domingo, 10 de abril de 2016

“Porque sem cuidar, nada floresce.” ___________________________ Martha Medeiros

Alguém já deve ter assistido a um filme produzido em 1995 chamado “A Princesinha”, daqueles que pretendem ser infantis mas acabam sendo para todas as idades; é algo como um mito moderno, com um visual deslumbrante. Lá pelas tantas, no filme, a menina Sarah, a princesinha do título, dispara a seguinte frase para a Srta. Minchin, mulher amarga e fria que a acusara de não ser mais uma princesa, pois seu pai morrera na guerra e a deixara sem nada: “Todas as mulheres são princesas; ainda as que não são belas, ainda as que já não são jovens… todas as mulheres são princesas! É um direito nosso! Seu pai não lhe ensinou isso? Não lhe ensinou?” Quando busco na memória por belas imagens de filmes assistidos, esta cena é lembrada sempre com muito carinho, quase como se fosse uma “profissão de fé”: eu sou uma princesa, todas nós somos! Como pudemos duvidar disso? Neste momento, passa por mim uma elegante jovem com saltos altos e finos; acho curioso como é natural na mulher saber que o belo vale mais que o cômodo; como sabe que, quanto menos tocar no chão, quanto mais buscar o elevado, o celeste, mais bela e delicada ela fica; é quase que uma intuição (atributo que também é forte no feminino). E os sentimentos femininos? Todos tendem também para o céu; importa muito pouco a aparência física de alguém, se este alguém é honesto e gentil, ou se é frágil e desprotegido, e necessita de nossa atenção. Pode se tratar de uma plantinha ou de uma flor, um pequeno animal ou uma pessoa… Nossos sentimentos sempre usam “saltos altos”: admiram e cultivam a alma dos fortes, ou envolvem e acalentam os frágeis, motivadas por esta explosão de realização que traz, para qualquer mulher, a oportunidade que a vida nos dá de transbordar amor, o qual se realiza no próprio ato de “transbordar”, e se basta a si mesmo. Nossa energia não é de explosão, mas contínua e tenaz, capaz de velar pela vida por todas as noites que esta mesma vida nos oferecer, sabendo alimentar-se do bem estar e crescimento do outro como única e valorosa recompensa. Penso que até as plantas do jardim se sentem mais serenas quando uma mão feminina as cuida; sentem que esta mão não faltará, que sempre estará ali, ainda em dias de tempestade. Pois cuidar da vida no meio da tempestade tem algo de heroísmo e glória para o feminino, que nunca recusa esta oportunidade. Como sabemos mergulhar no mundo mental com objetividade e prática, buscando a solução para aquilo que necessitamos resolver! O ato de custodiar não permite protelações ou divagações, pois a vida tem seus ritmos a serem respeitados. Sempre voltamos deste plano com o alimento de que necessitamos: temos tantos filhos à nossa espera! Outra curiosidade é que talvez nosso principal adorno seja uma grande pedra de ímã: tudo e todos se agregam à nossa volta; somos ponto de encontro, de harmonia e de união. A matriarca, madura e ponderada, é sempre o coração de todo clã. E o nosso coração? Ah, se os cavalheiros soubessem como é ousado o sonho do nosso coração! Dizem os conhecedores que o arquétipo feminino em relação a todo cavalheiro se identifica muito bem com o personagem Lancelot, da saga do Rei Arthur: idealista, nobre, a serviço de uma causa humana, maior do que sua própria e simples existência material. Como nosso amor é, por definição, idealista, idealizador e celeste, sempre guardamos a propriedade de poder presentear asas a quem amamos; como é triste guardar estas asas eternamente, pois não encontramos ninguém que queira voar…Quando eu era pequena, acreditava firmemente que as libélulas eram fadinhas encantadas por uma bruxa malvada, tocando as águas em busca de encontrar seu antigo reflexo… Hoje, penso que as mulheres são libélulas encantadas pela maldição do esquecimento de sua própria identidade; esquecem que devem apenas roçar as águas do mundo material com “saltos altos”, delicadamente, formando círculos concêntricos infinitos, e que sempre devem ter um duplo par de asas, pois há que ter um de reserva… Sempre pode haver alguém, por aí, que entenda a caminhada de Lancelot, a necessidade das princesas e o sonho das libélulas. Neste sonho, reside a nossa única, real e legítima identidade; afinal, nossos sonhos também são nossos filhos, a serem cuidados e alimentados…

Lúcia Helena Galvão

sábado, 9 de abril de 2016

" (...) Guardo toda a minha entrega para o recíproco."

