terça-feira, 16 de novembro de 2021

"Flor incrível que pareça, flor(em)si. Aconteça o que aconteça, foi quando você chegou em mim, que eu aconteci." _______________________ Lilian Vereza

Arquivo Pessoal
Ela nasceu na estação das flores, tem um perfume nos sonhos e muito mais pétalas do que raízes. Ela tem um jeito desajeitado de sentir alto, de ser muito, de estar o tempo todo de braços dados com o sorriso. Ela sabe de cor a pose que a liberdade faz, tem uma doçura nos pensamentos e um encantamento urgente por tudo que vem de dentro.Ela tem mira e tem o arco e a flecha na mão, mas o alvo, tantas vezes é uma miragem, uma armadilha da intuição. Mesmo assim ela acredita, é doce e inquieta, brinca de existir como quem não tem medo do abismo. Atravessa mares, olhares, faz pontes em corações partidos. Ela tem arte na veia, cor de pôr do sol e um coração vivido. Ela age por impulso, chora de tanto rir, brinca de fotografar a vida fazendo abrigo nos breves instantes de felicidade. Tudo que mora dentro dela é muito inteiro pra ser metade.


Lilian Vereza

domingo, 7 de novembro de 2021

"(...) refleti que no fim todos passam e tudo passa; o fim é um grande sossego e um imenso perdão." ______________________ Rubem Braga

METADE 


Que a força do medo que tenho 
Não me impeça de ver o que anseio; 
Que a morte de tudo em que acredito Não me tape os ouvidos e a boca; 
Porque metade de mim é o que eu grito, 
Mas a outra metade é silêncio...                                                     


Que a música que eu ouço ao longe Seja linda, ainda que tristeza; 
Que a mulher que eu amo seja pra sempre amada Mesmo que distante; 
Porque metade de mim é partida Mas a outra metade é saudade... 


Que as palavras que eu falo 
Não sejam ouvidas como prece 
E nem repetidas com fervor, 
penas respeitadas como a única coisa que resta 
A um homem inundado de sentimentos; 
Porque metade de mim é o que ouço 
Mas a outra metade é o que calo... 

 Que essa minha vontade de ir embora 
Se transforme na calma e na paz que eu mereço; 
E que essa tensão que me corrói por dentro 
Seja um dia recompensada; 
Porque metade de mim é o que penso 
Mas a outra metade é um vulcão... 

Que o medo da solidão se afaste 
E que o convívio comigo mesmo Se torne ao menos suportável; 
Que o espelho reflita em meu rosto 
Um doce sorriso que me lembro ter dado na infância; 
Porque metade de mim é a lembrança do que fui, 
A outra metade eu não sei... 

Que não seja preciso mais do que uma simples alegria para me fazer aquietar o espírito 
E que o teu silêncio me fale cada vez mais; 
Porque metade de mim é abrigo 
Mas a outra metade é cansaço... 

Que a arte nos aponte uma resposta 
Mesmo que ela não saiba 
E que ninguém a tente complicar 
Porque é preciso simplicidade para fazê-la florescer;
 Porque metade de mim é platéia 
E a outra metade é canção... 

 E que a minha loucura seja perdoada 
Porque metade de mim é amor 
E a outra metade... também. 



 Oswaldo Montenegro

quarta-feira, 6 de outubro de 2021

Eu me importo...


Noite regadas a um gostoso café e risos descomprometidos com lógica. Pode contar que eu me importo com confissões sejam elas inusitadas, amorosas, alegres, infantis. Apenas me importo. Eu me importo com a chuva, as noites estreladas, os dias ensolarados. Eu juro que me importo com as palavras engasgadas, os silêncios amorosos, a súplica pelos beijos, os abraços intermináveis. Eu me importo com os rodapés, que passam instruções, ou mandam recados que entram porta a dentro de nossa alma. Eu me importo com a literatura que causa, fazendo acontecer algo dentro da gente. Com os sentimentos capazes de juntar as mais diferentes pessoas na mesma mesa, seja do bar, da cozinha ou da copa. Com tudo que chega trazendo alegria, com tudo que vai e liberta a alma. Eu me importo com as rimas, com o poeta, com o amor plantado à duras penas, com quem nunca careceu de aprovação para viver. Sim senhor, eu me importo, desde que as mágoas sejam passageiras, o tempo suficiente de na impossibilidade de lutar, deixar pra lá, até cair no esquecimento. Ressaca amorosa e mágoa guardada, só serve para coibir a alegria. Não desce nem com vinho da melhor qualidade. E isso, não me importa.

