo pai que, segundo a vítima, abandonou-a afetivamente. Lá pelas tantas, Eliane Brum nos desacomoda _ a todos nós, abandonados ou não _ ao nos confrontar com o apego que temos ao que nos falta. E no caso de Luciane, conclui: “Dificilmente Luciane conseguirá seguir adiante, paralisada como parece estar no mesmo lugar simbólico. (…) Tornar-se adulto, porém, é descobrir que o baralho nunca estará completo, que nem mesmo existe um baralho completo. Temos de jogar com as cartas que temos. E tentar recuperar cartas que jamais existiram, como se elas estivessem apenas perdidas, não nos ajuda a viver melhor. Apenas nos congela num lugar infantil”.Outro texto, “A dor dos filhos”, fala da dificuldade que temos em lidar com os abismos de nossos filhos, abismos que nos remetem aos nossos próprios precipícios e falta de sentido. É ela quem nos fala: ” Não protegemos nossos filhos desse vazio, não há como protegê-los daquilo que é uma ausência que nos completa. Penso que este é o momento crucial da maternidade e da paternidade. Cada um de nós, que se sabe faltante, diante da falta que grita no filho”.E conclui lindamente: “É preciso aguentar. Saber aguentar e escutar a dor de um filho, sem tentar calar com coisas o que não pode ser calado com coisa alguma, é um profundo ato de amor”.Imaginar a própria vida como um quebra cabeça em que as peças faltantes limitam ou impedem o significado de todas as outras é submeter a existência àquilo que está fora dela; é reduzir a felicidade ao complemento de outros encaixes, quase nunca viáveis ou possíveis. Viver esperando que algo ou alguém venha nos completar e milagrosamente sanar os vazios que nos preenchem é autorizar que a falta seja aquilo que nos define mais. Estacionar diante de um quebra cabeça com fragmentos ausentes e insistir que precisa do quadro pronto pra ser feliz é desconstruir a possibilidade de seguir adiante. De vez em quando um “Deixa pra lá” faz milagres e nos liberta a prosseguir tentando um arranjo novo, nem sempre perfeito, mas invariavelmente possível. Retornando da viagem, entramos em casa e, cheios de malas, queijos e ovos trazidos do interior, tropeçamos e desviamos das peças de lego de meu menino que ficaram por guardar e foram esquecidas espalhadas pelo chão da sala de estar. Terminadas as arrumações, sentamos para recolher as pecinhas e entre separar e brincar, tentamos uma ou outra combinação para criar um novo carrinho, casa, ou avião. E, enquanto ainda conseguimos prosseguir sem seguir o manual _ que exige as peças certas _ inventamos mundos e histórias com as peças que unidas se transformam e se reinventam. Se_ ao invés do quebra cabeça_ desejarmos prosseguir como peças de lego, uma infinidade de possibilidades se descortina. Pois mesmo que faltem alguns pedaços, é possível continuar tentando e encontrando novas combinações, roteiros e direções. Um carro pode se transformar num prédio, navio ou caminhão. E é essa capacidade de se construir e desconstruir, de se desmanchar e se recriar de uma forma completamente diferente que faz do Lego_ e de nossas vidas_ o melhor brinquedo que existe.


“A Soma de Todos os Afetos”, de Fabíola Simões, 

quarta-feira, 25 de outubro de 2017

Pertencia àquela espécie de gente que mergulha nas coisas às vezes sem saber por quê, não sei se na esperança de decifrá-las ou se apenas pelo prazer de mergulhar… _______________________ Caio Fernando Abreu

