sábado, 13 de fevereiro de 2021

"O amor começa tarde..." ________ Drummond

Drummond dizia que “amor é o que se aprende no limite, depois de se arquivar toda a ciência, herdada, ouvida; amor começa tarde”. Penso que confundimos a vontade de desvendar o outro, a sede insaciável da presença e a admiração, com o amor. O amor, mesmo, é o que começa tarde. O amor começa não na magia embriagante que é, munidos de uma curiosidade que reduz o mundo ao outro, tocar uma vida pela primeira vez; mas no encantamento que resiste – e aumenta – quando a convivência já houver recheado nossa memória com registros de todas as variações minúsculas de gestos e sorrisos que dela provêm; quando as marcas de loucura já tiverem sido captadas e tomadas como poesia e o sofrimento alheio escorrido de nossos olhos. O amor começa não nos diálogos agradáveis e engraçados, não no bem estar e admiração mútuas que as palavras trocadas são capazes de fornecer: isso é o que nos convida a abrir a porta e ir deixando alguém entrar. O amor começa tarde. Começa quando nem todos os momentos compartilhados requerem palavras que externem aquilo que se sente, simplesmente por estarmos tão conectados a alguém a ponto de olhar nos olhos e apenas com uma troca de sorrisos carregar a tranquilidade que o nosso coração sente ao confirmar que o do outro está sentindo o mesmo, de que ele está ali, compartilhando daquele momento com a mesma intensidade e o enxergando através das mesmas lentes: aquelas moldadas pelos arquivos diários e silenciosos do amor. O amor começa não só na euforia das noites de sexta-feira, mas nos tédios compartilhados de domingo; não só na sinfonia do encontro de timbres, mas no descobrimento da paz que mora dentro dos silêncios cotidianos. O amor começa depois. Depois que aquela vida que nos tira o ar tantas vezes, for também a mesma que, simplesmente por existir e respirar, nos dá coragem e vontade de continuar fazendo o mesmo.


Patricia Pinheiro

terça-feira, 9 de fevereiro de 2021

"(...) Venho sonhando, durante as tardes, que preciso. No momento, minhas boas intenções sofrem. Minhas mãos. As ideias. A segurança." ___________________________________ Priscila Nicolielo

“Essa menina é um furacão, moço.
Mas o amor também é.”


— A menina e o violão.
Com os ensejos que foram-me ofertados aprendi que as mulheres entregam lascas de ouro em entrelinhas curvilíneas. E saber lê-las é o que diferenciam os homens. Sim, mulheres desejam ser possuídas. Mesmo que não admitam. (...).Possuir uma mulher é muito mais do que levar seus orgasmos ao sexto sentido, mas sim fazê-la sentir-se a vontade para ter esses orgasmos e sorrisos, todos múltiplos, sem receios, culpas, inseguranças e questionamentos retóricos. Fazê-las fazerem algo que nunca imaginaram e mesmo assim sentirem-se felizes, confortáveis e compreendidas é o ponto chave de todo enredo. Mulheres precisam ser descobertas e compreendidas, e essa sensação de compreensão se passa com olhares, sorrisos e mãos firmes. (...) Por uma sociedade ainda pouco adaptada e evoluída à chegada incisiva e direta da mulher – o que considero uma pena – elas nos dão deixas sutis, onde os espertos captam e transformam pequenas mexidas de cabelo e sorrisos de canto de boca em um final de noite em uma praia despovoada regada de sorrisos e orgasmos cabais. Mulheres querem homens com histórias e peculiaridades. Não com carros e roupas de marcas estendidas no varal da noite. Qualquer mulher pode ser conquistada por um papo regado de esmero, gargalhadas e charme. E isso não há falo ostentador que compre. Mulheres querem caras com pegada na cama, mas principalmente na vida. Um homem com um horizonte amplo, mas principalmente com ação frente ao mundo.(...) Fazer uma mulher sentir-se compreendida e respeitada é abrir uma porta de ventura mutua..(...) Só estou dizendo que com o tempo aprendi a importância de saber desferir belos tapas e puxões de cabelo, como também sei beijar-lhe o pescoço e ceder um pouco de mim ao ver um filme recheado de paixão e brigadeiro de colher. Me dediquei a conhecer e estudar as mulheres pelos bares e supermercados que permeio, o que até hoje não sei se é um problema ou uma solução.


Frederico Elboni

Texto na Íntegra Aqui

sexta-feira, 5 de fevereiro de 2021

Um pedido a Deus: “Ensina-me a contar os meus dias de tal maneira que eu alcance coração sábio”____________ (Salmos 90.12).

Talvez o Salmo 90:12 seja um dos versículos mais lidos em aniversários. Porém, nem todos compreendem sua mensagem com clareza. Uma leitura desatenta pode fazer o leitor pensar que o simples fato de contarmos os dias se passando em nossas vida nos fará alcançar a sabedoria. Entretanto, isso não é verdade. Sabemos que o verdadeiro caminho para a sabedoria é o temor do Senhor. Por isso, sem o temor do Senhor você poderá até se tornar uma pessoa experiente, mas não uma pessoa sábia. Precisamos lembrar que existe a sabedoria humana e a sabedoria dos céus, e é desse que estamos em busca. À luz das Escrituras, vemos que o passar do tempo não dá sabedoria automática ao homem. O que pode dar sabedoria é o que fazemos com o passar do tempo, o que fazemos com a experiência. O salmista declara: “Sou mais prudente que os idosos, porque guardo os teus preceitos”(Salmo 119:100). 


