quinta-feira, 15 de dezembro de 2016

“Falo do amor de forma mística, sei o preço. (…) *


Quando se percebeu amando - verbo este deliciosamente posto no gerúndio - havia ela já cruzado passos da sutil linha entre qualquer coisa e o amar. Pudesse esta qualquer coisa antes ser paixão, entusiasmo, desejo, afeto, dedicação ou estes todos e outros mais catalogados. O que agora era, era a soma e a exata descontinuidade disto. E não seria o tempo a legitimar o amor. E não seria palavra vinda da boca a iniciar o tempo em que se ama. Quando se percebeu amando, havia já colhido em silêncio o fruto da árvore sem se dar conta. Quando se percebeu amando, percebeu apenas porque já se era outro. Caia o homem no abismo para elevar-se, dando por si nos seguintes dias do seu próprio renascer.


Guilherme Antunes-Adaptado


Simone de Beauvoir

quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

"Quem vive num labirinto tem fome de caminhos." _______________________ Mia Couto

se fizeres teu caminho inverso, qualquer hora dessas a gente se esbarra.
e, com sorte, reescreve todo o passo que desviou.
mas por agora, deixa! que eu não sei inventar um jeito de não partir e tenho chão demais pra riscar com carvão e giz. 
.do outro lado.
dentro.
que, embora a gente ainda prefira acreditar que amor da vida não existe, eu quero construir morada num coração aberto, que tire meu silêncio pra dançar sempre que os dias pensarem em se resumir em solidão.
não pense que não me dói qualquer partida.
mas é que fiz desse sorriso meu escudo. 
e aprendi desde menina que o mundo é grande demais pra gente fincar estaca em qualquer 
chão.
por isso falo baixo.
ouço mais do que digo.
pareço às vezes não me importar.
desconfio da esmola.
desconfio do santo.
tenho medo do mar.
há de chegar o dia em que nosso silêncio vai dizer tanto! 
e a gente não vai mais precisar partir.
ou insistir.
até lá, tem café fresco e forte no bule na cozinha,
pra que seu dia passe e você sequer sinta que faltou alguma coisa.
porque vai ver, nunca faltou nada.
vai ver, o vazio foi sempre veio do meu peito.
e das minhas vontades de voar...


Debora Gomes

domingo, 11 de dezembro de 2016

Ela faz charme, pois espera que alguém desarme as suas defesas. _______________________ Noemi Prates


"Vontade de me apaixonar, de ser vencida por um olhar, de ser roubada por uma mão que me pega na cintura, de ver alguém me descobrindo com ar de surpresa, de perder o raciocínio para o pensamento em alguém, de não enxergar distância entre os dois lados da cidade, de me arrumar por algum motivo a mais que o trabalho, de ter disposição para encontrar músicas novas, de ler uma poesia e saber que seria possível vivê-la, de encontrar alguma graça em passar pelo domingo, vontade de ser encontrada em uma multidão de vazios, vontade de que fosse agora e para sempre. Preciso te achar desesperadamente e é tão pouco e quase próximo...o que nos separa são os encontros."

Cáh Morandi

quinta-feira, 8 de dezembro de 2016

Outro dia me falaram do amor que nunca vem. Esperas, distrações, descrenças. Uma janela aberta caso o vento fosse portador de tal evento. Pra quem sabe o amor, ele está na próxima esquina. Isso me encanta. Sou das esquinas. E das janelas perfumadas do teu cheiro. _______________________ Dan Cezar

Amamos como nos amaram. Amamos como permitimos que nos amem. Amamos como permitimos nos amarmos. Amamos como gostaríamos de ser amados. Amamos como gostaríamos de ter sido amados. Amamos como já nos faltou amor. Amamos como faltou amarmos. Amamos de posse de todas as certezas. Amamos carregados de todas as dúvidas. Amamos como se fosse simples. Amamos como se difícil fosse. Amamos como se fosse apenas desejo, e desejamos como se pudesse ser amor. Amamos como faltou termos acertado mais. Amamos como faltou termos errado mais. Amamos como se fosse o primeiro. Amamos como se fosse o último. Amamos como se no amor tudo esperássemos. Amamos como se não quiséssemos nada mais. Amamos como se nos sobrasse. Amamos como se nos faltasse. Amamos melhorados. Amamos piorados. Amamos armados e armamos jeitos vários de não amarmos mais, para depois desamarmos ainda amando. Amamos como quem busca. Amamos como quem se encontrou. Amamos. Amemos. Ao menos, que possamos dizer que ao final tentamos.

Guilherme Antunes

quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

Desejava ela ter pássaro no lugar das tristezas, para que voasse com a urgência grande de esquecer assuntos. _______________________ Guilherme Antunes

Talvez exista um lugar que negamos haver em nós justamente porque nos pede atenção; e que mais ignoramos quanto mais nos convoca. Um lugar a guardar nossos vazios. Um cativeiro para as nossas rejeições. Um cárcere para todos os medos. Um espaço invisível a desabitar-nos por inteiro desocultado apenas pela inconsciência. A consciência pouco sabe e pouco desconfia. Acredita no que vê. Magoa-se com a palavra. Apaga se ameaçada. Sujeita às interrupções. A inconsciência é o palco em que a vida se ouve mesmo calada. Sabe da lágrima, da culpa, dos nós. Aguarda-nos no sonho, na palavra, no erro. Espera-nos do lado avesso da liberdade. Uma liberdade que preservamos às custas deste lugar que negamos haver em nós e que nos convoca. A liberdade que somente acreditamos.Aquela que não é. Aquela onde nunca estamos.




Guilherme Antunes

domingo, 4 de dezembro de 2016

Tens a medida do imenso? Contas o infinito? _____________________ Hilda Hilst

Há quem diga que o pássaro sabe de liberdades, que a primavera sabe das flores, que a prosa fala de amores. Há quem pense que Deus esta no rito, que a voz esta no grito, que os sorrisos são feito de cores. Há quem acredite que o sol se deita mais cedo quando a tristeza dança com as estrelas e que as madrugadas visitam mais as noites acordadas somente quando um sonho não dorme. Há gosto pra tudo, há adeus nos olhos e um diálogo mudo. Há despedida apressada, há página do último capítulo molhada pela lágrima do destino. Há quem pense que é homem, mas no fundo é menino. Há tanta chance descartada, há quem faça a escolha errada e há também quem tem alma alargada pela esperança de um talvez. Há quem conte a história sem legenda, e, mesmo que ninguém entenda, o final começa com: era uma vez......(reticências)

Lilian Vereza

"Espero alguém que fique me chamando para dormir, que fique me chamando para despertar, que não precise me chamar para amar." ________________________ (Fabrício Carpinejar)

"Espero alguém disposto a conferir se a porta está fechada e o café desligado, se meu rosto está aborrecido ou esperançoso. Espero alguém que prove que amar não é contrato, que o amor não termina com nossos erros. Espero alguém que não se irrite com a minha ansiedade. Espero alguém que possa criar toda uma linguagem cifrada para que ninguém nos recrimine."




(Fabrício Carpinejar)