Retorno as impressões primeiras do amor. Ao estado natural das coisas, do conhecimento intuitivo. Memórias amorosas nos seus registros iniciais, lá onde a razão não guia, onde o corpo é poesia e o sentimento soberano. A marca dos anos em que ainda não erigimos nossa lista de critérios defensivos e excludentes para amar o outro, diferente. Retorno naquele ponto exato onde o amor não era pensamento, nem se desdobrava em discurso. No instante primeiro em que lógica nenhuma era capaz de romper laços, afastar os distraídos ou convencer que o amor pode ficar para depois. Quero voltar por um momento naquele tempo em que o que guiava nossas escolhas amorosas tinha a leveza da incompreensão e a força do desejo que sempre sabe o caminho. Perder a visão e reencontrar a cegueira dos jovens demais, dos alucinados de amor inconsequente, da intensidade dos imaturos a ingenuidade dos românticos desavergonhados. Dos loucos de toda ordem que fazem do amor seu valor maior. Retorno agora num mergulho aos amores primeiros para reencontrar o que perdi. No ponto afinal que a maturidade começou a nos roubar a capacidade de amar. Do amor sem medos, ambições, desconfiança, jogos ou condições. Repasso o passo para resgatar o que nasci sabendo, do amor e seus encantos, o que faz dos encontros algo raro. Do brilho no olhar que nos enche de sentido. Volto para resgatar dos anos o que a maturidade me roubou. Do amor quero a grandeza da imaturidade.


✫ Andréa Beheregaray.

"Não soube compreender coisa alguma! Devia tê-la julgado pelos actos, não pelas palavras. Ela me perfumava e me iluminava... Não devia jamais ter fugido. Deveria ter-lhe adivinhado a ternura sob os seus pobres ardis. São tão contraditórias as flores! Mas eu era jovem demais para saber amar " _________________________________ Antoine de Saint-Exupéry Do livro "O Pequeno Príncipe"

Tudo passa? Talvez não. Talvez esta seja uma visão inflexível demais sobre a transitoriedade da vida. Um amor não se faz eterno pelas lembranças? As mais duras mágoas não se transformam em sabedorias? Quantas paixões não mudam e ainda assim permanecem inteiras, no mais perfeito companheirismo? Essa efemeridade total parece dura demais, até mesmo para o meu típico realismo. Desumana demais. Eu prefiro acreditar em alguns eternos. Alguns, somente. Porque ainda assim algo é certo. Nem tudo fica. Não importa o quanto nos fazemos presentes. Não importa o quanto nos apegamos até mesmo à dor. Algumas coisas simplesmente não permanecem. Mágoas ou alegrias. Os desejos de dividir uma vida ou as óbvias ausências disfarçadas de liberdade. Então, eu tenho me permitido ser mais flexível. Não apenas para a ideia de que certas coisas não passam. Mas também para enxergar tudo o que não fica. 

Matheus Jacob

domingo, 22 de outubro de 2017

Das escolhas que fazemos na vida, algumas fáceis outras mais complexas, talvez a mais desafiadora de todas seja a escolha do coração. _ ______________________ Tatiana Nicz

A vida é feita de escolhas. 
Quando você dá um passo à frente 
inevitavelmente alguma 
                          coisa fica para trás.                               
 ( Caio   Fernando Abreu)
É isso, paixão vem com pé na porta, vem quando a gente não espera. Não avisa mesmo, acontece no meio de uma balada ou na fila do mercado, paixão é sempre urgente, não espera, não liga se você quer ou não, ela simplesmente se instala em você. O amor não… Ah, o amor! O amor a gente escolhe mesmo, a gente escolhe amar quando ouve com atenção as histórias do outro. A gente escolhe amar quando passa pela comida que o outro gosta no mercado e resolve levar. A gente escolhe amar quando troca uma balada pra fazer companhia pro outro que pegou um resfriado, a gente escolhe amar quando escolhe cuidar. A gente escolhe amar quando manda uma mensagem de bom dia e uma de boa noite, quando o sexo é tão bom quanto ficar aninhado no peito do outro. A gente decide amar quando quer dividir as músicas preferidas, quando quer rever os filmes preferidos ao lado do outro, quando quer ver os filmes que a pessoa mais gosta. A gente decide amar quando leva pra conhecer os amigos, quando escancara as portas da casa e da vida pro outro entrar e bagunçar como quiser. A gente escolhe amar quando não quer mais ter razão por pura vaidade porque ser feliz e fazer feliz é mais importante. A gente escolhe amar quando não quer dormir sozinho, quando troca a cama espaçosa pelo pé no pé, quando prefere dividir o lençol e acordar olhando pro outro. A gente decide amar quando vai conhecer o pai, a mãe, a irmã, os tios… quando a família do outro passa a fazer parte dos seus dias. A gente escolhe amar quando descobre defeitos e ainda assim não sai do lado, quando programa a mente pra valorizar o que o outro tem de bom. Escolhe amar quem não liga de pegar o trânsito do fim da tarde só pra uma janta improvisada em casa. Escolhe amar quem não dorme sem resolver o problema, escolhe amar quem se alegra com o sorriso do outro, quem comemora o sucesso do outro. Escolhe amar quem deixa pra trás algumas certezas e se abre pro novo. constrói aos poucos, todos os dias. Amor é quando duas pessoas escolhem andar lado a lado não por precisarem uma da outra, mas simplesmente porque preferem a vida compartilhada. Amor é cumplicidade, quem ama tem riso frouxo, não se sente só, se diverte até no mercado. Quem ama, escolheu amar e escolheu todos os dias. Amar é decidir diariamente. Paixão vai embora da mesma forma que veio, sem avisar, sem nosso controle… o amor vai embora quando a gente escolhe que ele vá, quando a gente vai abrindo mão aos pouquinhos. E ah! Amor é via de mão dupla. É de propósito, mas só acontece quando a gente dá a sorte de encontrar alguém fazendo as mesmas escolhas que a gente.