"Ser sensível nesse mundo
 requer muita coragem"
Era para eu te conhecer em uma cafeteria. Naquela que fica perto da livraria. Lá seria o nosso primeiro encontro. Lá trocaríamos olhares. Lá descobriríamos que estávamos a ler o mesmo livro. Lá você se levantaria para vir junto de mim e nós nos amaríamos desde o primeiro oi. Descobriríamos que ambos tínhamos adoração pela história das pessoas e que um dia nos prometemos conhecer a bela cidade de Como na Itália. Nessa cafeteria, nos desvendaríamos, nos conquistaríamos e marcaríamos de nos ver todos os dias em uma mesa próxima da porta de entrada. Naquela cafeteria bucólica, repleta de almas solitárias, acolhidas pelo clima aconchegante do local, você me daria o livro “Os Catadores de Conchas” e eu te presentearia com um diário em branco para que escrevesse com carinho a nossa história. E você, amante das palavras, me leria do começo ao fim e me transcreveria com imenso carinho naquelas páginas em branco. Deitaria sobre mim versos, frases e arranjos e eu te daria o mundo pelos olhos meus e juntos, em abraços, beijos e anseios construiríamos uma vida. Soprando nossas xícaras de cappuccino fumegante conversaríamos sobre tudo que aprendemos, sobre tudo que gostávamos, sobre tudo que nos lembrasse o amor. Então colocaríamos a língua na bebida, deixando o calor do copo se mesclar com o êxtase do amor em nós. Naquela cafeteria, com luz difusa e quadros tortos, você alisaria meus cabelos rebeldes e eu passaria os dedos pelos seus lábios tomando deles o restinho de espuma que o guardanapo esqueceu de levar. Naquele lugar que a vida reservou para nós você descobriria que a solidão em “Automat” de Hopper não me apetecia tanto quanto “O Beijo” de Klimt. Sentados em cadeiras Béranger, sonharíamos as viagens que faríamos e os filhos que teríamos. Eu terminaria minha faculdade de design e abriria minha própria loja e você publicaria seus livros e juntos faríamos um mundo melhor.Naquela cafeteria você me encontraria, naquela cafeteria me encantaria, naquela cafeteria você leria minha admiração e meu largo amor por você. Naquela cafeteria, com um cappuccino nas mãos, nos daríamos a felicidade de conhecer um ao outro. Mas houve um dia que você decidiu parar com as pequenas felicidades cotidianas. Houve um dia no qual a razão lhe disse que se economizasse no cafezinho poderia no futuro, depois de décadas, comprar com o dinheiro desse pequeno deleite diário, um carro, uma casa ou fazer uma viagem memorável. Então quando eu pus os pés dentro daquele ambiente tão nostálgico pela primeira vez, você já não estava mais. Você tinha decidido justamente no dia anterior que mudaria seus hábitos. E foi assim que a razão se colocou à frente de um romance delicado e verdadeiro. Foi assim que um cálculo genérico, de algum economista pragmático, decretou que um montante minúsculo podia valer mais que o amor. E eu ao pensar nessa razão não pude deixar de lembrar dos “quase amores” que morrem por um mau conselho, por uma decisão precipitada ou por uma orientação insensata. Se eu pudesse te pedir algo, pediria para não cortar o cafezinho. Não cortar da vida as pequenas felicidades diárias. As alegrias inocentes que fazem nosso cotidiano funcionar. Se eu pudesse te dizer algo, te diria que a razão não é uma boa conselheira. Que ela vê em filhos, gastos. Vê em amigos, inimigos das finanças. Vê a caridade como algum tipo de profanação e enxerga a vida como uma imensa planilha na qual o trabalho e o dinheiro vêm em primeiro lugar. Existe tanto amor escondido no mundo, existem tantas boas possibilidades não planejadas em nossos caminhos. Existe tanto que um cafezinho pode nos propiciar indiretamente. A vida é feita de inúmeros acasos, nos mesmos somos um. Se nosso trisavô não tivesse conhecido nossa trisavó, em um dia único, não existiríamos. A vida é surpresa, expectativa e amor. E eu ainda estou aqui, perto da imensa janela frontal desse lugar tão acolhedor. Eu ainda estou aqui, nessa cafeteria, sonhando com o amor que não se deixe envergar pela razão das coisas. Eu ainda estou aqui, molhando a língua no cappuccino fumegante, esperando o dia em que a emoção lhe grite alto e você volte feliz para um cafezinho cheio de uma alegria merecida e para um novo e inesquecível amor.