NIVER 02/02/2021

 

Assim, ao perceber a brevidade da vida, o Salmista pede a Deus: “Ensina-nos a contar os nossos dias, de tal maneira que alcancemos corações sábios”. Em outras palavras, ele está pedindo a Deus que lhe dê condições de perceber a passagem do tempo, a brevidade da vida, e ao perceber como somos frágeis, que isso o ajude a alcançar a sabedoria. Sim, o passar do tempo pode nos ajudar a alcançar a sabedoria, mas para isso precisamos perceber como somos frágeis. Isso faz com que coloquemos nossa confiança no Senhor, naquele que de eternidade a eternidade é Deus, e não pode ser abalado.

  • Por isso, assim como o Salmo 90:12, peçamos a Deus: “Ensina-nos a contar os nossos dias…”.


fonte: http://servolivre.com/2016/05/25/ensina-nos-a-contar-os-nossos-dias/ 

quarta-feira, 20 de janeiro de 2021

A pessoa planta um amor para colher uma saudade. Porque regou as flores se não iria ficar para a primavera? ______________________________________ D.A.


“Se era amor? Não era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistência que machucava, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e não era amor, então era o que? Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranquila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de um dia para o outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas não era amor. Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro. Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga. Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento. Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responder às minhas próprias perguntas. Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto. Se não era amor, Lopes, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e estou voltando a pé pra casa, avariada. Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Eu nunca amei aquele cara. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travessos. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor.” 

Martha Medeiros, Divã

segunda-feira, 18 de janeiro de 2021

Foi numa dessas curvas ilógicas da vida que muita coisa passou a fazer sentido. Há muita experiência que, não fosse na dor e na incompreensão, eu jamais teria aprendido. E não falo de saudade ou lugares vazios: falo dos tapas na cara que fizeram melhor a mim do que aos agressores. _________________________ Camila Costa.

Não é fácil aceitar as próprias lacunas e assimilar as ausências. Não é simples calar desejos de dias melhores alimentados por anos a fio. A conformação, pra mim, nunca foi um processo rápido e muito menos indolor. Mas eu consegui. E compreendi, embora não sem dor, que o que eu quero não tem nome.
Autoria: Silvia Prata

segunda-feira, 28 de dezembro de 2020

Eu, particularmente, gosto de réveillon. Gosto dessa sensação de um ciclo sendo encerrado e outro iniciado. Por isso, desejo a você, caro leitor, um recomeço singular e intenso.


Dez 2020

"Hoje eu apenas queria escrever um texto-sopro. Um texto sereno de beira de mar. O último de 2020. Esse ano em que tudo me cortou e me rompeu. Em que me costurei de novo com linhas imaginárias, tecendo novos sentidos. O ano. Ritual. Gosto das passagens.  Voo ao teu encontro querendo deitar a cabeça no mar. O mar é um colo. Deixo-me chorar o encanto do mar. É que a gente também tem um mar por dentro. Hoje eu queria apenas ser doce. Lavar o sal da pele no rio. Deitar na rede que me embala o pensamento. Sentir a grama verde nos pés de areia, me penetrando os dedos. Dormir exausta de cansaço com o corpo quente, sentindo o gosto de vinho nos lábios. Apenas. Delicadezas. Dessas que a vida ganha cores. Sabores. Leveza de sentir amor no vai e vem das ondas. Acalento na impermanência do mar. Saudação. Hoje eu queria apenas o silêncio diante da enormidade de não saber, que ergue indefinido em frente aos olhos. Deixar-me levar sem porto de chegada. Despida de tudo que me cabe, despeço – me de 2020. Não lamento, só agradeço. Sinto em mim os ecos das vivências. O sabor das dores. A grandeza dos amores. As incompreensões que me moldaram novas formas de existir. E assim reverencio a vida que me arrebata sem começo nem fim, flutuando na corrente do rio. Feliz 2021, ano novo. Recebo – te com o espanto de uma criança diante do mar.  Nem mais nem menos. Apenas. "


Silvia Badim




FELIZ ANO NOVO!!


domingo, 13 de dezembro de 2020

Para falar do Natal, não existem segredos, basta olhar para dentro de nós mesmos. ______________________________________ Fernanda Molina


Img:  Natal 2019


Natal

Acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.
Era gente a correr pela música acima.
Uma onda uma festa. Palavras a saltar.

Eram carpas ou mãos. Um soluço uma rima.
Guitarras guitarras. Ou talvez mar.
E acontecia. No vento. Na chuva. Acontecia.

Na tua boca. No teu rosto. No teu corpo acontecia.
No teu ritmo nos teus ritos.
No teu sono nos teus gestos. (Liturgia liturgia).
Nos teus gritos. Nos teus olhos quase aflitos.
E nos silêncios infinitos. Na tua noite e no teu dia.
No teu sol acontecia.

Era um sopro. Era um salmo. (Nostalgia nostalgia).
Todo o tempo num só tempo: andamento
de poesia. Era um susto. Ou sobressalto. E acontecia.
Na cidade lavada pela chuva. Em cada curva
acontecia. E em cada acaso. Como um pouco de água turva
na cidade agitada pelo vento.

Natal Natal (diziam). E acontecia.
Como se fosse na palavra a rosa brava
acontecia. E era Dezembro que floria.
Era um vulcão. E no teu corpo a flor e a lava.
E era na lava a rosa e a palavra.
Todo o tempo num só tempo: nascimento de poesia.

– Manuel Alegre, em ‘Antologia Poética’.




Françoise ajudando a 
 Montar a árvore!!

nov/ 2020