Fabrício Carpinejar


quinta-feira, 19 de outubro de 2017

"A montanha é mais silenciosa quando o pássaro canta." ____________________ Monja Coen

A montanha é mais silenciosa quando o pássaro canta. A montanha é tão alta quão profundo seja o vale. A montanha pertence a quem ama a montanha. No começo a montanha era apenas uma montanha. Adentra-se. Há tantos detalhes, tanta diversidade, tantas vidas numa vida. Rios e montanhas atravessei. Mares e pantanais. Vi povos felizes e ricos. Vi povos felizes e pobres. Vi povos tristes. Vi estrelas e cometas. Passeei pelas margens ensolaradas nas primaveras japonesas sob árvores cobertas de flores rosa cálido. Onde houve bombas. Onde houve mortes. Cemitérios de soldados. Pequenas imagens de ferro de menos de um metro de altura sobre túmulos de pedra. E vi senhoras de kimonos ao lado de jovens de saias curtas e meias brancas, grossas, enroladas nas pernas. Vi mães chorando a morte de seus/suas filhas. Vi pais chorando a morte de suas/seus filhos. Vi avós chorando. Vi jovens chorando. Enterros, cremações, preces, orações. Montanhas de sentimentos. Montanhas de pensamentos. Montanhas de emoções. Passei de largo por pobres famintos de migalhas não dadas. Passei pensando em tirar meu agasalho e dar à senhora abraçada a uma criança num canto do Conjunto Nacional. Pensei e não dei. Havia a intenção sem a ação. Passei por campos de concentração sem me concentrar. Hoje me concentro nos centros urbanos das grandes cidades. Concentro o centro de meu próprio centro na grande intimidade de ser quem sou. E não sei quem sou. Pois a mutação continua em um continuum ad infinitum. Silêncio. A montanha é mais silenciosa quando o pássaro canta. Minha primeira caligrafia japonesa. Aprender todos os traços numa só frase. No outono a montanha ficava dourada, vermelha, marrom. No inverno ia sendo pintada de branco, branco, branco. E assim ficava toda branca com o céu, o riacho e as casas. Assim ficávamos nós monjas e monges cobertos de neve, dedos feridos, sangrando do frio queimados, sorrindo comendo bolinhos de arroz assados e chá verde bem quente. Depois a montanha floria, sorria, desabrochava primeiro em pétalas brancas nos troncos escuros das ameixeiras. Ume wa kanko ete senko o hasu – a ameixeira suporta o frio intenso e desabrocha em fragrância. Símbolo da transmissão. Yogo Suigan Roshi, Zengetsu Suigan Daiosho, arigatõ. Muito obrigada. Mal entendia porque me colocava em frente de tantos jovens monges japoneses. Tanto a aprender. Quando somos jovens achamos que sabemos tudo e precisamos ensinar aos mais velhos. Quando passamos a juventude percebemos que sabemos pouco e temos tanto a aprender.