Vanelli Doratioto

sexta-feira, 8 de abril de 2016

[...] Ninguém entenderá bem o que digo e é bom que seja assim pra que os poemas não desapareçam e se façam necessários como o ar. ____________________________ Adélia Prado, in: Terra de Santa Cruz

Perdi-me na vida
achei-me nos sonhos

( Leminski) ♡

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"Sei de você até quando não pergunto. O sol da tarde de domingo sempre confessa teus lugares. Você me convidou para amá-lo, mas não sabia que convites tinham respostas que valiam para sempre. Não dispenso a falta que você me faz, ela é também companhia. Abro o e-mail, penso e penso, chego a escolher as palavras, mas não irei avançar, não irei dizer o que sobrou de mim após a despedida. Quanto tempo demora a tua hora de voltar? A espera é sempre o tempo que um lírio tem ainda na sua semente. Me ensina a reflorescer fora de uma primavera."



(Cáh Morandi)....................

quarta-feira, 6 de abril de 2016

Você pode encontrar as coisas que perdeu, mas nunca as que abandonou... ______________________ Senhor dos Anéis

"A vida de quem inventa de voar é paradoxal, todo dia. É o peito eternamente divido. É chorar porque queria estar lá, sem deixar de querer estar aqui. É ver o céu e o inferno na partida, o pesadelo e o sonho na permanência. É se orgulhar da escolha que te ofereceu mil tesouros e se odiar pela mesma escolha que te subtraiu outras mil pedras preciosas".




(By Alana Fonseca)


Bela Noite!

domingo, 3 de abril de 2016

"Ás vezes eu tenho vontade ser menos intensa, só pra poder entender como o resto do mundo aguenta essas coisas que me devoram permanentemente e de uma forma tão absurda..." _________________________ Clarice Lispector

Filosofia de Vida

Quem nunca?
Basta que eu me permita. Que eu queira, e eu quero sim, Deus, tudo de novo, ainda correndo todos os riscos de não saber administrar as doses, nem compreender a posologia de forma, ignorar todas as contraindicações como hipersensibilidade a qualquer componente da fórmula, mesmo assim arriscar a se perder, outra e mais outra vez. Não quero criar expectativas quanto ao que me espera, cansei de ilusões. Quero a plenitude daquilo que ainda não sei. Quero o inesperado batendo à minha porta. Algo bom, na fé! Não importa o que, só que seja bom.

● Angella Reis

sexta-feira, 1 de abril de 2016

Passarinho, eu já sabia, quem te prende é que está preso. No seu canto de agonia, suas asas viram peso. Ao abrir a gaiola, ao libertar o passarinho, o homem voou... ___________________ Andrade Moraes

Deus, me livre de lançar no mundo
um olhar acostumado!

Andradices

Olho ele caminhando sobre os trilhos... Ele sabe a direção, é só seguir... mas segue só. Será que ele escolheu caminhar lindamente satisfeito com a própria companhia, contemplando a natureza e fazendo o próprio ritmo... ou será que ele só perdeu o trem?




Andrade Moraes

Aquele raro instante em que os olhos se fecham pra sentir o perfume do CÉU .................................. Be Lins

Perdoem-me os insensíveis, eu sinto muito!

Josie Conti
Sou uma pessoa que precisa desesperadamente de um tempo diário só para si. É como se, após uma conversa com uma pessoa de fora, um atendimento de trabalho, passar muito tempo na rua resolvendo algo ou até mesmo passeando, toda a minha energia fosse exaurida. Aí, sinto a necessidade de um ajuste, uma dose homeopática de silêncio, uma leitura poética daquelas que são brisa dentro da gente, um filme para ver no aconchego do sofá ao lado do gato, alguma coisa dessas delícias que permitem que entremos em contato com aquela parte mais gostosa que mora dentro da gente e que sempre precisa ser resgatada.

__Josie Conti