Ita Portugal

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

Eu vivo em pleno estado de GRATIDÃO....... (Marla de Queiroz)

Inaugurou um novo capítulo: uma garoazinha de tristeza, uma saudade entreaberta, e o vento aborrecido. Sudoeste querendo abraçar tudo. E ela vagueando por aí sem nenhuma palavra que arranhasse o silêncio. O tempo contido nas coisas, os dias aprisionados na ansiedade já não deslizavam pelo calendário. Esperança já nem suspirava. Não havia espera de nada, apenas a companhia corriqueira: ela e a solidão_ mão com mão, rostos sem face. Já não desejava amores nem intrigas de paixão alguma: sossegou-se na solitude aceitando aos poucos o tempo alargado para se preencher com improvisos, sem horários rígidos, sem avisos. Preencheu de paz o espaço novo do coração esvaziado.(Dizem que a Primavera chega trocando a roupa da paisagem). E no auge da sua descrença o dia amanheceu de novo. Quando não queria mais fugir de si mesma, foi surpreendida por uma voz de timbre limpo, olhos atenciosos e mãos que diziam coisas. Era alguém que tranquilizava quando apenas sorria. Uma pessoa que trazia em si o amparo de tudo. Tinha o dom da conveniência e da clareza e pronunciava reciprocidade. O fato resumindo é que o amor não era mais aquele estardalhaço. O amor era suave e tinha um jeito de penetrar sem invadir, de libertar no abraço. O amor não era mais aquela insônia, mas sonho bom na entrega ao desconhecido. O amor não era mais a iminência de um conflito, mas uma confiança na vida. E, pela primeira vez, o amor não carregava resquícios de abandono, pois havia descoberto: o amor estava ali porque ambos estavam prontos.
(O Tempo estava certo.) 


 * Marla de Queiroz Do meu livro QUANDO AS PALAVRAS SE ABRAÇAM. (vendas pelo direct. Envio com dedicatória

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

"Feito flor abraçada por borboleta. Feito café da tarde com bolinho de chuva. Onde, em vez de nos orgulharmos por carregar tanto peso, a gente se orgulha por ser capaz de viver com mais leveza." Ana Jácomo

Eu ainda sou essa poesia que rima e (des) rima.
Que faz prosa, só pra caber na tua fala.
Me faço e refaço, basta ser papel em branco a me tocar.
Sou poesia inacabada, esperando construção.
Sou pontuação, sou reflexo do que leio.
Ás vezes sou repetição.


Mas, de tudo que sou, gosto de ser vento, daqueles que sopra pra longe qualquer aflição.


Patrícia Rocha

 

domingo, 23 de maio de 2021

Foi o vento… sossega, meu coração! Às vezes o vento parece falar…

O amor sempre será esse lado menos exposto, arranhado no corpo, com ares de futuro. Se entrega à próxima composição, mas segura os sinais. Desabotoa represas, mas encolhe os canais. Suspenso-lento-ardendo. O amor sempre será esse teu lado que não desemboca, que não vem à tona, que não vale meu sopro, minha noite, minha pena, meu poema. Não diz, não age, é inerte, insosso, imaturo, indeciso, impreciso ao que preciso, agora. Quanto mais abandona, mais me encontra: providencial; um lado meu que só renasce porque te espera. Acredita ainda, e envelhece. Renasce porque te melhora. Renasce para que no ventre dessas entregas, uma palavra pequena aborte as próximas distâncias. Uma palavra só, ou uma ponta de coisa-qualquer que valesse uma poesia. O amor sempre será esse hiato que não se desenvolve. Essa pedra que onda bate e não se dissolve. [...]"


____Cáh Morandi & Priscila Rôde

sexta-feira, 21 de maio de 2021

Entrego, Confio, Aceito e agradeço! Um mantra! Que a vida fica mais leve e fácil assim!



Sentou-se à beira-mar pra entender o vento. De onde vinha, pra onde ia. Que segredos trazia, se respostas e acalantos o vento oferecia e levava embora consigo. Refletia os sorrisos de ontem, as vontades de hoje, a incerteza do amanhã. Embaralhava suas memórias, seus quereres e expectativas ao passo que a brisa do mar tocava seu rosto e beijava seus ouvidos. A moça queria tudo. Queria entender os mistérios do tempo e desvendar suas fases. Os motivos dos tombos, as certezas das escolhas, as lágrimas de estafa. Não percebia as transições, julgava os dias iguais, não enxergava as respostas tão óbvias preocupada demais com os dias de amanhã. Não entendia que fases foram feitas pra passar.Na cegueira, fugiam-lhe os detalhes que a transportavam de um período a outro. A notícia que chega, o abraço recebido, a segunda chance, a força desconhecida, a palavra entoada, os planos arquitetados, os caminhos percorridos, os desafios superados, as dores que ensinam, os sorrisos que curam, os obstáculos transpostos, os desejos, as verdades, os recomeços. O simples despertar num dia novo. Distraída, não percebia nada. Mas se sabia errada. Num gesto furtivo, olhou pro céu e viu a lua que chegava. Nova. Aceitou o sinal. Num salto, molhou os pés e se despediu da beira-mar. Foi sem saber o que aquelas ondas acabavam de lhe ensinar. As minúcias do tempo dando sinal a cada chegada e retorno das ondas. O movimento contínuo e, no entanto renovado. Ondas que vinham e voltavam, quebravam e reconstruíam, brindavam e arrastavam. E misturavam sonhos e ciclos as ondas inquietas do mar. A moça não sabia mas o vento anunciava que uma nova fase acabara de chegar. A moça em breve descobriria que seus passos e seu coração (re)começavam a mudar.

Ela não sabia mas correu dali pra se entender com o tempo.


Yohana Sanfer