sexta-feira, 14 de agosto de 2015

"Ela tinha nos olhos uma verdade bonita. Era imperfeita, mas tinha dentro dos olhos - ela tinha - a beleza de ser ela mesma, e de não gostar de fingir." _________________________ Rachel Carvalho

E do que precisamos?
Anote aí, é pouca coisa:
 silêncio, arte e amor.


Martha Medeiros.
“Há em nós a lucidez dos loucos, mas não daqueles loucos comuns que habitam este mundo em cada esquina. Somos da quota de loucos que não aceitaram suas prisões e que não entraram por liberalidade em suas gaiolas. Que não se amarraram ao outro com suas correntes. Somos da fração da loucura que abriu mão do dia-a-dia. Há em nós a rebeldia dos que não se contentaram com o peso da realidade e abriram suas porteiras na busca de alcançar o horizonte.”

Guilherme Antunes

quarta-feira, 12 de agosto de 2015

"Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. O que sei é que não quero aquele sono outra vez." _________________________

Quis a moça desavisada
deixar seus encontros e querências
 todas nas mãos do destino.

Gui Antunes
"Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a lembrar de onde é o céu e a perceber que o inferno é onde a gente mora quando tudo é sono. Comecei a sair dos meus desertos. E a olhar, ainda que timidamente, para todas as miragens, sem tanto desprezo, entendendo que havia um motivo para que elas estivessem exatamente onde as coloquei. Nenhum livro, nenhum sábio, nada poderia me ensinar o que cada uma me trouxe e o que, com o passar do tempo, continuo aprendendo com elas. Dizem que só é possível entendermos alguns pedaços da vida olhando para eles em retrospectiva. Acho que é verdade. (...) Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que comecei a compreender o respeito e a reverência que a experiência humana merece. A me dar conta de delícias que passaram despercebidas durante um sono inteiro. E a lembrar do que estou fazendo aqui. Ainda que eu não faça. Ainda que os vícios que o sono deixou costumem me atrapalhar. Ainda que, de vez em quando, finja continuar dormindo. Mas não tenho mais tanta pressa. Comecei a aprender a ser mais gentil com o meu passo. Afinal, não há lugar algum para chegar além de mim. Eu sou a viajante e a viagem. (...) Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. Só sei que não importam todos os rabiscos que já fizemos nem todos os papéis amassados na lixeira, porque todo texto bom de ser lido antes foi rascunho. E, por mais belo que seja, é natural que, ao relê-lo, percebamos uma palavra para ser acrescentada, trocada, excluída. A ausência de uma vírgula. A necessidade de um ponto. Uma interrogação que surge de repente. Viver é refazer o próprio texto muitas, incontáveis, vezes. Não sei exatamente em que momento comecei a despertar. O que sei é que não quero aquele sono outra vez."


Ana Jácomo

segunda-feira, 10 de agosto de 2015

“Moça, você tem alma colorida pintou as suas dores com tintas e plantou flores em suas feridas.” ____________________ — Aquarelismo

"Venha o vento que houver"

