quarta-feira, 15 de outubro de 2014

"Sabíamos que os encontros jamais se repetem, nem a emoção do alto amor. Éramos todos de cristal e vento, de cristal ao vento. E andavam nuvens de saudade por cima dos jardins. Tão grande, o mundo! Tão curta, a vida! Os países tão distantes! E alma. E adeuses." _______________________ Cecília Meireles.

Solte os seus cabelos ao vento, não olhe pra trás.
Ouça o barulhinho que o tempo no seu peito faz.
Faça sua dor dançar!
Não conseguimos nos separar. Fracassamos ao nos separar. Somos incompetentes para a despedida. Tem gente que não dá certo junto, a gente não dá certo separado. A vida fica muito pior quando isolados. Em nossa combinação, tempo é distância, distância é saudade, saudade é amor urgente. Percebo que, em sua ausência, você continua ao meu lado, eu é que desapareço. Vivo reproduzindo suas atitudes e gestos. Sou um mímico de seu rosto. Sou um intérprete de sua risada. Intriga-me este mistério que não nos permite o fim da relação. Qual a fatalidade? Será maldição? Carma? Dívidas de vidas passadas? Por que não nos desamamos? De onde vem essa obsessão, essa vontade louca de estar sempre colado? Nem as personalidades diferentes nos distanciam, coisa alguma, problema algum. É como se descobrisse que somos vampiros do amor: não há morte em nossa entrega. Já tentamos de tudo para nos separar – e não funciona. Já abusamos dos desaforos, das discussões, do ciúme. Já rifamos o passado, já criamos atritos, só fortalecemos ainda mais os laços. Cá estamos, mais apaixonados do que no primeiro dia. E ninguém entende nada, muito menos nós. Geramos crises em nossos terapeutas. Nosso amor não morre! Nosso amor não acaba! Eu me assusto com a promessa de longevidade, talvez tenhamos que envelhecer juntos, talvez seja necessário aceitar os fatos, talvez a mala não seja nossa porta, talvez o aceno seja para os outros, talvez nosso sangue sonhe filhos. De tanto criar hipóteses, investigar nossa convivência, explorar nossas confusões, eu acredito que não iremos nos separar por um simples motivo: fizemos algo de errado no início. Cometemos uma grande gafe. Uma falha imperdoável. Não sabemos quem disse o primeiro eu te amo. Não assinalamos o autor da declaração fundadora. Não anotamos o nome do corajoso. Lembramos de tudo, menos de quem disse o primeiro eu te amo. Quem declarou primeiro. Quem transformou o endereço em destino. Se não sabemos quem falou o primeiro eu te amo, resta-me crer que já nascemos nos amando...

Fabrício Carpinejar