O tempo urge. O tempo somos nós. E passamos com o tempo que nos passa correndo um da maratona. Alegria da conquista. Dura quantos instantes perenes? Dura a eternidade. E a eternidade é finita. Finita dos sabores doces e amargos. Nada a segurar, nada a se apegar. O galho da árvore quebrou Despencando pelo abismo Vou deixando um rastro de sangue e de surpresa Seria medo essa incerteza? De repente o silêncio. A montanha é silenciosa. Sempre gostei de andar sozinha pelas montanhas. Mas nunca estava só. Era a montanha que me mostrava suas sendas, tendas, caminhos, vertigens, pássaros, árvores, armadilhas, declives. Nas montanhas somos muitos. Somos nuvens e riachos Somos presentes e passados Futuros cambaleantes Ricos/pobres caminhantes Cajados para medir profundidades Afastar calamidades Apoiar-se nas idades.

Ah! Montanhas que eram montes, vales. Vales são tão profundos quão altas sejam as montanhas. Estamos todos nestas interrelações, interfusões, interdependências. Nada é por si só. Tudo em perfeita harmonia. Mesmo a desarmonia. Reorganiza. Rearruma. Incessante vir a ser. Amar a montanha é cuidar da montanha. Cuidar para que seja uma montanha forte e saudável. Para que não a bombardeiam a fim de tirar seus minerais. Para que não a dilacerem com as contaminações mortais. Para que a respeitem, venerem. Para que a ela se entreguem, pois ela dá apoio, dá conforto, dá colo.

Montanha mãe da vida. Ascendendo. Subindo. No pico, entre nuvens e águias, o vento é mais frio, o sol mais intenso, a lua mais próxima, as estrelas brilhantes e os cometas mais rápidos que as cachoeiras incessantes. E se elas cessarem? Se as cachoeiras deixarem de derrubar água branca, água marrom, águas puras e águas polutas? Se não houver mais água, porque há tantos tubos, tantos canos, tantos edifícios com tantos subsolos, que os canais freáticos fiquem freados?

Cuidar da montanha é amar a montanha. Amar de querer bem. Amar de ficar pertinho. De colocar anel, de fazer beicinho. Amar de fazer carinho, mesmo de longe, em pensamento. Amar de sorrir por dentro. A montanha pertence a quem ama a montanha. Lá em cima é alto. Mas cada topo tem um outro topo que o faz pequeno. Templo bonsai. Parece que foi amarrado, ficou encolhidinho. Templo da intimidade, todos bem pertinho. E é nesse templo sagrado, onde corri minha infância, pés descalços, que hoje de pés descalços descanso meu cajado, meu rebanho, meus filhos e filhas, meus netos e netas, minhas amizades, minhas ternuras, minhas procuras e meus amados mestres, minhas amadas mestras. Tapeçaria infinita desta-sua-nossa vida. Inter roscados, como as veias e as carnes, como as vinhas e as uvas, intersendo, intermisturadas as infinitas cores dos universos multiversos os nossos versos. E bem do alto percebo que aqui é apenas o começo. Shinsan Shiki Cerimônia de Ascender a Montanha Que possam todos ascender e ascender a chama da luz infinita da transmissão correta da verdade perfeita preservada no olhar que guarda, protege, acolhe o tesouro, a jóia da não dualidade.


A montanha é apenas uma montanha.





– Monja Coen, em “site oficial Monja Coen Sensei“.

Antes do ano terminar, tem alguma coisa pra dizer?