Sandra Costa
Hoje talvez não. Talvez hoje ainda vai te aumentar a vontade de querer morrer. Hoje você ainda vai se sentir idiota por ter respondido aquelas mensagens tão depressa; hoje você ainda vai se arrepender por ter colocado um apelido carinhoso no lugar do nome na agenda do celular. Hoje tudo isso e muito mais, mas amanhã não, porque amanhã vai ficar tudo bem. Vai levar um tempo até que o vento volte a beijar seu rosto ao invés de te cortar feito navalha. Vai levar um tempo para que as coisas que te faziam bem parem de te fazer mal. Vai levar um tempo até que você entenda que lutar contra é desperdiçar sua força. Você vai levar um tempo para encontrar um lugar pra lembrança ficar em você. Vai levar um tempo, mas o tempo vai levar e amanhã vai ficar tudo bem. Vai doer até mesmo pra esperar a margarina fixar completamente no pão pela manhã; e as voltas da colher misturando açúcar no café vão parecer intermináveis. Um monte coisa ainda vai te desequilibrar e, no fundo, você sabe que vai. E tudo isso só acontece porque você é de verdade. Você já passou por coisas parecidas antes. Você se frustra – e tem esse direito – mas sabe o quanto tudo isso faz parte. “Mas eu não sou obrigada a ter que ficar bem sempre, eu não esperava pelo que aconteceu!” – você tem toda razão ao pensar e se sentir assim. Você não deve fingir que está feliz enquanto se refaz aos cacos um por vez, mas você só vai melhorar quando aceitar. Hoje as coisas podem não estar tão boas e por isso os vídeos de bebês sorrindo não tem tanta graça, mas amanhã vai ficar tudo bem. Hoje as músicas que te relaxam serão a passagem para a sua saudade repleta de desejo de voltar no passado, mas tem um monte de refrão novo te esperando para você cantar gritando. Hoje você ainda vai ter que lidar com alguns fins. Vai ter que parar de seguir nas redes sociais, vai ter que desfazar amizade com alguns amigos, vai ter que deletar algumas fotos, vai ter que esconder ou atear fogo em alguns presentes; hoje você vai ter que passar por tudo isso, hoje você vai ter que se despedir para dar espaço a um novo olá, mas sabe, amanhã vai ficar tudo bem. Hoje você só precisa focar na paz para os seus dias. Hoje você precisa lembrar das contas à pagar; precisa lembrar que nenhum emprego aceita atestado de saudade pra faltar. Hoje você precisa lembrar que antes de ontem você já tinha muitos motivos para comemorar. Hoje você precisa lembrar do que já viveu de bom para se motivar a viver algo ainda melhor. Hoje você não precisa se preocupar com nome e sobrenome, não precisa medir suas palavras e muito menos precisa encontrar indiretas pra postar; hoje você só precisa compartilhar coisas que você gostaria de receber. Amanhã vai ficar tudo bem. Deixe de se olhar no reflexo do vidro no metrô e olhe para um novo e bom livro no seu colo. Deixe de procurar o que não deseja encontrar. Vai passar. Você nem vai perceber quando isso acontecer, só vai se dar conta quando não for mais da sua conta. Hoje vai ser difícil, no entanto convenhamos: não são todos os dias os nossos preferidos; respire devagar, tenha pressa somente em se alegrar, deite seu corpo e levante sua alma pois amanhã vai ficar tudo bem>

quinta-feira, 6 de agosto de 2015

“De quem seria o amor se não fosse dos loucos?” _____________________ — Sobre Amar, Enlouqueço

Olham-se. Tocam-se. Abraçam-se.
 Apaixonam-se. Amam-se.

Se é recíproco, tudo é mais fácil.

-Saulo Pessato
“Liberdade na vida é ter um amor pra se prender. A gente reclama muito da dependência, mas como é maravilhosa a dependência! Confiar no outro. Confiar no outro a ponto de não somente repartir a memória, mas repartir as fantasias. Confiar no outro a ponto de esquecer quem se foi, sem que o outro esteja junto. É talvez chegar em casa e contar seu dia e só sentir que teve um dia quando a gente conta como foi. É como se o ouvido da outra pessoa fosse nossos olhos. Amar é uma confissão. Amar é justamente quando o sussurro funciona muito melhor do que um grito...”

— Fabrício Carpinejar

quarta-feira, 5 de agosto de 2015

E não existe uma Flor, que não se renda a um Beija-Flor. ________________________ Torsh



Toda sensação de perda 

vem da falsa sensação de posse..." 

Gasparetto
"Maria Rendeira se rende a qualquer fio. Vive enrolada em vários ao mesmo tempo. Tece renda, borda vestidos, faz flores de crochê para os cabelos e tem um gatinho chamado Agulha, que dorme na cesta dos novelos de lã. Maria Rendeira, além de bordar e tricotar também gosta de filosofar. Sabe que a vida também é tecida fio a fio, e que o enrosco dos fios são como os desafios da vida, e que no bordado como na vida, às vezes a gente tem afrouxar o fio para poder continuar."

Fernando Coelho

segunda-feira, 3 de agosto de 2015

"Nunca fugi do amor. Confesso. Fiz dele a sorte do meu azar. Duvido dos amores fáceis. Dos que se ostentam em capa de revistas. Dos que não caem em tropeços e seguem em linha reta sem ter que nunca contornar. É antigo, eu sei. Mas, eu sempre sangrei amor. E me curei só para recomeçar." _______________________ PHAlmeida

"Caminhando e vivendo
com a alma aberta

Aquecidos pelo sol que
 vem depois do temporal"

TM
Prometo falhar.  Sem hesitar. Prometo ser humana, aqui e ali ser incoerente, aqui e ali dizer a palavra errada, a frase errada, até o texto errado, aqui e ali agir sem pensar, para que raios serve pensar quando te amo tão desalmadamente assim? Prometo compreender, prometo querer, prometo acreditar. Prometo insistir, prometo lutar, descobrir, aprender, ensinar. Tudo para te dizer que prometo falhar. E Deus te livre de não me prometeres o mesmo. E ela sentiu a respiração a faltar, hesitou como nunca tinha hesitado, quis pensar aquilo tudo, colocar todas as possibilidades nos pratos da balança, mas quando deu por si não disse «quero tanto mas deixa lá», quando deu por si estava a pensar em como conseguira deixar de pensar, um ou dois segundos de ela própria, o amor só existe quando nos oferece pelo menos um ou dois segundos de nós próprios.«Se voltas a falhar juro que te amo para sempre.»E ela falhou.

_______________________________________
in "Prometo Falhar" - bestseller, de Pedro Chagas Freitas

sábado, 1 de agosto de 2015

S.O.S: O amor é a nossa unica chance. _________________________ Fernando Coelho

Quando o médico a examinou, ficou perplexo. Nunca vira, assim, um caso tão grave. Os sintomas eram tantos! A menina não tinha mais sede de alegria, fome de contentamento. Padecia de inapetência da vida. Seguia no automático, como se viver fosse uma obrigação burocrática e o vivente um funcionário que aguarda soar o alarme da saída para bater o ponto final. Era meio desligada, desapercebida do mundo. Algumas coisas, contudo, a incomodavam bastante. Uma delas era a lentidão das horas. Era imperioso que dia terminasse logo. Um dia a menos: missão cumprida. Outro incômodo era a pressa de todo mundo por alcançar uma porção de coisas sentido. E depois que as pessoas alcançavam “o-seu-sem-sentido-da-vez”, corriam a forjar outras metas ainda mais estranhas e descabidas, como a fama pela própria fama, o ter o desnecessário, o possuir em esbanjamento o que ao outro falta, o dominar o outro, o apropriar-se do trabalho alheio sem a justa contrapartida.”Estou, sim, a viver. Tenho este pedaço de vida — disse, apontando um novo caderninho — quase a meio.”Mia Couto, no conto “O menino que escrevia versos”.Esse incômodo tinha um agravante máximo que, penso eu, foi o que de fato a adoeceu. É que essas pessoas se arvoram na autoridade de ditadores das regras do mundo e exigiam que a menina também agisse assim. Mundo insano que a alma golpeia e de ninguém compadece! Os parentes se preocuparam imensamente pela desimportância que a menina dava às coisas sérias do mundo. Imagina, ela era capaz de perder tempo olhando as formigas no quintal enquanto o jornal da noite dava notícias de severas ocorrências políticas. Gostava de ficar horas em silêncio, sozinha, como se quisesse ouvir alguma vez que vem de dentro. Não tinha ambições maiores, falava com pouca gente (por falta de afinidade, mesmo)… E a solidão a assumiu por completo. Mesmo quando cercada de pessoas, ela estava sozinha. Isso era certo. A tristeza foi se acumulando na alma. Se ninguém a aceitava do jeito que ela era, ela se deu ao luxo de também se rejeitar. Até que a situação chegou a um ponto insustentável. Ela estava fraca e abatida. Há dias não ia ao trabalho ou à escola, não comia, não saía do quarto. Seus pais decidiram levá-la ao médico, temerosos de um mal maior. – É um caso gravíssimo, asseverou o médico. – A menina padece de excesso de abstrato no peito, palavras petrificadas na alma, utopias invencíveis, encantamentos intocados. Tem nas entrâncias, devidamente resguardas, as dores do mundo e nutre tendência às desimportâncias. É alérgica a vacuidades pomposas e a vaidades diversas. Ela corre risco de morte. Os pais não entenderam absolutamente nada, mas ficaram atônitos quando ouviram a palavra “morte”. – O que podemos fazer, doutor? Ela tem cura? Diga, pelo amor de Deus, diga! – Incurável. A mãe chorava copiosamente. – Podemos ajudar de que modo, Doutor? – Caneta e papel em dosagens desmedidas. Em casos de poesia crônica, escrever é sempre a única receita, a única alternativa.




Nara Rúbia Ribeiro