Eu tenho. Eu fico pensando o que seria se tivéssemos nos encontrado na solidão. O que poderíamos ser, o que teríamos sido. Imagino nossos diálogos noite adentro, a companhia quente em uma madrugada fria, o criado-mudo cheio de livros, o abajur cansado de tanto trabalhar e seu peito descoberto fazendo papel de travesseiro para o meu descanso. eu consigo imaginar as conversas, você me dizendo sua opinião sobre o último filme e discussões gostosas sobre o último livro do llosa, nossas leituras contrárias criando uma nova maneira de entender o que interpretamos, uma felicidade completa por descobrir o que juntos nos tornamos. Eu imagino nosso casamento, eu entrando de vestido branco simples e você me esperando no altar, seu rosto surpreso ao me ver subir no palco pra cantar composição feita pra você, meu coração saltar ao ver que você preparou o mesmo em melodia diferente. Eu vejo nossa casa, branca, clara e florida, tendo em cada canto a felicidade detalhada, um cômodo de marfim para os nossos livros chamarem de morada, um porta-retrato nosso no hall de entrada. Eu me vejo em você. me enxergo em seus sigilos, me encontro naquilo que você não diz, me enxergo em seus discursos apaixonados de olhos tão claros imensidões de mim. e não entendo porque tanta ironia da vida te estar tão longe, me esfregando sua presença assim tão de perto, não entendo obra de quem foi tornar errado o que era pra ser certo, não entendo a razão de te encontrar com o peito fechado logo quando o meu resolve ser aberto. e sinto raiva dos casais opostos que atravessam as ruas, daqueles que não se completam mas vivem a vida de alegria nua, enquanto nós que nascemos tão siameses, almas tão exatas em um mundo perdido, precisamos nos contentar com "bons dias e boas tardes" e sorrisos simplistas de distantes amigos. Logo nós que fomos feitos de palavras, temos que nos esquivar de nossos sentimentos que gritam já quase surdos, enquanto nós dizemos em olhares desviados um discurso de eu te quero muito, completamente mudo.

Flá Costa

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

"Aceite o desafio e provoque o desempate" _______________________

Pode vir. Faz as malas, vem. Chega contente, disposto, à vontade. A casa é sua. Entra, senta, fica. Tira os sapatos se quiser, pula na cama, descansa teus pés cansados nestas costas. Repousa tua alma na companhia da minha, encosta teu corpo neste canto do mundo. Chega aqui. Pode chegar. Enquanto essa multidão de casais felizes passeia lá fora, lotando sessões de cinema, corredores de shopping, festas da uva, lojas de material para construção, parques cheios de luz, nós aqui nos deixamos estar sem mais, desconfiando o mundo pelos desenhos do sol e da lua no teto do quarto entre os vãos da janela, esquecidos do tempo, do vento e da chuva. Entregues a nossas questões pessoais, nossas mecânicas domésticas, nossos movimentos íntimos universais. Distantes da rua lá embaixo, da festa das vozes em grupo, das luzes acesas. Benditos sejam os amantes afeitos a exibir seu amor ao mundo, empurrar juntos o carrinho do supermercado, beijar em público, esperar a tardinha em sorveterias de bairro. Que sejam felizes como felizes estamos nós, que escolhemos o caminho inverso. Nem piores, nem melhores. Apenas e tão somente nós. O que é nosso, amor, por escolha nossa, há de ficar aqui. Vem, divide comigo o direito sagrado de fazer, sentir e manter nossas coisas em um paraíso secreto, restrito. Que estas quatro paredes nos guardem, protejam e preservem dos males do mundo, dos olhos alheios, das coisas da vida. Que sejamos assim, você e eu, enquanto der. Enquanto for. Ninguém mais carece saber de nossos risos e angústias, nossas alegrias desaforadas, nossas horas lentas e silêncios longos. A quem mais interessam nossos cheiros e nossos gostos? Tem coisa que não tem jeito: ainda que se queira, não é possível dividir. Não se deve. Tem coisa que é só nossa, nascida para a intimidade. Se sair ao sol, à chuva, ao olhar dos outros, derrete, definha, desaparece. Tem coisa que nasce, cresce e fica para sempre dentro da gente, no infinito espaço íntimo de um mundo para dois. A olhos nus, despimos nossos corpos entre quatro paredes de discrição e resguardo. Aqui, aquecidos em nossos fogos, dividimos nossas riquezas escondidas, entregamos nossos mistérios um ao outro. E assim, sem que ninguém nos ouça e nem nos veja, colhemos juntos toda a ternura do mundo. Nossa disposição generosa para o amor merece o conforto silencioso das horas mudas. Deixa cá entre nós. Conta pra ninguém, não. O que nos é mais caro ninguém há de saber. Nosso tesouro mais valioso, nosso segredo irrevelável, nosso tempo e espaço invioláveis. Vem. Entra, fica. Em nosso canto suspenso, repletos de alegria e pudor, guardaremos instantes de graça infinita aqui dentro. Por nada, não. Nada senão a sorte de preservar-nos em nossa riqueza de bichos simples, discretos, inteiros, amantes.



Por André J. Gomes-adaptado